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Neura seriada

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- O senhor confirma a compra no valor de U$ 3.500,00 na loja Sexy Shop Baby em Nova Iorque? - Não! Não confirmo! Eu já falei que não fui eu! Nem passaporte eu tenho e minhas milhas não dão direito a tele-transporte. - Estaremos estornando o valor na próxima fatura. - E os juros também porque eu não vou pagar essa conta. - Sim, senhor. Por favor, anote o número do protocolo. Nossa, que dia! Quem será agora? - Aaaalô! - Por que você me mandou este e.mail? - Como? - Eu não gosto desse negócio de pornografia infantil. Você está doido ou se fazendo? Ainda por cima para o email do meu trabalho. Tarado! Idiota! - O que é isso Pedro? Está me estranhando? Eu não te mandei nada e muito menos... - Olha, eu não quero nem saber. Tire meu nome de sua lista e não me ligue mais ou eu te denuncio. ...

O barraco de Seu Antenor

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Entra ano e sai ano o pessoal da comunidade vê o barraco do Seu Antenor se equilibrando no cocuruto de uma pedra no alto do morro cercado de bananeira. Embora considerado o morador inaugural da área, ao contrário dos demais, o velho não conseguiu botar tijolo e bater lage na residência. Foi remendando aqui e ali com chapa de metal, madeira e estuque aonde as goteiras iam mandando. Cinquenta anos se passaram sem que os temporais se dessem conta da absurda engenharia do barraco de Seu Antenor. Este ano seria diferente. As águas caíram sem dó sobre as casas da comunidade. Rios de lama formavam cascatas entre as vielas. Os próprios moradores chamaram a Defesa Civil para convencerem o velho a sair do barraco. Era lógico que quando aquela pedra rolasse o barraco levaria consigo uma dezena de casas abaixo. Na cidade já havia diversos desmoronamentos e as autoridades, com a agenda lotadíssima, trataram de condenar a casa e partir para outras localidades. To...

Ofício de ossos

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Esmeraldina botou no mundo doze criaturas, oito se criaram, quatro Deus levou ainda anjos. E só não gerou mais porque o marido Cícero, coveiro da cidade, morreu de uma síncope. Deitou para fazer a sesta e não acordou mais. Tinha espinhela caída, o que não o impedia, de domingo a domingo, de acordar com as galinhas, tomar duas talagadas de cachaça-de-cabeça e seguir para o cemitério. Cavava buraco até a hora do almoço. Depois tirava uma soneca antes de voltar para acompanhar os enterros e selar as tumbas. Esmeraldina cuidava da casa, das crias e da roça com os filhos maiores. Cícero não deixou pensão. Só um cachimbo fedido de fumo-de-rolo e uma dívida no botequim do Seu Castroso. No sertão ser coveiro não apetece a todos os viventes. Tem cabra que tem medo de alma. Cícero dizia que medo de alma era para quem tem rabo-preso com defunto. Por causa disso, Cícero passou trinta anos no ofício sem ser incomodado por viva alma; ou morta. Morto o coveiro, ninguém queria a função funesta....

Uma moto, um Astra e a chuva

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Samuel é doido pela rua. Corre debaixo de sol e chuva, caminha pela cidade cheirando folha de árvore, procurando passarinho e macaco, entra em rua e vila só para conhecer. Circula também de moto com a viseira do capacete aberta para sentir melhor o vento. Piloto nato tirou a carteira de habilitação tipo AC na Marinha, onde as instruções foram claras: “Dirige aí!”. Desde então pilotar e dirigir com segurança é uma extensão do seu corpo. Na última terça-feira, voltando estressadíssimo do trabalho pela Praia do Flamengo debaixo de chuva forte, Samuel pilotava na maciota quando passou ao lado de um Astra e percebeu uma sorridente menina de tranças com o rosto colado ao vidro da janela traseira. Gritou para o motorista apontando para o carro. O motorista do Astra não teve dúvidas e jogou o carro em cima da moto de Samuel que deitou no asfalto. Quando acordou já estava algemado junto ao meio-fio. Com a calça e a camisa rasgadas sentiu o sangue escorrer pelo braço esfolado. Pelo andar das...

Papo mole beira-mar

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Jorginho é taxista legítimo: folgado, cabeleira branca e barriga farta, boa praça, poliglota, puxa conversa até com surdo-mudo e conta histórias clássicas do cotidiano do Rio. Lábia afiada leva, na maciota do banco traseiro, a fauna e a flora carioca. Trabalha de segunda a domingo e de sol a sol. Ano novo entra em recesso. Encosta o amarelo na garagem do apartamento da mãe na Praça do Lido para passar a virada com a família; bem longe da lei-seca. No festão de 2009/2010 Jorginho manteve a carteira de motorista no bolso da bermuda só para não se sentir pelado e, quase na hora dos fogos, decorou os chinelos com areia e sentou de frente ao mar para levar aquele papo cabeça com Iemanjá. Negociou as posturas para o ano que prometia a saúde dos seus e as boas corridas, reclamou – de leve – das intempéries pessoais, do síndico, do trânsito, dos preços, todos loucos do ano moribundo. Empolgado, cobrou mais ação da Rainha do Mar diante de tanta bagaceira ocorrendo no mundo. A Senhora pode f...

O dia de Opílio

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Opílio é o “cara”. Turma do deixa - disso, fala de veludo e pele de ébano. O sorriso conivente de anjo contrasta com os dois metros de altura com um de envergadura. Diga-se de passagem, porte totalmente desnecessário diante dos inúmeros pré-requisitos preenchidos de um tijucano culto, elegante e contido. Ocorreu que, naquela segunda-feira, Opílio entrou pela rua em que morava especialmente sem disposição para grandes ou pequenos debates, doido para tomar um banho e esticar o esqueleto diante da TV. No entanto, pressentiu com um arrepio na nuca, de que a noite seria longa. Não deu outra: em frente de casa viu, logo de cara, um Mercedes deitado sobre o seu jardim, entre eles o portão do lar todo contorcido. O “artista” tinha sumido deixando sua “obra” abandonada. Opílio não se fez de rogado. Certo de que o “artista” voltaria na madrugada para remover a “instalação modernista”, camuflado pela noite tórrida, sentinelou-se numa cadeira de praia ao lado do carro e esperou. Não deu ...

O bom samaritano

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- Tio, dá um trocado prá comprá um lanche. - Trocado é o cacete! Não tenho inteiro e nem trocado. E se tivesse não te daria, seu bosta! - Que-que-é-isso, tio? Tô só pedindo. - E já está me ofendendo. Sabia que você não era para existir? Pago imposto para que não tenha que ver coisas como você. Vai lá na Prefeitura, no palácio do Governo, não me interessa, vai lá pedir dinheiro para a puta-que-te-pariu; se é que você sabe quem foi. Vaza ou te encho de porrada. - Eu sou de menor. - Está na cara. Menor inteligência, menor saúde, menor limpeza, menor futuro. Ô aberração, tua mãe não te abortou por falta de grana. E não me olha com essa cara de gente que você não me engana. - Tio, paga uma empada então. - Mas você não vale nada mesmo. Nem vergonha tem. - Tenho sim, senhor. Tanto faz. Só quero comer qualquer coisa. - É. Parece que o merdinha está com fome mesmo. Aí, garçon, traz uma coxa de frango no papel para este infeliz. Agora, moleque, desaparece da minha paisagem a...