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O mar de Beth

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Cada um que chegava, batia seu ponto e sentava imediatamente à bancada de trabalho. Com o consumo das horas, o falatório aumentava cada vez mais. Beth não se estressava, nascera para o SAC. Atendia cada consumidor como um destemido salva-vidas. Lançava-se em ondas gigantescas para resgatar um direito perdido ou uma informação afogada. Sabia ouvir o desespero sem perder o controle da maré. E ainda guardava fôlego para, ao final, reanimar o cliente com massagens no ego e soluções salvadoras. Nunca perdera uma vida, isto é, um cliente. Tal qual heroina de guerra, mantinha as inúmeras condecorações penduradas no lado esquerdo do peito. Em sua primeira ligação do dia, sentiu a maresia gelada do outro lado da linha: - Bom dia? Só se for prá você!! Quero encerrar a minha conta agora e não aceito argumentações. Não ouse desligar ou transferir esta ligação para o setor X, Y ou Z, pois anotei seu nome, cara Beth! Fui claro? - Muito claro, senhor. O senhor gostaria d...

O carcará de pés azuis

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Batizou o filho com nome nobre: Artur, o rei, não teria futuro semelhante aos seus; nascera para ser grande. Em que? Não interessa, Deus sabia, avisou. Foi numa alvorada abafada que, Maria, sôfrega, trincou os dentes no paninho e expulsou o rebento do paraíso. Quase não sangrou e, ao ver a luz, Artur chorou. O pai olhou pela janela e viu o céu cor-de-rosa paralisar as folhas do cajueiro, de susto. O carcará espreitou a moita, inerte, calculando o sabor da presa. Antes que a nuvem soçobrasse na caatinga, um assovio de assombro virou vento embolando a cortina de chita, assustando as moscas posseiras do cão esquálido que dormia ali, na sombra de qualquer coisa parada. A ventania veio no maior vexame: corre daqui, corre dali, tira a roupa e o charque do varal, bota as crianças pra dentro e fecha a porteira cacarejada das galinhas. Era o aviso. O pai, mais que depressa, pegou Artur entre as mãos rachadas e o ergueu aos céus para ser abençoado. O Celeste arrancou de Artur o cueiro em...

Pequeno poema pueril: pobre poeta

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Pesco palavras perdidas Próximas ao perpétuo padrão Pelo paradoxo prolixo Peço perdão Perto das pendências Peco pelo pontual pedaço provocador Pendente na persona palhaça pestilenta À pedra e à pá persigo A prosa prostituída, parto Para a paródia proscrita Presa perene das patas Provocadoras do peito pétreo Paro e penso pouco Pois provo a parcos pingos A promessa de paixão

Sonrisal extra

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Tem cara de vaca e boca de amendoim. Atende a todos na velocidade de uma preguiça e o olhar simpático de uma sucuri. Atencioso com os clientes, cumprimenta com uma gargalhada de hiena e um tapinha de urso nas costas. Sua pele de jaca harmoniza-se perfeitamente com as orelhas símias. O corpo, inspirado em uma cruza de peixe-boi com tartaruga, aparentemente só é capaz de mover a cabeça, as mãos e os pés. Mantém as garras felinas cravadas no balcão enquanto a vítima decide se sai correndo ou pede um Sonrisal extra. Quem entra pela primeira vez na farmácia de Seu Manfredo precisa ser preparado para o que vai encontrar, do contrário perderá a oportunidade de conhecer a pessoa mais gentil e honesta posta no mundo. Em seu coração jubarte cabe toda a cidade e quando alguém morre, Seu Manfredo uiva de dor junto ao caixão. Frequenta todos os casamentos e batizados, sempre aprumado como um pavão sequelado. Faz curativo na molecada e dá injeção de graça nos velhinhos. Nasceu para servir. T...

A princesa e o poeta

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Nestor apresenta-se como poeta prolífero e radical, mas nos últimos tempos anda carente de musas inspiradoras. Vagando cabisbaixo pela Rua Bento Lisboa, por descuido, entrou no aviário. Parou diante da gaiola e viu-se arrebatado pelo olhar de uma galinha cor de mel. A penosa gritou e Nestor arrepiou-se todo. Foi amor à primeira vista. Comprou o bicho e correu prá casa ofegante. Batizou a ave de Princesa e passou a tarde toda assistindo a diva ciscar no tapete. À noite, com o apartamento já todo cagado, o poeta começou a escrever seu poema épico galináceo. Varou a madrugada digitando os versos sofregamente enquanto a mascote dormia no sofá. Desencanara, estava de volta à velha forma. Como não pensara nisto antes? Uma galinha princesa! No dia seguinte, para comemorar com os amigos o triunfante retorno da inspiração, preparou Princesa ao molho pardo.

Amor, enfim

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Aos 86 anos ainda sente no vento o perfume do amado. Fala dos gostos do homem e, feliz, anuncia os 57 anos de casada. Que homem maravilhoso! Declara. Lembra da mão máscula e gentil segurando-lhe a nuca, deitando-a levemente antes das núpcias. As flores de jasmim roubadas e arrumadas na lapela. Os beijos, os partos, a casa, as festas, a jura eterna e a luz da vela. Vê o sorriso dele no filho e a determinação na filha. Cultiva esse amor todos os minutos em que a natureza lhe reserva de lucidez. Pede um peixe ao molho de camarão como o amado fez há 50 anos naquelas últimas férias de verão. Leva a mão inchada e trêmula aos lábios, acaricia-os como se seus dedos não fossem os próprios a digitar a pele murcha. Olha para o céu e geme baixinho: Estou aqui, amor, me leva...

Tomate e o anel

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“Óia o picolé Colegial aí ó!”. Assim passa Tomate do forte do Leme ao forte de Copacabana, pelas areias escaldantes, indo e voltando do nascer ao pôr-do-sol. De pele originalmente branca, de tanto curtir ao sol ganhou o apelido. Gosta de catar objetos esquecidos na praia que pendura em um cordão no pescoço. Tem anéis, pulseiras, lacinho de cachorro, forminha e pá de brinquedo e qualquer coisa colorida ou brilhosa que encontrassem seus pés na areia. Semana passada Tomate tropeçou num anel prateado com uma pedrona de vidro. Achou lindo e pendurou em local de destaque: no meio dos peitos. Não andou nem dez metros para que uma mulher aos gritos apontasse para ele: - Ali! Ali! - Calma, picolé Colegial chegando! - Meu anel! Ele roubou o meu anel! Chamaram a polícia. Juntou gente, salva-vidas, vendedor de milho, surfista, jogador de altinho, cachorro e o escambal para defender Tomate, que já declarava: - Roubei nada, achei tudo. - Seu policial, o anel sumiu do meu dedo! - E apareceu no ded...