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Um tanto ao mar

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Parou na beira deixando a espuma enterrar as pontas dos dedos, depois os pés e por fim os tornozelos. Preocupou-se com as coisas do mar. A maré está secando ou enchendo? Puxando para dentro ou para fora? Própria ou imprópria para banho? Dando onda ou banheira? Um redemoinho depois da rebentação sombreado por pássaros planando na termal. Que aves são essas? Gaivotas, quero-quero ou urubus? O vento está soprando do sul ou do norte? Trás frio ou calor? Entro ou não entro? Quantos ainda teria dias como este? Mergulhou no meio da onda deixando a água gelada alisar o corpo. Embaixo d’água, desde menina, sempre pode ver o passado e o futuro conversando animadamente. Com o somar dos anos os diálogos tornaram-se mais intensos e nadar em direção ao horizonte, o que antes curiosidade, hoje necessário esforço de compreensão do presente. O braço esquerdo girando na cadência da batida da perna direita e vice o anverso de novo novamente a água entrando e saindo dos ouvidos e narinas ritmadas. As ...

O infinito de Pi

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( p = 3,14159 26535 89793 23846 26433 83279 50288 41971 69399 3751) Quem vê Pi contando aos palmos a distância entre uma árvore e outra, anotando números no braço e falando com suas equações, não imagina o engenheiro brilhante escondido dentro do terno roto e amarrado pela gravata sebenta. Quando a gula da esquizofrenia devorou-lhe o emprego, a família e a dignidade, passou a vagar pelas ruas medindo seu mundo e traduzindo-o em enigmáticos cálculos nas paredes da cidade. Um entre milhões de malucos abandonados pelo Universo, Pi exibe seu tempo entre um pôr-do-sol e outro. Passeia sua massa cinzenta aprisionada no infinito por entre sinais de trânsito, sinais de olhos, sinais dos tempos inexatos, todos voltados para ele julgando-o. Busca interminável nos números a explicação para tanto abandono e fúria dos nunca pares mesmo que iguais. Os dias sobrepõem as noites sem que ninguém perceba Pi sentado no banco da praça coberto de números. O olhar encontra o nada e ne...

A cigana leu o teu destino

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A cigana coloca as cartas e joga sobre ele um olhar 3 x 4. Coisa boa não pode ser, pensa. - Vejo um manto negro cruzado por um rio de sangue no meio do corpo. Do pescoço uma cascata branca escorre pelo peito. No dedo da rainha assassinada um diamante coberto com sangue. Todas as pedras de vítimas de injustiças viraram rubis. - Ai... - Sorte. Vejo claramente. - Onde? Onde? - Na cabeça. Está bem claro nesta carta aqui. O peso da balança da sabedoria equilibra o corpo. Na mão a espada de fogo com gumes nas duas extremidades. - De quê? - De ida, de volta. Positivo e negativo. Verdade numa ponta e a mentira na outra, ambas ao alcance do livre arbítrio. - Como se segura uma espada com dois gumes? - Pelo meio. Com muito cuidado e os olhos vendados. - Parece perigoso. - E é. Também sem volta. Ao assumir a espada jamais poderá voltar ao reino da inocência. Haverá dias escuros como a noite e noites insones de ideias iluminadas. Em vários momentos terás apenas a sombra de t...

Desperdiçar comida é pecado

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Marieta recebeu o beijo de Betinho ainda meio sonolenta. Abriu uma fresta nos cílios e viu o marido sorridente de camisa de time, bermuda, chuteira e meião. - Amor, to indo prá pelada de sábado, volto pro almoço. Marieta dormiu mais um pouco, passou na feira e preparou Camarão na Moranga como Betinho adora. Quatro da tarde ligou para o celular fora de área. Às dezoito almoçou sem apetite com as crianças. Às vinte e uma guardou a comida na geladeira. À meia-noite chorou, rezou por Betinho e resignou-se ao sono assustado dos que não sabem embora desconfiem. Três da manhã a campainha toca. Marieta pula da cama com o coração aos gritos. Abre a porta de supetão e dá de cara com um rapaz franzino, recém expulso da adolescência, com a timidez pendurada no chaveiro do carro. - Boa noite, Dona. Desculpe pela demora. É que meu pai demorou a conseguir me dar os endereços. A Senhora faz o favor de escolher um dos quatro bêbados lá no carro que eu ainda tenho três carretos de malas para ent...

O excluído

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- O que você tem, menino? Engoliu uma aranha? - Não, mãe. Preciso saber quando você e o pai vão se separar. - Ué? Não estamos pensando nisso. Nós nos amamos. De onde você tirou essa ideia? - Tô chateado com os coleguinhas da escola. É que os garotos ficam esfregando na minha cara que têm duas casas, dois pais, duas mães, um monte de avós...e eu aqui, nem um meio-irmão eu tenho. Não aguento mais tanta humilhação. - Tem seu lado bom. Pai, mãe, avós, brinquedos exclusivos só para você todo o fim de semana. - Saco. Decidi. Se vocês não se separarem eu me separo de vocês. - É mesmo? Com dez anos na fuça vai prá onde? - Prá casa do Igor. Lá ele tem até um terço de irmão, filho do segundo casamento da atual mulher do pai dele. Coisa fina. - Filho, o amor tem várias formas. Todas são certas. O importante é que você é amado e sempre será. - Tá bom. Você e o pai podem continuar juntos. Eu ...

Uma história qualquer sobre homens do bicho

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Seu Canastra apontou o jogo do bicho nas redondezas do bairro por mais de quarenta anos. Lá pelas tantas viuvou e deu para beber. No começo cerveja, no final qualquer biricutíco. No sorteio das 18 horas já trocava cachorro por cavalo e cobra por galo. Da contabilidade animal passou a tirar uns trocados para molhar a palavra. Quando Cordão de Ouro, dono do ponto, descobriu os desvios de Canastra, deu-lhe um pé na bunda como aviso prévio e, compadecido, deixou Canastra vivo à própria sorte. Sem salário, sem registro, sem teto, sem gosto, o homem aboletou-se com uma trouxa de roupa na praça e foi ficando. Se esperto, assumiria a própria sina. Desprovido dessa dádiva, achou por bem tirar satisfações com o antigo patrão. Tomou todas e plantou-se em frente ao restaurante do bicheiro à espera. Quando Corrente de Ouro saiu,Canastra interpelou e pediu, não ajuda e sim reconhecimento pelos anos de lealdade quase total, admitia. Reconhecido, o chefão garantiu que Canastra perdesse os dentes q...

O primeiro amor

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- Bora, Pedrinho, matar a última aula ou a gente vai pegar uma fila imensa. - Tô indo, tô indo. - Trouxe a garrafa de álcool? - Não. Era a minha vez? - A gente compra no caminho. Vito, você tem quanto? E você Edu? - 0,80. - 0,15. - Caramba, só tenho 0,10. Dá. Feito. Não falei? Olha a fila na escada! - Não vai dar tempo até a hora do almoço. - Vai sim. É rapidinho, só tem moleque na fila. Talvez aquele velhote empaque na armação. - Ele tem tempo sobrando, a gente pede para passar na frente. - Abriu a cortina rosa. A fila tá andando. - Já tô até pronto. - Segura. - O próximo! Os rapazes vão pagar com o quê? - Chaveiro, Dona Gertrudes. - Caneta... - Eu vou pendurar prá próxima... - Esses estudantes...Deixa eu ver se o material está limpo e desimpedido. Tudo bem. Faz logo o serviço que a fila já está lá na rua. Vem com a mamãe, vem. Upa, upa neném!!! - Uhuuuu! Todo mundo feito? Agora correndo pro parque. - Joga esse álcool logo antes que seque. -...