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Assombro tecnológico

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Ahrg! Celular vibrando no bolso sempre me assusta. Tem o efeito similar a enfiar o dedo mindinho na tomada. Se estiver no toque de voz, pior ainda. Assemelha-se a alguém bater na porta do banheiro quando estamos ocupadíssimos. Nunca espero uma ligação no celular. Não sei nem por que tenho esse troço. Quando estou escrevendo posso até ter uma síncope se receber uma ligação ou alguém tocar a campainha. E não tem como ignorar, é pior. E se for urgente? Alguém que amo precisando de minha atenção? Uma oportunidade impar? Pronto. Já estragou tudo; Não sei mais o que estava fazendo antes de ser ferozmente interrompida. Ciente de minha sensibilidade, procurei colocar um toque sutil e tranqüilo: o miado amoroso de um gatinho. Mesmo assim sou pega de surpresa. Minha gata está me chamando? Com fome? Com sede? Engasgada com uma bola-de-pêlo? Não tem jeito. Esse monstro não me larga.

Ontem encontrei o Tempo na esquina.

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Ontem encontrei o Tempo na esquina. Ele estava apressado, mas como sempre, disposto e bem apessoado. Falou rápido de seus novos projetos e da felicidade de me ver. Arrancou-me gargalhadas ao relatar suas últimas peripécias na noite anterior. Havia torturado algumas almas na madrugada e infestado de criação os insones. Agora não podia me dar muita atenção, pois o trabalho o chamava. Labutava em um projeto complexíssimo no centro financeiro. Coisa grande que exigia dedicação exclusiva. Não reclamou, embora tenha transparecido preferir as missões na beira da praia ou na floresta. Perto da despedida me encarou e não mediu escrúpulos no arremate: Onde você esteve? Nunca mais te vi...Andou dormindo, foi? Ando preocupado com o seu prumo...Descompassada, sorri e o abracei com tanto amor e carinho que tinha a certeza de não mais deixá-lo escapar. Gentil, aceitou o afago, no entanto, me afastou de seu corpo lentamente, beijou meus dedos, prometeu visita e telefonema, afagou meus cabelos e pediu ...

Vivo

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Artérias desentupidas Válvulas lubrificadas Sigo o rítmo do sangue Em glóbulos incansáveis Pulso absoluta O sentido mitral; Vivo, A conquista do meu, do teu batimento ecodopler abismal.

Branco

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Durante o apagão mundial, quatro canetas foram encontradas estateladas na calçada; sem tampas. A vermelha foi levada para o fabricante em estado gravíssimo, vazando muito pelo fundo. A azul, desacordada e já apresentando coloração azul-bebê, recebeu massagem na carga e respiração ponta-a-ponta ali mesmo no meio-fio. Melhor sorte não teve a esferográfica preta que estrebuchava com metade de seu acrílico afundado. Naquele vexame todo, deixaram a verdinha por último. Afinal, era a única aparentemente sem ferimentos e consciente. Embora imóvel, acompanhava os trabalhos dos para-médicos com atenção vegetal. Quando as demais vítimas já haviam sido socorridas, a verde gritou: “Papel! Papel!”. Respirou fundo e, entupida, desmaiou. Naquela fatídica noite, quem não conhecia lápis não escreveu. E o dia amanheceu em branco.

Os doze pecados

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Doze meninos estavam jogando bola no campinho Veio uma bala encontrada e ficaram onze; Onze barrigas estavam crescendo Veio o desespero e ficaram dez; Dez crianças estavam estudando Veio a miséria e ficaram nove; Nove atletas estavam treinando Veio o tráfico e ficaram oito; Oito artistas estavam criando Veio a censura e ficaram sete; Sete agricultores estavam plantando Veio a fome e ficaram seis; Seis pais de família estavam trabalhando Veio o desemprego e ficaram cinco; Cinco jovens estavam vivendo Veio o álcool e ficaram quatro; Quatro belos estavam se amando Veio a doença e ficaram três; Três poderes estavam conversando Veio a corrupção e ficaram dois; Dois poderes estavam disputando Um foi morto e outro ficou mudo; O um poder estava cansado Veio o sono e foi dormir cedo.

Analfabeto

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Quando o dia nasceu, já tinha terminado de ler o livro: foram trezentas páginas sorvidas sofregamente. Fechou os olhos para digerir tudo aquilo. Depois de quinze minutos ruminantes, teve uma revelação: não sabia mais ler, muito menos entender qualquer coisa escrita. Tinha sido abduzido pelos extraterrestres da ignorância. Desespero puro. Procurou no arquivo morto o abecedário, sem sucesso. Não havia mensurado o perigo subjetivo daquele romance. Nunca mais seria o mesmo. Correu até a sala e pegou o jornal do dia anterior tentando ler as manchetes. Nada, estava completamente analfabeto. Esperançoso, pegou papel e caneta para escrever seu próprio nome...Não sabia! O nome sabia, não sabia quais sinais usar para formar seu nome! A partir daquela manhã, seria escravo da TV para saber dos acontecimentos do mundo e, para formular uma opinião, ficaria vagando entre os amigos, mendigando impressões sobre o planeta, o aquecimento global e tal. Com os nervos germinando dos poros, agarrou-se ao pri...

O botão do elevador

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Cada vez que apertava o botão do elevador acendia uma luz vermelha. Isso era todo santo dia: Inês acordava, fazia xixi, tomava banho cantarolando, escovava os dentes, alimentava e alisava a gatinha, lia o jornal, aguava as plantinhas, tomava café-com-leite e pão-com-manteiga com a família, arrumava a bolsa, vestia a roupa, calçava os sapatos, separava o dinheiro trocado para a passagem, beijava os seus, abria a porta, saía, fechava a porta, descia as escadas, atravessava a praça, pegava o ônibus, sentava na janela, descia no Centro, atravessava a rua, empurrava a porta blindex, dizia bom dia sorrindo para todos no salão e...apertava o botão do elevador. Era o momento em que o tempo parava, ali, em frente ao botão do elevador. Todo dia sentia um frio na nuca, olhava para a rua e dava uma vontade de sair correndo... mas sempre olhava de volta para o botão do elevador até acender a luz vermelha. Feita a luz, a partir daquele instante, não era mais a Inês que estava ali, a nossa Inês, lemb...