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Zé, o porteiro de Copacabana

Embora muitos jurem que os porteiros de Copacabana foram produzidos em série misturando barro, xiquexique e água de açude nos cafundós do nordeste, Zé sabe ser único. Não pela origem humilde, a viagem no pau-de-arara e o misere inicial na cidade maravilhosa porque isso tudo é de praxe. Zé é o Zé porque sorri o tempo todo e não baixa os olhos diante de ninguém. E nunca negou serviço. Conhece o povo que entra e sai do prédio pelo nome, pelas sortes e azares de cada um. Mantém a timidez lapidada em discrição tão característica do retirante nordestino. A vida lhe foi digna e, com tempo para aposentadoria, casa ampla com laje no Pavão-Pavãozinho, filhos criados e passado apaziguado, Zé deu entrada no INSS para receber o benefício e descansar. A vista escureceu quando o atendente declarou que ele não tinha contribuição alguma e como não tinha carteira de trabalho nem contra-cheque para comprovar a história, a situação fica complicada. Enverg...

À esquerda ou à direita?

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- Mô, estamos próximos. Olha a placa do Queijão alí. - Já é a terceira placa de queijo na estrada. - Então. É isso que está no mapa: entrar na 3ª placa depois do Queijão. - À esquerda ou à direita? - Mas que mania, Marcelo, de complicar tudo! De que lado está a placa? Não é à esquerda? Então entra à esquerda, né? - Sueli, não tô vendo nem estrada... - Pronto. Lá vem você de novo. É por isso que a gente precisa rever a nossa relação. Você não leva a sério nada do que eu falo. Confiança zero. Trata-me como se eu fosse uma idiota. - Ok. Entrando à esquerda. - Não adianta disfarçar e mudar de assunto. Sei que você só concordou em entrar à esquerda porque eu questionei a falta de diálogo no nosso casamento. Pensa que eu não percebi quando, mesmo eu lendo o mapa, você com olho comprido, conferindo tudo, duvidando da minha capacidade? Minha mãe sempre disse que você não era um homem confiável... - Eu? - E cheio de meias palavras. É um tal de futebol com os amigos prá ...

Reciclando o futuro deste país

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- Compro alumínio, compro metal, panela velha, máquina de lavar velha, micro-ondas velho, ferro de... - Aqui, moço! - Tem o que prá gente aí dona? - Um computador slim com processador 2.2 GHz + 2 GB de memória DDR2 800 MHz + disco rígido de 160 GB + monitor 17 polegadas + teclado + mouse sem fio. - Sei... O resultado dessa soma toda que a senhora fez aí é igual a vinte pratas. - O quê? R$ 20,00? Só isso? - Funciona? - Claro que não. Mas pode ser consertado. É que comprei um novo e não tenho espaço para este. - Hum... Vinte e cinco e não se fala mais nisso. - Absurdo! Tem um monte de peças novas aí dentro. - Então a senhora sai pela rua anunciando suas peças novas. - Nada feito. Prefiro doar para quem precisa a aceitar ser extorquida. - A senhora é quem sabe...Compro alumínio, compro metal... Revoltada, colocou o computador num carrinho de feira e doou para a primeira escola pública que encontrou no caminho aos cuidados do porteiro. Pensou orgulhosa que, com certeza, a escola tem oficin...

Bem cheirozinho

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Meu nome é Bárbara e estou decidida a ter um jardim com ervas finas na janela do conjugado e não vou mais pagar rios de dinheiro por folhas impregnadas de agrotóxico. Antes de comprar sementes e vasos, farei um curso de jardinagem urbana num desses espaços zen, tipo vegan e coisa e tal. Dedicação exclusiva e cultura assimilada, agora mãos à obra. Terra, adubo, vasinho decorado, dez dias, quinze dias, vinte dias e nada das sementes germinarem. No vigésimo primeiro dia uma folhinha verde brotou. Vitória volátil: capim, lindo, mas capim aos montes devidamente devorados pelos gatos da casa. Insisti com a plantação por mais quatro tentativas. Só capim e gato feliz. Meditei profundamente observando a janela tomada por uma floresta de capim e a festa dos gatos embolando no vaso carinhosamente preparado para receber, manjericão italiano, hortelã, alecrim... Lembrei meu pai dizendo que a gente não pode desistir dos projetos no meio só por causa de algumas intempéries, se não v...

Palavras redentoras

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Bento gostaria de acreditar, ao menos, em uma das três coisas que movem o mundo: religião, política ou time de futebol. Entretanto a vida o fez assim, desprovido de fé. O que não impediu seu sucesso, mas é certo que dificultou sua vida. Sabe que sua peculiar, digamos, característica, não é defeito genético, pois a mãe era carola de rezar o terço diariamente e ajoelhar-se todos os domingos em frente ao altar. O pai, flamenguista de carteirinha, filiado ao partidão, não dispensava um trabalho na encruzilhada para dar um empurrãozinho na eleição e no campeonato brasileiro. O menino cresceu sob a ameaça de ir para o inferno e amargar uma vida besta, sem graça e sem amigos. Formou-se, casou-se e teve uma penca de filhos. Sempre fiel às suas crenças; isto é, sua ausência. Viu os filhos e netos sucumbirem à religião e à camisa do flamengo. Um dos netos, para seu desgosto, virou até vereador. Cansado de lutar por suas ideias tornou-se um velho ranzinza e sol...

Figurinha repetida

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- Abre esta porta, Rufinho, ou eu vou arrombar! - Pô, mãe...tô quase dormindo... - Não enrola. Sei que você está na internet falando besteira. Já entrei no chat, sou a Rosinha-só-amor e você é o Rufão-furador. - Porra, mãe, respeita a minha privacidade. - Privacidade é o cacete, você só tem treze anos. Abre a porta agora ou eu cancelo a internet. - Chamou, mamãe? - Desliga. Agora. - Deixa só eu terminar esse papo... - Está marcando encontro com quem? - Com o Gustavão-do-álbum-da-Copa prá trocar figurinha. - É pedófilo. - Para, mãe, que saco. Tô marcando na Praça de Alimentação do Shopping, às quatro da tarde. Deixa de neura. - Eu vou contigo. - É ruim de eu pagar esse mico. - Eu pago o dobro para pegar esse pervertido. E vou levar a polícia. - Ih...tô fora. Flagrante preparado, polícia disfarçada na escuta, mãe resoluta esperando. Quatro, quatro e quinze e vinte e trinta e nada. A mãe percebe uma mulher na mesa ao lado com cara de ó...

Focinho úmido

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Maristela é sozinha. Tem um cachorro cego e aleijado que leva para passear todas as manhãs; no colo. Entre uma visita ao veterinário e uma parada para conversar sobre os últimos resultados dos exames do bichano, Maristela reclama da vida, do portão, do bairro e de qualquer coisa ou humano. Já encontrei muita gente assim. O que me assusta. Não pelo presente e sim pela possibilidade do futuro. A questão é: o que faz com que pessoas saudáveis, inteligentes e cultas, em um momento xis da vida, adquiram uma nuvenzinha negra sobre a cabeça? Como uma mulher amante dos animais, da família e das plantas torna-se um ser tão negativo? Tenho muito medo do outro lado. Talvez por nunca ter tido a consciência do mal. Sempre acreditei que a bondade existe e ninguém é irrecuperável. Romântico, eu sei, mas sou assim. Contrariando todas as previsões, ao cruzar com o olhar fuzilante de Maristela tenho vontade de abraçá-la, chamar para um chá, conversar por horas, fazer carinho. Pode se...