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Canto para Anita

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Morava em uma frondosa árvore na Rua Senador Corrêa. Tudo ia bem até que, no primeiro dia de verão durante uma tempestade magistral, caí do ninho. Não estava pronto ainda. Todo molhado, me vi tremendo no batente de um salão de beleza. Fiquei um tempo andando e piando por ali, já que voar ainda não sabia. De repente, mais do que de repente, apareceu uma vassoura. Pulei em cima e logo me puxaram para dentro. Tinha um monte de passarinha gigante piando muito. Fiquei meio tonto e depois de um tempo, já estava com minhas garrinhas pintadas, uma de cada cor. Ficou legal, e resolvi ficar por ali mesmo. Chegou o Natal e, enfim, minhas asas e cauda cresceram; foi uma grande festa no salão: deram-me banho de creme hidratante, para as penas, finalização com gel. Não tinha gaiola porque alguém falou que rouxinol não se cria preso. Então, era livre para voar no salão inteiro. Muita gente, ciente, criticava alegando que eu estava preso quando deveria estar cantando livre numa árvore, no Canecão ou -...

Tô passando

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- Sabe aquele cara que me passou o celular na boate? - Claro! Gatíssimo! - Pois é, passei. - Jura? Conta! Conta! - Passei adiante. O cara é um mala. Passou um tempão falando dos dotes culinários e santidades da mãe. Quando mudou de assunto, diante de minha cara de paisagem, quis saber mais de mim. Até me empolguei. - E você? - Antes que eu falasse qualquer coisa ele perguntou qual o meu time. Quando respondi que não tinha, ele passou meia-hora tentando me converter ao vascainismo. - Ninguém merece... - Pois é, menina. Tentando salvar a noite falei que gostei da camisa vermelha dele. Prá quê? Ele desembestou: disse que sempre usa vermelho para combinar com a cor do carro; que ele fez questão de salientar que era um Audi, com roda de magnésio liga-leve... - Liga-o-quê? Tipo leite de magnésia? - Sei lá, deve ser. Um carro supermegaultra um monte de coisa e blá, blá, blá... - Como você saiu dessa roubada? - Quando o monólogo já beirava a calibragem dos pneus da Formula 1, entreguei os pont...

Onze a nove

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Primeiro a rainha do oriente derrubou a primeira torre. Sem defesa, o rei viajandão do novo mundo viu sua segunda torre ruir sobre um exército de peões aturdidos. Sua rainha descansava e nada sentiu. Os bispos postaram-se silenciosos em defesa do rei, mas recuaram diante de uma muralha estratégica de bispos adversários suicidas. O rei, à frente da opção de salvar sua rainha e o restante de seu povo deitando-se honrosamente sobre o tabuleiro, subiu ao púlpito e jurou vingança. Num último movimento desesperado, virou o tabuleiro fazendo com que seus homens e adversários embolassem numa única estatística. Enquanto isso, o rei do oriente comemorava nas montanhas. A partida acabou sem que restasse em pé uma peça de testemunha. Pretas e brancas jaziam entre os quadrados manchados pela batalha. Só quem ganha é a guerra porque, para os reis, o jogo nunca termina.

Saiba que as coisas não são tão simples assim

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Saiba que as coisas não são tão simples assim. Um dia você está aqui, no outro não. Você acha isso simples? Pois não é. Não estar aqui é obvio que não é simples. Só em não estar cá há a hipótese de estar em qualquer outro lugar ignorado ou não estar em lugar algum; o que é muito grave. Estar aqui já configura um fato extremamente complexo. Exige matéria, consciência e testemunha. Só esses três pré-requisitos já complicam a coisa toda. Pode ser romântico, mas você não pode estar em um ambiente saudoso só em pensamento. Esquece então aquele papo cabeça de tele-transporte, sexto-sentido, etecetera e tal. Sua matéria é uma massa cansada e pesada que tem limitações existenciais: precisa estar inteira para ser considerada presente. Também não basta estar materialmente aqui. É preciso saber que está aqui. Os paralelepípedos podem ser vistos, mas não estão aqui. Nunca soube de um paralelepípedo que questionasse se sua vida seria melhor se estivesse encravado em uma avenida arborizada e não n...

Pequeno momento carioca

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 Mulher! Liga essa água pelo-amor-de-Deus que eu estou todo ensaboado!  Ih, homem... Parece que a caixa está vazia.  Traz um balde, então.  Nadinha.  Do filtro. Tira do filtro que eu já estou tremendo e todo ardido nas partes.  E eu vou cozinhar com o quê?  E eu vou trabalhar com o cabelo duro e todo escorregando?  Passa a minha toalha que está úmida.  Que m@#&erd@ é esta? Um copo d’água?  Metade para escovar os dentes e a outra para enxaguar as partes.  E a barba?  Faz à seco e passa álcool. Vestiu o uniforme, pegou o engarrafamento de rotina. Descendo do ônibus pisou em titica de cachorro. Chegou ao escritório suando espuma de 40° à sombra. Correu para o banheiro para lavar o sapato e enxaguar a cara. Passou a mão no cabelo duro, olhou pela janela a baía da Guanabara rindo aos pés do Pão-de-Açucar e pensou : Que cara de sorte eu sou.

Os maravilhosos domingos de Constantina

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Todo domingo tem feira de artesanato e chorinho na Praça São Salvador. É muito colorido e alegre. Nunca para Constantina que cultiva críticas ao belo como se fosse um vaso de espinho raro. Caipirinhas com frutas exóticas, crianças correndo aos berros, velhos jogando dama nas mesas de granito, pula-pula, pipoca, fotografias antigas, livros raros, bolsas bordadas e tudo o mais muito caprichado. Com toda essa felicidade latente, Constantina sai de seus aposentos, também todo domingo, só para implicar. Sem um centavo se quer na bolsa, pergunta preço só para reclamar que está caríssimo para camelô que nem paga imposto. Estranha um objeto, ao saber se tratar de uma luminária diz ser a coisa mais feia que vira em sua longa vida. Abre caminho entre as pessoas à bengaladas resmungando que ninguém mais respeita idoso. Manda o chorinho tocar Ataulfo Alves e não aquela porcaria. Xinga as crianças de mal-educadas porque os pais ficam enchendo a cara em vez de domar aqueles monstrinhos. Abana fumant...

Sobre a solidão das rosas

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Marlene mora sozinha e trabalha na biblioteca desde sempre. Acorda tarde porque dorme e labuta até o fim da noite. E também porque não tem um bichinho para alimentar ou para brincar ou para ficar olhando. Todo sábado vai à feira comprar víveres e rosas vermelhas que ninguém mais, além dela mesma, verá sobre a mesa da sala. Todas as noites senta-se à mesa admirando as pétalas ao som de jazz regado à vinho tinto seco. Escreve num caderno florido suas impressões sobre o mundo que nunca serão lidas. Compra bens que jamais serão aproveitados por ela ou por herdeiro algum. Limpa a casa somente para que o vento suje. No trabalho conheceu Anselmo, frequentador diário da biblioteca. Conversam pouco, só sobre os livros a serem consultados. Com o tempo Marlene foi desenvolvendo um carinho especial por aquele homem sério, contido e elegante que sempre trazia uma rosa vermelha na lapela. Num dia de ousadia, comentou que amava rosas vermelhas e que sempre as tinha em casa. ...