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O piano e o Opala que virou Toyota

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O piano e o Opala que virou Toyota Quando o piano despencou da nona janela e se espatifou na capota do Toyota do delegado Frazão, não ficou uma testemunha para registrar ocorrência. Quem estava no prédio se fingiu de cego e quem não estava riu muito, certo que escondido. Frazão tem fama de violento e dono da verdade. Dizem que ele foi do tempo que a polícia civil circulava por aí de Opala com a mala cheia de presunto vencido. Vizinho é lixo, mulher tem seu preço, família boa é família longe, amigo é o que paga conta. Ninguém mexe com ele. Embora todos saibam que nos últimos tempos Frazão vem amolecendo. Dizem que por obra e graça de Norminha, professora primária de corpo e sorriso farto e massa cinzenta nem tanto. Balzaquiana de trança acima de qualquer suspeita. O amor fincou mudanças visíveis no delegado. A camisa fechada até a gola não mais exibindo o peito cabeludo entre as correntes de ouro, o cabelo limpo e penteado, o sapato engraxado e a camisa por dentro da calça. Se nã...

A chatice em sua excelência

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Eu sou chato. Chato mesmo. E não é só uma suspeita porque minha mãe, que Deus a tenha ao seu lado fazendo tricô, fez essa revelação ainda na minha infância. Quando perguntei o porquê de ninguém querer ser meu amigo mesmo eu sendo o generoso dono da bola da pelada, exigindo apenas ser sempre o atacante e escolher o time todo. A sábia progenitora foi taxativa. Filho, você é muito chato. Que Deus me perdoe, mas você é uma mala sem alça. A partir desse dia assumi minha chatice tendo a oportunidade de desenvolvê-la ao máximo. Hoje sou um chato inquestionável. Não perco uma oportunidade de exercer o meu dom. Ontem mesmo encontrei a gostosona do 801 no elevador e não pude – não quis – evitar comentar que aquela ridícula meia de oncinha não combinava com seu corpo escultural de cachorra de baile funk. Ponderei dissertando sobre a necessidade de algumas mulheres menos favorecidas mentalmente mostrarem uma imagem brega. Elogio rasgado. Ela não entendeu. Chamou-me de bicha escrota e deu-me c...

Zé, o porteiro de Copacabana

Embora muitos jurem que os porteiros de Copacabana foram produzidos em série misturando barro, xiquexique e água de açude nos cafundós do nordeste, Zé sabe ser único. Não pela origem humilde, a viagem no pau-de-arara e o misere inicial na cidade maravilhosa porque isso tudo é de praxe. Zé é o Zé porque sorri o tempo todo e não baixa os olhos diante de ninguém. E nunca negou serviço. Conhece o povo que entra e sai do prédio pelo nome, pelas sortes e azares de cada um. Mantém a timidez lapidada em discrição tão característica do retirante nordestino. A vida lhe foi digna e, com tempo para aposentadoria, casa ampla com laje no Pavão-Pavãozinho, filhos criados e passado apaziguado, Zé deu entrada no INSS para receber o benefício e descansar. A vista escureceu quando o atendente declarou que ele não tinha contribuição alguma e como não tinha carteira de trabalho nem contra-cheque para comprovar a história, a situação fica complicada. Enverg...

À esquerda ou à direita?

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- Mô, estamos próximos. Olha a placa do Queijão alí. - Já é a terceira placa de queijo na estrada. - Então. É isso que está no mapa: entrar na 3ª placa depois do Queijão. - À esquerda ou à direita? - Mas que mania, Marcelo, de complicar tudo! De que lado está a placa? Não é à esquerda? Então entra à esquerda, né? - Sueli, não tô vendo nem estrada... - Pronto. Lá vem você de novo. É por isso que a gente precisa rever a nossa relação. Você não leva a sério nada do que eu falo. Confiança zero. Trata-me como se eu fosse uma idiota. - Ok. Entrando à esquerda. - Não adianta disfarçar e mudar de assunto. Sei que você só concordou em entrar à esquerda porque eu questionei a falta de diálogo no nosso casamento. Pensa que eu não percebi quando, mesmo eu lendo o mapa, você com olho comprido, conferindo tudo, duvidando da minha capacidade? Minha mãe sempre disse que você não era um homem confiável... - Eu? - E cheio de meias palavras. É um tal de futebol com os amigos prá ...

Reciclando o futuro deste país

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- Compro alumínio, compro metal, panela velha, máquina de lavar velha, micro-ondas velho, ferro de... - Aqui, moço! - Tem o que prá gente aí dona? - Um computador slim com processador 2.2 GHz + 2 GB de memória DDR2 800 MHz + disco rígido de 160 GB + monitor 17 polegadas + teclado + mouse sem fio. - Sei... O resultado dessa soma toda que a senhora fez aí é igual a vinte pratas. - O quê? R$ 20,00? Só isso? - Funciona? - Claro que não. Mas pode ser consertado. É que comprei um novo e não tenho espaço para este. - Hum... Vinte e cinco e não se fala mais nisso. - Absurdo! Tem um monte de peças novas aí dentro. - Então a senhora sai pela rua anunciando suas peças novas. - Nada feito. Prefiro doar para quem precisa a aceitar ser extorquida. - A senhora é quem sabe...Compro alumínio, compro metal... Revoltada, colocou o computador num carrinho de feira e doou para a primeira escola pública que encontrou no caminho aos cuidados do porteiro. Pensou orgulhosa que, com certeza, a escola tem oficin...

Bem cheirozinho

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Meu nome é Bárbara e estou decidida a ter um jardim com ervas finas na janela do conjugado e não vou mais pagar rios de dinheiro por folhas impregnadas de agrotóxico. Antes de comprar sementes e vasos, farei um curso de jardinagem urbana num desses espaços zen, tipo vegan e coisa e tal. Dedicação exclusiva e cultura assimilada, agora mãos à obra. Terra, adubo, vasinho decorado, dez dias, quinze dias, vinte dias e nada das sementes germinarem. No vigésimo primeiro dia uma folhinha verde brotou. Vitória volátil: capim, lindo, mas capim aos montes devidamente devorados pelos gatos da casa. Insisti com a plantação por mais quatro tentativas. Só capim e gato feliz. Meditei profundamente observando a janela tomada por uma floresta de capim e a festa dos gatos embolando no vaso carinhosamente preparado para receber, manjericão italiano, hortelã, alecrim... Lembrei meu pai dizendo que a gente não pode desistir dos projetos no meio só por causa de algumas intempéries, se não v...

Palavras redentoras

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Bento gostaria de acreditar, ao menos, em uma das três coisas que movem o mundo: religião, política ou time de futebol. Entretanto a vida o fez assim, desprovido de fé. O que não impediu seu sucesso, mas é certo que dificultou sua vida. Sabe que sua peculiar, digamos, característica, não é defeito genético, pois a mãe era carola de rezar o terço diariamente e ajoelhar-se todos os domingos em frente ao altar. O pai, flamenguista de carteirinha, filiado ao partidão, não dispensava um trabalho na encruzilhada para dar um empurrãozinho na eleição e no campeonato brasileiro. O menino cresceu sob a ameaça de ir para o inferno e amargar uma vida besta, sem graça e sem amigos. Formou-se, casou-se e teve uma penca de filhos. Sempre fiel às suas crenças; isto é, sua ausência. Viu os filhos e netos sucumbirem à religião e à camisa do flamengo. Um dos netos, para seu desgosto, virou até vereador. Cansado de lutar por suas ideias tornou-se um velho ranzinza e sol...