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Pequeno momento carioca

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 Mulher! Liga essa água pelo-amor-de-Deus que eu estou todo ensaboado!  Ih, homem... Parece que a caixa está vazia.  Traz um balde, então.  Nadinha.  Do filtro. Tira do filtro que eu já estou tremendo e todo ardido nas partes.  E eu vou cozinhar com o quê?  E eu vou trabalhar com o cabelo duro e todo escorregando?  Passa a minha toalha que está úmida.  Que m@#&erd@ é esta? Um copo d’água?  Metade para escovar os dentes e a outra para enxaguar as partes.  E a barba?  Faz à seco e passa álcool. Vestiu o uniforme, pegou o engarrafamento de rotina. Descendo do ônibus pisou em titica de cachorro. Chegou ao escritório suando espuma de 40° à sombra. Correu para o banheiro para lavar o sapato e enxaguar a cara. Passou a mão no cabelo duro, olhou pela janela a baía da Guanabara rindo aos pés do Pão-de-Açucar e pensou : Que cara de sorte eu sou.

Os maravilhosos domingos de Constantina

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Todo domingo tem feira de artesanato e chorinho na Praça São Salvador. É muito colorido e alegre. Nunca para Constantina que cultiva críticas ao belo como se fosse um vaso de espinho raro. Caipirinhas com frutas exóticas, crianças correndo aos berros, velhos jogando dama nas mesas de granito, pula-pula, pipoca, fotografias antigas, livros raros, bolsas bordadas e tudo o mais muito caprichado. Com toda essa felicidade latente, Constantina sai de seus aposentos, também todo domingo, só para implicar. Sem um centavo se quer na bolsa, pergunta preço só para reclamar que está caríssimo para camelô que nem paga imposto. Estranha um objeto, ao saber se tratar de uma luminária diz ser a coisa mais feia que vira em sua longa vida. Abre caminho entre as pessoas à bengaladas resmungando que ninguém mais respeita idoso. Manda o chorinho tocar Ataulfo Alves e não aquela porcaria. Xinga as crianças de mal-educadas porque os pais ficam enchendo a cara em vez de domar aqueles monstrinhos. Abana fumant...

Sobre a solidão das rosas

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Marlene mora sozinha e trabalha na biblioteca desde sempre. Acorda tarde porque dorme e labuta até o fim da noite. E também porque não tem um bichinho para alimentar ou para brincar ou para ficar olhando. Todo sábado vai à feira comprar víveres e rosas vermelhas que ninguém mais, além dela mesma, verá sobre a mesa da sala. Todas as noites senta-se à mesa admirando as pétalas ao som de jazz regado à vinho tinto seco. Escreve num caderno florido suas impressões sobre o mundo que nunca serão lidas. Compra bens que jamais serão aproveitados por ela ou por herdeiro algum. Limpa a casa somente para que o vento suje. No trabalho conheceu Anselmo, frequentador diário da biblioteca. Conversam pouco, só sobre os livros a serem consultados. Com o tempo Marlene foi desenvolvendo um carinho especial por aquele homem sério, contido e elegante que sempre trazia uma rosa vermelha na lapela. Num dia de ousadia, comentou que amava rosas vermelhas e que sempre as tinha em casa. ...

Conselhos contemporâneos

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Não beba álcool ou refrigerantes não fume não coma carne vermelha ovo cru nem frituras nada de massas ou molhos e procure relaxar cuidado com alimentos ácidos não brigue não grite não faça ou diga nada que possa vir a se arrepender depois e não guarde mágoas não seja sedentário e nem peque pelo excesso de exercícios evite lesões não durma pouco e nem demais não deixe para depois o que pode fazer hoje e curta o ócio tenha um tempo para você sem jamais ser solitário mantenha-se atualizado e atenção para não se viciar em jornal e internet cuidado com a vista use óculos escuros protetor solar esfoliante creme hidratante mas não deixe de pegar sol para sintetizar as vitaminas cuide bem dos seus joelhos mantenha os exames preventivos em dia e siga todas as orientações médicas não use cotonetes sempre mas use-os regularmente economize água energia não suje o planeta e não esqueça de tomar banho diariamente não use sapatos desconfortáveis mas não ouse comparecer a uma reunião importante de ch...

O mar de Beth

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Cada um que chegava, batia seu ponto e sentava imediatamente à bancada de trabalho. Com o consumo das horas, o falatório aumentava cada vez mais. Beth não se estressava, nascera para o SAC. Atendia cada consumidor como um destemido salva-vidas. Lançava-se em ondas gigantescas para resgatar um direito perdido ou uma informação afogada. Sabia ouvir o desespero sem perder o controle da maré. E ainda guardava fôlego para, ao final, reanimar o cliente com massagens no ego e soluções salvadoras. Nunca perdera uma vida, isto é, um cliente. Tal qual heroina de guerra, mantinha as inúmeras condecorações penduradas no lado esquerdo do peito. Em sua primeira ligação do dia, sentiu a maresia gelada do outro lado da linha: - Bom dia? Só se for prá você!! Quero encerrar a minha conta agora e não aceito argumentações. Não ouse desligar ou transferir esta ligação para o setor X, Y ou Z, pois anotei seu nome, cara Beth! Fui claro? - Muito claro, senhor. O senhor gostaria d...

O carcará de pés azuis

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Batizou o filho com nome nobre: Artur, o rei, não teria futuro semelhante aos seus; nascera para ser grande. Em que? Não interessa, Deus sabia, avisou. Foi numa alvorada abafada que, Maria, sôfrega, trincou os dentes no paninho e expulsou o rebento do paraíso. Quase não sangrou e, ao ver a luz, Artur chorou. O pai olhou pela janela e viu o céu cor-de-rosa paralisar as folhas do cajueiro, de susto. O carcará espreitou a moita, inerte, calculando o sabor da presa. Antes que a nuvem soçobrasse na caatinga, um assovio de assombro virou vento embolando a cortina de chita, assustando as moscas posseiras do cão esquálido que dormia ali, na sombra de qualquer coisa parada. A ventania veio no maior vexame: corre daqui, corre dali, tira a roupa e o charque do varal, bota as crianças pra dentro e fecha a porteira cacarejada das galinhas. Era o aviso. O pai, mais que depressa, pegou Artur entre as mãos rachadas e o ergueu aos céus para ser abençoado. O Celeste arrancou de Artur o cueiro em...

Pequeno poema pueril: pobre poeta

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Pesco palavras perdidas Próximas ao perpétuo padrão Pelo paradoxo prolixo Peço perdão Perto das pendências Peco pelo pontual pedaço provocador Pendente na persona palhaça pestilenta À pedra e à pá persigo A prosa prostituída, parto Para a paródia proscrita Presa perene das patas Provocadoras do peito pétreo Paro e penso pouco Pois provo a parcos pingos A promessa de paixão