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O excluído

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- O que você tem, menino? Engoliu uma aranha? - Não, mãe. Preciso saber quando você e o pai vão se separar. - Ué? Não estamos pensando nisso. Nós nos amamos. De onde você tirou essa ideia? - Tô chateado com os coleguinhas da escola. É que os garotos ficam esfregando na minha cara que têm duas casas, dois pais, duas mães, um monte de avós...e eu aqui, nem um meio-irmão eu tenho. Não aguento mais tanta humilhação. - Tem seu lado bom. Pai, mãe, avós, brinquedos exclusivos só para você todo o fim de semana. - Saco. Decidi. Se vocês não se separarem eu me separo de vocês. - É mesmo? Com dez anos na fuça vai prá onde? - Prá casa do Igor. Lá ele tem até um terço de irmão, filho do segundo casamento da atual mulher do pai dele. Coisa fina. - Filho, o amor tem várias formas. Todas são certas. O importante é que você é amado e sempre será. - Tá bom. Você e o pai podem continuar juntos. Eu ...

Uma história qualquer sobre homens do bicho

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Seu Canastra apontou o jogo do bicho nas redondezas do bairro por mais de quarenta anos. Lá pelas tantas viuvou e deu para beber. No começo cerveja, no final qualquer biricutíco. No sorteio das 18 horas já trocava cachorro por cavalo e cobra por galo. Da contabilidade animal passou a tirar uns trocados para molhar a palavra. Quando Cordão de Ouro, dono do ponto, descobriu os desvios de Canastra, deu-lhe um pé na bunda como aviso prévio e, compadecido, deixou Canastra vivo à própria sorte. Sem salário, sem registro, sem teto, sem gosto, o homem aboletou-se com uma trouxa de roupa na praça e foi ficando. Se esperto, assumiria a própria sina. Desprovido dessa dádiva, achou por bem tirar satisfações com o antigo patrão. Tomou todas e plantou-se em frente ao restaurante do bicheiro à espera. Quando Corrente de Ouro saiu,Canastra interpelou e pediu, não ajuda e sim reconhecimento pelos anos de lealdade quase total, admitia. Reconhecido, o chefão garantiu que Canastra perdesse os dentes q...

O primeiro amor

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- Bora, Pedrinho, matar a última aula ou a gente vai pegar uma fila imensa. - Tô indo, tô indo. - Trouxe a garrafa de álcool? - Não. Era a minha vez? - A gente compra no caminho. Vito, você tem quanto? E você Edu? - 0,80. - 0,15. - Caramba, só tenho 0,10. Dá. Feito. Não falei? Olha a fila na escada! - Não vai dar tempo até a hora do almoço. - Vai sim. É rapidinho, só tem moleque na fila. Talvez aquele velhote empaque na armação. - Ele tem tempo sobrando, a gente pede para passar na frente. - Abriu a cortina rosa. A fila tá andando. - Já tô até pronto. - Segura. - O próximo! Os rapazes vão pagar com o quê? - Chaveiro, Dona Gertrudes. - Caneta... - Eu vou pendurar prá próxima... - Esses estudantes...Deixa eu ver se o material está limpo e desimpedido. Tudo bem. Faz logo o serviço que a fila já está lá na rua. Vem com a mamãe, vem. Upa, upa neném!!! - Uhuuuu! Todo mundo feito? Agora correndo pro parque. - Joga esse álcool logo antes que seque. -...

ARRASTA

A CADA ANO UM RIO DESÁGUA EM MINHA'LMA ARRASTANDO PALAVRAS E LETRAS AO OCEANO, AOS BORBOTÕES: A SAGA A CADA RIO UM ANO DE MINHA'LMA DESÁGUA POR LETRAS E PALAVRAS, A SAGA DOS BORBOTÕES DO OCEANO ARRASTA

Querido Papai Noel,

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Suzete pendurou a meia-arrastão na janela prendendo cartão decorado com purpurina e preenchido com letra caprichada: Querido Papai Noel, Este ano eu fui muito gente boa. Não sacaneei ninguém, perdoei todos os filhos-da-puta que jogaram pedras no meu caminho e que mereciam morrer com uma bigorna entalada na garganta. Comi montanhas de legumes e verduras entre torresmos e chopes. Não dormi com ninguém; só fiquei aqui e ali sempre com camisinha reserva com todo o respeito, até porque só consigo pegar no sono sozinha na minha cama de solteira. Paguei a musculação o ano todo e até fui lá algumas vezes. Não tirei nenhuma vida, isto é, quase nenhuma se o Papai aí considerar grave achatar mosquitos que rondam meus ouvidos e sugam o meu sono. Engoli sapos, lagartos e aranhas e só regurgitei coelhinhos fofos. Não fiz promessas, já que é pecado não honrá-las. Tomei banho em três minutos para economizar a água do planeta. Não pulei no pescoço de uma condômina nem diante das in...

Amiguinhas de cortina

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Sebastiana ficou tonta, não falava coisa com coisa e quando esqueceu que levantou para fazer xixi e foi beber água, percebeu que era hora de procurar ajuda. Em frente à porta da Emergência, uma placa com desenho de caveira alerta: “Perigo de vida – Alta tensão”. Não deu outra, foi parar no CTI. Sebastiana não conseguia dormir com todos aqueles fios, agulhas e sons estranhos. Ao lado de seu leito uma gaveta metálica escrito “expurgo” onde vira e mexe alguém jogava coisas dentro. Gente de branco chegava, olhava os monitores por trás de Sebastiana e soltava a enigmática palavra “basal”. Tédio. Tratou de arrumar quatro amiguinhas – elas não sabem, mas são -: a misteriosa Senhora Ruth que fica fora do alcance das vistas, num lugarzinho exclusivo, muita gente entrando e saindo. Talvez seja mãe judia e rica, digna, sofre em silêncio ou está em coma profundo mesmo. A vizinha de cortina é a tia Zulmira, que só geme. Stanislaw Ponte Preta ficaria, se pudesse, chocado em saber que sua querida p...

A felicidade em bolinhas de sabão

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Jaqueline, figura saltitante importada da baixada fluminense, vive sob as marquises dos prédios nos arredores da Praça São Salvador. Raquítica, viciada, coberta de doenças de pele, carrega na barriga o fruto do amor cafajeste de outro morador de rua que, dia sim outro também, enche a cara dela de tapa. Quando acorda, lá pelo meio-dia, desfila entre os “tios” e “tias” pedindo comida e cigarro. Parece um palito amarelo com uma azeitona no meio. No fim da tarde já ganhou comida, roupas e dinheiro suficiente para trocar pelas pedras de crack dela e do macho nervoso. Os moradores sensibilizados com a situação arranjaram um abrigo para mães solteiras, com direito a psicólogo, médico, cama limpa e comida simples, porém farta. Em troca Jaqueline teria de dividir tarefas, como fazer faxina, arrumar o quarto, cozinhar, cuidar de horta comunitária e estudar. E, o pior, ficar de cara limpa. Ninguém merece. Jaqueline é pobre, mas não é escrava para trabalhar de graça. Voltou para a rua. Saud...