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Queridas latinhas

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- Sabe aquele monte de latinhas fedorentas? - O que tem? - Estava ocupando muito espaço na estante. - E? - É. Vendi. - Você vendeu a minha coleção de latinhas que junto desde o meu primeiro porre? - Essa mesma. A estante agora cabe até livro. - Você enlouqueceu? Não me respeita mais? Jogou toda a minha história no lixo? - História? Você passou a vida toda de porre; não se lembra de nada mesmo. - O que você fez com o dinheiro? - R$25,00? Paguei o salão. - R$25,00 por 250 latas, dezenas raras e algumas de cervejarias extintas para pagar tinta de cabelo! - Reciclagem. Palavra de ordem do momento. - Não posso acreditar, Ester. Todo o nosso amor, carinho, amizade reduzido a R$25,00. - Menos drama, Abelardo, menos! Foram só umas latas velhas... - Ester, você não consegue entender, você destruiu tudo que ainda poderia haver entre nós. - Deixa de besteira homem, sou eu, sua fiel escudeira. - Não, mulher. Não reconheço mais em ti uma companheira. Estou indo embora traído. - Não esquece o casaco...

Lista de ódios

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Quando eu tinha doze anos escrevi minha primeira lista de ódios. Nela incluí a professora de matemática rindo da minha prova e a boazuda da rua implicando com os meus peitos inexistentes. Lá figuravam as discotecas e qualquer coisa que brilhasse, a escola, os amigos (todos inimigos em potencial) e a sindica do prédio. Não poupei nem Deus e nem o Diabo, escrevi tudinho mesmo. Até mesmo calçada com pedras portuguesas porque eu odiava pisar em linhas. Com o passar do tempo fui atualizando a famigerada lista que crescia a olhos vistos. No auge da adolescência, contabilizava mais de cem ódios, dos quais vinte profundos. Alguns ódios se mantiveram durante anos nas primeiras colocações, como matemática, ditadura militar, chocolate, anel, perfume, esmalte, dobradinha, maquiagem, apito de guarda noturno, carro, gente que grita e gente que não fala nada, mas ri o tempo todo. Um dia, inspiradíssima, encontrei um novo ódio e escrevi sem pensar: Odeio odiar. Aquilo me arrepiou até o pino da caçolet...

O sofá do Barreto

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Barreto ganhou um sofá usado do hotel onde trabalha: cinco lugares, estofamento de couro preto curtido e manchado. Uma belezura. Chamou o cunhado e o vizinho do caminhão, acertou umas cervejas para depois do carreto e partiram os três para pegar o presente do patrão. Aos “ais” carregaram o sofá da recepção do hotel até o caminhão. Mas sabiam da odisséia que estava por vir. Chegando ao conjunto habitacional, daqueles com jeitão de pombal, Barreto não precisou estudar engenharia para perceber que o trambolho não caberia no elevador. Passou no bar e convocou Zé das Couves e Pirulito para a empreitada via escada. E quem disse que o sofá dava curva? Só se fosse dobrável, o que não era o caso. Agora era uma questão de honra. A sala limpa, os amigos zoando, a criançada e a patroa na janela esperando o gigante. Foi juntando gente. Apareceu uma corda e amarraram o monstro para ser içado até a janela do 3º andar. Em baixo, Zé das Couves e Pirulito administravam a corda-guia dentro da capaci...

A deusa do amendoim

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Não tinha dó. Vinha de shortinho e top prá lá e prá cá. Os marmanjos coçavam as carecas numa pausa instantânea para que ela passasse toda sua opulência juvenil por entre as vítimas. Oferecia amendoim e, naquela mesa, sempre vendia no mínimo três. Ouvia todo tipo de piadinha e convites. Mas dar, que é bom, só um sorriso tímido e o troco. A maioria dos boêmios se conformava com o agradecimento da pequena, menos Luisinho, o contador. Não só de números como também de histórias improváveis. Passou a flertar com a menina que, apertando os olhos, poderia ser a sua neta. O contador não pensava em outra coisa além dos botões em flor por baixo do top. Deu para persegui-la de carro, oferecer carona e o número do telefone; sempre recusado. Meses de labuta se passaram sem que a garota cedesse nem um olhar mais tenro. Desesperado, ofereceu dinheiro, casa, comida e o que mais a deusa desejasse. Até que, enfim, acendeu uma luz perguntando se ele cuidaria de seus irmãos e da mamãe também. Luisinho r...

Hora do arrocho

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- Ai! - Desculpa aí. - Não está vendo que não dá para passar... - Não quero passar. Só quero colocar o meu outro pé no chão. - Deu? - Brigada. - Ô comandante, liga o ar aí! - Está quebrado. - Abram as janelas se não eu tiro a roupa. Calor do cão! - Mas está chovendo. - Então abre o guarda-chuva. - Abre! Abre! Abre! - Vai descer! - O senhor trouxe um bote? - Não, mas não vou ficar nesse imprensado. Prefiro ser engolido pelo rio carioca. - Espera a água baixar um pouco, velho. - O trânsito está todo parado. Vou nadando e chego antes de vocês. - Mãe, quero fazer xixi. - Segura, moleque, que já está chegando. - Mãe, chegando onde se a gente está parado aqui há um tempão? - Cala a boca e não enche. - Abre a porta agora! Vou sair! - O senhor é quem sabe... - Nossa... está puxando muito... - Volta! Volta! Volta! - É, vou esperar mais um pouquinho. - Tudo bem aí, filho? - Agora já estou aliviado. - Fazer o que, né? - Vamos levar um sambinha? - Samba! Samba! Samba! - “Assassinaram o camarão!” -...

Interagindo na área de risco

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- Mãe, estou morrendo de fome... - Deixa que eu faço um macarrão prá você, filho. - Então acende o fósforo. - Eu não. Vai explodir tudo. - Claro que não. Não está vendo que o gás está fechado. - Vazando. Sinto o cheiro. - Já botei sabão na borboleta do fogão e não borbulhou. - Continuo sentindo cheiro de gás. - Fui eu, e daí? - Olha lá, heim... - Pronto, abri o gás. - Lá vai... - Viu? Acendeu tranqüilo. Agora bota a panela prá ferver. - Já botei. - Com água, não é mãe? - Claro, claro, peraí... - Cortou a cebola e o alho? - Eu não. Faca é perigoso. Tem um mix de temperos ótimo aqui. - Ih, mãe... Deixa que eu faço. - Tá bom. Eu fico com a louça. É mais seguro assim. - Olha a água. - Tô olhando. - Ferveu? - Há um tempão... - Por que não avisou? - Você não falou nada... - Tá legal, mãe. Bota o macarrão na água enquanto eu faço o molho de salsicha. - Cuidado, meu filho, a água pode respingar em você. - Deixa que eu ponho. Agora é só mexer de vez em quando. - Sinto cheiro de queimado. - É a ...

Obra do tempo

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Procurou a noite inteira por todos os bares e por toda a praia. Buscou atrás da orelha e no bolso da calça. Ao meio-dia, vasculhou a geladeira a procura do amado, talvez num pote lacrado. Como isso poderia ter acontecido? Estava com ele ali nas mãos e, em um segundo...Bulucutufe!!!Sumiu! Será que deixou de prestar atenção a algum detalhe? Refez todos os caminhos, todas as falas e gestos, vasculhando jardins, banheiros e elevadores. Tentara de menos ou de mais? Quem sabe dentro de outra bolsa ou outro casaco? Nada importante desaparece assim, deve estar por aqui, pertinho... Chorou muito, descabelou-se em noites insones e dias infindáveis. Depois de algum tempo, cansou de procurar e tocou a vida. Muitos anos depois, arrumando papéis velhos numa gostosa manhã bem acompanhada, encontrou o antigo namorado esquecido na segunda gaveta da estante da sala. Olhou longamente o objeto e se perguntou por que guardara aquilo por tanto tempo. Jogou fora e continuou a limpeza.