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Caldo Verde

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Chegou ao restaurante de estimação seco por um caldo verde. Pediu no capricho. Veio batata processada com três fiapos de couve. Virou bicho. Chamou o gerente, bateu nos peitos, exigiu explicações, desculpas e uma porção extra de couve. Não foi atendido em nada; isto é, quase nada, pois a conta chegou certinha. Sorveu o caldo de batata reclamando entre os dentes. Não houve nem um plus a mais de couve. Não pagou os dez por cento e saiu decidido a difamar o recinto gastronômico. Jurou vingança e jamais recolocar os pés naquela espelunca. Sentia-se humilhado, traído, um merda. Escreveu uma carta mal criada para os principais jornais da cidade convocando o povo a um levante em massa contra o desrespeitoso restaurante. Sua vingança não teria limites até que as portas do estabelecimento fechassem por estar às moscas. Quando a carta foi publicada, veio junto o pedido de desculpas do restaurante, que vai reforçar o treinamento da equipe e blá, blá, blá...e volte por nossa conta! Todo o ódio d...

Do lado da caixa-preta

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- Eu não gosto de viajar de avião. - Quase ninguém gosta. Eu adoro. - Sei lá, me dá uma gastura, um frio no esqueleto que vai da nuca até o pino da caçoleta. - É só relaxar e curtir a paisagem. - Se eu relaxar eu vazo. - Tenta ler a revistinha de bordo. - Dá uma tonteira danada. - O tempo todo? - Não, só quando eu pisco. Preciso conversar. Que tal acidente aéreo? - Credo. Não acho apropriado. - Interessante né? É a única coisa que me acalma; falar sobre turbina explodindo, identificação de corpos, busca da caixa-preta, essas coisas. Mas o que me deixa tranquilinho mesmo é papo de turbulência e tempestade. Lembra daquele avião pulverizado no Atlântico? - Sei. Tragédia. Sofrimento. - Pois é, toda vez que entro num avião fico pensando ser meu último voo. Na verdade sonho ser o único sobrevivente, salvo milagrosamente pelo assento flutuante. Depois as entrevistas, escrever um Best-seller e - quem sabe? - até um filme em Hollywood. - Não acredito que seu sonho se realize neste voo. O céu e...

Sem culpa

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Não adianta insistir. Não carrego a culpa dos judeus nem os pecados dos católicos. Nunca fui perseguida como os palestinos nem escravizada como os africanos. Não fui vítima de preconceito, maus tratos e desconheço humilhação. Conjugo verbos intransitivos com gays e homofóbicos. Cultivo machistas e feministas no meu jardim que crescem a olhos vistos. Bebo um mixproteico de militantes esquerdistas com militares torturadores no café-da-manhã. Com padres e ateus tempero minha sopa de legumes. À minha mesa farta são bem-vindos analfabetos e intelectuais, desde que não me encham o saco com abduções, catequeses e verdades absolutas. Bebo a abstinência e fumo a culpa alheia. Para quem se importa, estou rindo por baixo.

Canto para Anita

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Morava em uma frondosa árvore na Rua Senador Corrêa. Tudo ia bem até que, no primeiro dia de verão durante uma tempestade magistral, caí do ninho. Não estava pronto ainda. Todo molhado, me vi tremendo no batente de um salão de beleza. Fiquei um tempo andando e piando por ali, já que voar ainda não sabia. De repente, mais do que de repente, apareceu uma vassoura. Pulei em cima e logo me puxaram para dentro. Tinha um monte de passarinha gigante piando muito. Fiquei meio tonto e depois de um tempo, já estava com minhas garrinhas pintadas, uma de cada cor. Ficou legal, e resolvi ficar por ali mesmo. Chegou o Natal e, enfim, minhas asas e cauda cresceram; foi uma grande festa no salão: deram-me banho de creme hidratante, para as penas, finalização com gel. Não tinha gaiola porque alguém falou que rouxinol não se cria preso. Então, era livre para voar no salão inteiro. Muita gente, ciente, criticava alegando que eu estava preso quando deveria estar cantando livre numa árvore, no Canecão ou -...

Tô passando

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- Sabe aquele cara que me passou o celular na boate? - Claro! Gatíssimo! - Pois é, passei. - Jura? Conta! Conta! - Passei adiante. O cara é um mala. Passou um tempão falando dos dotes culinários e santidades da mãe. Quando mudou de assunto, diante de minha cara de paisagem, quis saber mais de mim. Até me empolguei. - E você? - Antes que eu falasse qualquer coisa ele perguntou qual o meu time. Quando respondi que não tinha, ele passou meia-hora tentando me converter ao vascainismo. - Ninguém merece... - Pois é, menina. Tentando salvar a noite falei que gostei da camisa vermelha dele. Prá quê? Ele desembestou: disse que sempre usa vermelho para combinar com a cor do carro; que ele fez questão de salientar que era um Audi, com roda de magnésio liga-leve... - Liga-o-quê? Tipo leite de magnésia? - Sei lá, deve ser. Um carro supermegaultra um monte de coisa e blá, blá, blá... - Como você saiu dessa roubada? - Quando o monólogo já beirava a calibragem dos pneus da Formula 1, entreguei os pont...

Onze a nove

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Primeiro a rainha do oriente derrubou a primeira torre. Sem defesa, o rei viajandão do novo mundo viu sua segunda torre ruir sobre um exército de peões aturdidos. Sua rainha descansava e nada sentiu. Os bispos postaram-se silenciosos em defesa do rei, mas recuaram diante de uma muralha estratégica de bispos adversários suicidas. O rei, à frente da opção de salvar sua rainha e o restante de seu povo deitando-se honrosamente sobre o tabuleiro, subiu ao púlpito e jurou vingança. Num último movimento desesperado, virou o tabuleiro fazendo com que seus homens e adversários embolassem numa única estatística. Enquanto isso, o rei do oriente comemorava nas montanhas. A partida acabou sem que restasse em pé uma peça de testemunha. Pretas e brancas jaziam entre os quadrados manchados pela batalha. Só quem ganha é a guerra porque, para os reis, o jogo nunca termina.