quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Nascemos vazios



        Nascemos incolores, bissexuais, ateus, apolíticos e apátridas. Ainda cedo começa a guerra. Já saímos da maternidade com um laço de fita grudado na careca, ou um crucifixo no pescoço, ou sapatinhos com o escudo do time do pai, ou enrolado num cueiro  estampado com a bandeira do país ou  o símbolo do partido, escola de samba e outras bizarrices.  No pulso direito o nome da mãe e o número do cartão de nascimento com peso, tamanho e cor da pele: preto, branco ou pardo. Pardo... Sempre me intrigou se nesse pardo está incluído o amarelo, bege, marrom, rosado, vermelho, moreno jambo, bronze, gelo. Se assim for acredito ser a humanidade 99,99% parda. E olha que nem fomos agraciados com as matizes multicoloridas dos cães e gatos. Imagino que a história da humanidade seria bem diversa desta.
        Mas voltemos ao vazio. Com o bombardeio social passamos a seguir dogmas inexplicáveis, cultivamos misteriosos valores, herdamos ódios travestidos de tradição, abraçamos ideologias alheias e optamos pela aceitação em detrimento do desejo. Viramos inimigos de nós mesmos e passamos o resto da vida na luta inglória pelo resgate da própria identidade.
        Lá pelas tantas da perene existência humana algumas ovelhas desgarram-se do rebanho e a real natureza do ser desperta, questiona, ousa, muda, rompe com estereótipos, assume, cria e descobre a inexistência absoluta da verdade. É fácil? Longe disso. A liberdade é um produto caro, perecível, sem fornecedores confiáveis, sem crédito aprovado no banco e inexistente na tabela das seguradoras. É investimento pessoal de alto risco, sem garantia de retorno.
        Ser livre é só para os fortes; e não é obrigatório.