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Eu amo você

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Eu amo, amo muito. Amo os setenta anos de minha mãe, mulher guerreira e seus cabelos cor de laranja no leito de morte. Amo despudoradamente os olhos infantis de meu pai viajando indefinidamente em nuvens imaginárias. Amo sim os sábios fantasmas de minha bela irmã, as ausências do forte irmão caçula e as reticências do irmão artista reticente. Amo não, adoro, a minha terra alagoana, esturricada e estuprada sistematicamente pelo poder. Amo, amo, cada vez mais o envelhecimento luminoso de meu homem ao meu lado. Amo os meus amigos pelos simples fato de verterem a pureza bruta dos que escolhem com quem estar. Amo a minha gata dormindo, miando, lanchando pelo. Amo demais, venero a dureza pura de meu filho e seu coração explodindo em paixões. Amo todos os seres vivos, pois deles me alimento, amo a praça, a folha e o vento, meu vento que corre, corre, corre. Amo você porque me lê e também tem seus amores. Amo, não temo, amo, amo e amo cada vez mais o meu direito de amar.

Cida e a televisão

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O conto Cida e a televisão foi o líder da rebelião da gaveta verde e o primeiro a obter êxito em sua fuga. Atendendo a pedidos de familiares, concorreu e está classificado entre os 10 finalistas do concurso Contos do Rio 2006. Oficialmente anistiado com sua publicação no caderno Prosa & Verso, do jornal O Globo, em 29/07/06. Abrir um crediário é negócio complicado. Só por necessidade. A televisão, de imagem preta tremida e branca fora-de-foco, foi sendo invadida por um exército de fantasmas cinzas e, assim, se anunciava o fim. Assistir novela das oito com fantasma é uma coisa mas os jogos da Copa é tortura! Já pensou ver os canarinhos cinzas levantarem a taça preta? Uma TV nova seria um sonho, sonho que virou aflição quando, em plena final da Taça Guanabara, o Fogão ganhando de virada, a desgraçada vai fechando os olhinhos até ficar apenas uma linha triste de luz, último suspiro. Morreu de vez. Foi coisa de urgência abrir o crediário complicado. Sorte a patroa ser gente boa na hora...

Escrever direito

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Pensar e não escrever é inafiançável Visto que tortura é crime hediondo. Escrever expulsa e mais aprisiona Pois se trata de pena de banimento. Só divulgar liberta Isto posto, transito em julgado, Sem direito a recurso, Voa a palavra solta.

A aula na esteira de malas

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Sábado, oito horas de manhã de Sol, avisando: - Vou chegar a pino!! Enquanto a maioria dos nativos dirige-se em hordas às praias, cinqüenta almas acomodam-se nas cadeiras canhoto-que-se-ferre para a aula-revisão-simulado de língua portuguesa. Nos olhares vagos no teto, no chão, no ar quente e em cada testa está escrito: Por que eu matei aquela aula da tia Samaritana na quarta série? Para trocar figurinha ou para jogar queimado? Nunca saberei...Seria possível desvendar os mistérios da língua-mãe nas próximas cinco horas? - Não desiste não! Não desiste não! O mestre negão entrou na sala, cheio de vontade. Só na entrada, tirou metade da turma do limbo e o restante prometia. Exercício vai, explicação vem, pergunta vai, resposta vem. Sempre tem na turma uma mala que sabe tudo, antes mesmo das demais babas reticentes entenderem a pergunta, a encomenda empacotada responde tudo certo. Uma vaga já é dela. A auto-estima já no dedão, escorre para o cantinho da unha encravada. Vai ser de lascar. A...

Queridas latinhas

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- Sabe aquele monte de latinhas fedorentas? - O que tem? - Estava ocupando muito espaço na estante. - E? - É. Vendi. - Você vendeu a minha coleção de latinhas que junto desde o meu primeiro porre? - Essa mesma. A estante agora cabe até livro. - Você enlouqueceu? Não me respeita mais? Jogou toda a minha história no lixo? - História? Você passou a vida toda de porre; não se lembra de nada mesmo. - O que você fez com o dinheiro? - R$25,00? Paguei o salão. - R$25,00 por 250 latas, dezenas raras e algumas de cervejarias extintas para pagar tinta de cabelo! - Reciclagem. Palavra de ordem do momento. - Não posso acreditar, Ester. Todo o nosso amor, carinho, amizade reduzido a R$25,00. - Menos drama, Abelardo, menos! Foram só umas latas velhas... - Ester, você não consegue entender, você destruiu tudo que ainda poderia haver entre nós. - Deixa de besteira homem, sou eu, sua fiel escudeira. - Não, mulher. Não reconheço mais em ti uma companheira. Estou indo embora traído. - Não esquece o casaco...

Lista de ódios

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Quando eu tinha doze anos escrevi minha primeira lista de ódios. Nela incluí a professora de matemática rindo da minha prova e a boazuda da rua implicando com os meus peitos inexistentes. Lá figuravam as discotecas e qualquer coisa que brilhasse, a escola, os amigos (todos inimigos em potencial) e a sindica do prédio. Não poupei nem Deus e nem o Diabo, escrevi tudinho mesmo. Até mesmo calçada com pedras portuguesas porque eu odiava pisar em linhas. Com o passar do tempo fui atualizando a famigerada lista que crescia a olhos vistos. No auge da adolescência, contabilizava mais de cem ódios, dos quais vinte profundos. Alguns ódios se mantiveram durante anos nas primeiras colocações, como matemática, ditadura militar, chocolate, anel, perfume, esmalte, dobradinha, maquiagem, apito de guarda noturno, carro, gente que grita e gente que não fala nada, mas ri o tempo todo. Um dia, inspiradíssima, encontrei um novo ódio e escrevi sem pensar: Odeio odiar. Aquilo me arrepiou até o pino da caçolet...

O sofá do Barreto

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Barreto ganhou um sofá usado do hotel onde trabalha: cinco lugares, estofamento de couro preto curtido e manchado. Uma belezura. Chamou o cunhado e o vizinho do caminhão, acertou umas cervejas para depois do carreto e partiram os três para pegar o presente do patrão. Aos “ais” carregaram o sofá da recepção do hotel até o caminhão. Mas sabiam da odisséia que estava por vir. Chegando ao conjunto habitacional, daqueles com jeitão de pombal, Barreto não precisou estudar engenharia para perceber que o trambolho não caberia no elevador. Passou no bar e convocou Zé das Couves e Pirulito para a empreitada via escada. E quem disse que o sofá dava curva? Só se fosse dobrável, o que não era o caso. Agora era uma questão de honra. A sala limpa, os amigos zoando, a criançada e a patroa na janela esperando o gigante. Foi juntando gente. Apareceu uma corda e amarraram o monstro para ser içado até a janela do 3º andar. Em baixo, Zé das Couves e Pirulito administravam a corda-guia dentro da capaci...