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ARRASTA

A CADA ANO UM RIO DESÁGUA EM MINHA'LMA ARRASTANDO PALAVRAS E LETRAS AO OCEANO, AOS BORBOTÕES: A SAGA A CADA RIO UM ANO DE MINHA'LMA DESÁGUA POR LETRAS E PALAVRAS, A SAGA DOS BORBOTÕES DO OCEANO ARRASTA

Querido Papai Noel,

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Suzete pendurou a meia-arrastão na janela prendendo cartão decorado com purpurina e preenchido com letra caprichada: Querido Papai Noel, Este ano eu fui muito gente boa. Não sacaneei ninguém, perdoei todos os filhos-da-puta que jogaram pedras no meu caminho e que mereciam morrer com uma bigorna entalada na garganta. Comi montanhas de legumes e verduras entre torresmos e chopes. Não dormi com ninguém; só fiquei aqui e ali sempre com camisinha reserva com todo o respeito, até porque só consigo pegar no sono sozinha na minha cama de solteira. Paguei a musculação o ano todo e até fui lá algumas vezes. Não tirei nenhuma vida, isto é, quase nenhuma se o Papai aí considerar grave achatar mosquitos que rondam meus ouvidos e sugam o meu sono. Engoli sapos, lagartos e aranhas e só regurgitei coelhinhos fofos. Não fiz promessas, já que é pecado não honrá-las. Tomei banho em três minutos para economizar a água do planeta. Não pulei no pescoço de uma condômina nem diante das in...

Amiguinhas de cortina

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Sebastiana ficou tonta, não falava coisa com coisa e quando esqueceu que levantou para fazer xixi e foi beber água, percebeu que era hora de procurar ajuda. Em frente à porta da Emergência, uma placa com desenho de caveira alerta: “Perigo de vida – Alta tensão”. Não deu outra, foi parar no CTI. Sebastiana não conseguia dormir com todos aqueles fios, agulhas e sons estranhos. Ao lado de seu leito uma gaveta metálica escrito “expurgo” onde vira e mexe alguém jogava coisas dentro. Gente de branco chegava, olhava os monitores por trás de Sebastiana e soltava a enigmática palavra “basal”. Tédio. Tratou de arrumar quatro amiguinhas – elas não sabem, mas são -: a misteriosa Senhora Ruth que fica fora do alcance das vistas, num lugarzinho exclusivo, muita gente entrando e saindo. Talvez seja mãe judia e rica, digna, sofre em silêncio ou está em coma profundo mesmo. A vizinha de cortina é a tia Zulmira, que só geme. Stanislaw Ponte Preta ficaria, se pudesse, chocado em saber que sua querida p...

A felicidade em bolinhas de sabão

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Jaqueline, figura saltitante importada da baixada fluminense, vive sob as marquises dos prédios nos arredores da Praça São Salvador. Raquítica, viciada, coberta de doenças de pele, carrega na barriga o fruto do amor cafajeste de outro morador de rua que, dia sim outro também, enche a cara dela de tapa. Quando acorda, lá pelo meio-dia, desfila entre os “tios” e “tias” pedindo comida e cigarro. Parece um palito amarelo com uma azeitona no meio. No fim da tarde já ganhou comida, roupas e dinheiro suficiente para trocar pelas pedras de crack dela e do macho nervoso. Os moradores sensibilizados com a situação arranjaram um abrigo para mães solteiras, com direito a psicólogo, médico, cama limpa e comida simples, porém farta. Em troca Jaqueline teria de dividir tarefas, como fazer faxina, arrumar o quarto, cozinhar, cuidar de horta comunitária e estudar. E, o pior, ficar de cara limpa. Ninguém merece. Jaqueline é pobre, mas não é escrava para trabalhar de graça. Voltou para a rua. Saud...

Festa do Dia D

Amigos leitores, Dia 25/11/2010 foi inesquecível para os cariocas: bombas, tiroteios, carros-tochas, chuva de bala e água. Chamado de dia "D" do Rio de Janeiro. Dia "D" de DEU VACA, meu livro lançado na mesma data em festa deliciosa na editora MULTIFOCO. Nada define melhor o estilo carioca de ser como o frenético caos da última quinta-feira e a coragem de seu povo que insiste em ser feliz. Sammy definiu a noite: "No Rio o bicho estava pegando, tinha tudo para dar zebra, mas Catarina estava com a macaca e Deu Vaca!" Veja o vídeo da festa

Lançamento livro DEU VACA

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Vento carioca

Agenor adora ventania. Basta voar as primeiras folhas para que o apreciador da natureza se instale no banco da praça com seu caderninho. Espera, ansioso, as mulheres de saia serem surpreendidas pela golfada de ar vinda da praia. Para justificar hábito tão erudito, Agenor inventou de escrever uma tese: “A Calcinha Carioca – Cultura e Expressão Oculta”. Trabalho de campo árduo. Brancas de algodão enfiadas no rego, floridas, de bolinhas, calçolas emagrecedoras, transparentes, de moranguinhos, de elástico frouxo, de renda negra, de bichinhos, e até invisíveis que não deixam marcas. E muitas, muitas vermelhas de variados tecidos, tamanhos e idades. Revelação científica: as calcinhas vermelhas são as campeãs sob as saias cariocas. Isso sem contar com as pagadas de cofrinho sob os jeans. Impressionado com a descoberta, Agenor tratou de registrar a tese na Biblioteca Nacional e partiu em busca de um editor visionário. Não pensava em outra coisa e não saia ma...