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Terremoto na comunidade

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Tem uma árvore na rua; inquestionavelmente rainha do pedaço. Mais de trinta metros de altura, tronco popozudo, pele caroquenta, raiz marrenta e copa turbinada. Abriga condomínio de múltiplos espécimes. Macacos tinhosos tiram onda quicando nos galhos. Bípedes alados celebram colorida suruba armando um barraco fenomenal. Borboletas azuis de sangue nobre circulam esnobes entre mariposas do baixo-árvore. À noite, os morcegos agarram-se aos frutos mais duros do que pedra cantando a conquista timidamente. Liquens, musgos, orquídeas, barbas-de-pau, barbas-de-velho e barbas de cílios, e de sobrancelha e de qualquer coisa que se pendure, se agarre, e se alimente de seus oferecidos galhos. A aranha amarela corre atrás do mosquito que procura uma poça limpinha na forquilha, e as formigas trabalham já que o tempo urge e a antipática da cigarra continua cantando o tempo todo. A raiz tentacular da árvore pula rasgando a calçada, seduzindo o canteiro, o meio-fio e onde sua rebeldia determinar. El...

É complicado...

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- Mãe, o pai é um homem bom? - Claro, meu filho. Lembra aquelas inglesas bêbadas que ele salvou do afogamento? Então. - E o tio Edgar? - Também. Só que ele combate incêndio, deslizamento de encosta, essas coisas. - E isso é proibido? - Proibido? Seu tio salva pessoas. Isso não é proibido. Proibido é matar, roubar... - Então eu posso desobedecer à professora e reclamar com ela se ela me der bronca? - Pode. Vivemos em plena democracia onde podemos reclamar para defender os nossos direitos, desde que não prejudique o próximo e fale a verdade. - Então só vai preso quem mata, rouba e engana os outros? - Sim, devem ser presos e responderem por seus atos porque são bandidos perigosos para a sociedade. - O pai e o tio são bandidos? - Não! Eles são bombeiros, heróis da cidade e você deve continuar sentindo orgulho deles. - Então por que eles estão presos? - Não sei, meu amor, é complicado... Ei, olha bem nos meus olhos e entenda: é um engano, erros acontecem, eles volt...

Amor de cão

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As surras de toalha molhada nem as tapas na cara não o deprimiam, ajudavam a analisar seus erros explícitos ou subliminares: demorou mais de dez minutos para perceber o novo corte de cabelo da esposa, ousara colocar um pouco de sal no almoço perfeito que ela fizera com tanto sacrifício, esquecera a tampa do sanitário levantada numa noite insone tentando entender os motivos do último esporro, pecara trazendo da padaria pão careca doce em vez de salgado ao voltar estressado do trabalho. Embora soubesse merecedor dos corretivos, não sabia mais o que fazer para alegrar aquela mulher. A própria burrice o atormentava e seu esforço era inumano para superá-la. A patroa, compreensiva, acabava aceitando a própria sina. Ela olhava-o com desespero nos dedos entre os cabelos e, louca de amor, deixava escapar que não sabia mais o que fazer com ele. Com a agenda lotada de compromissos de mimos da amada, ele desdenhava dos próprios: emprego, saúde e espelho. No início da tarde foi suma...

Carta a um exército particular

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Meu amigo é um lutador canhoto. Não de esquerda, e muito menos de direita, não de artes marciais ou de tribuna; tampouco épicas e sim diárias, sem fazer estardalhaço diante das vitórias ou derrotas. O escudo do meu amigo tem a transparecia dos retilíneos e sua arma mais poderosa é o amor puro e profundo pela vida através da família, dos amigos, dos livros e da música de sua terra natal. Meu amigo tem uma estratégia: conhecer o inimigo e, o mais rápido possível, atacá-lo de frente com os arqueiros e com a cavalaria pelos flancos. Sabe que sempre haverá baixas que serão assimiladas com a força dos patriarcas e a sabedoria das mães. Hoje o meu amigo ganhou mais uma batalha de uma guerra morna, cozida em fogo brando, anunciada. Outras virão, mas nosso herói não teme, já que sua natureza nasceu assim livre dos terrores terrenos; até porque, também, além do que, até, pois, sabe que não está sozinho. A guerra é dele, mas seu exército é de fidelidade inquestionável e nada, nada mesm...

Passa por cima

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Leo é cadeirante acostumado aos obstáculos cotidianos. Buracos, postes, orelhões, árvores, gente sem noção e degraus, muitos degraus que o obrigam a vagar procurando uma decida de garagem ou uma boa alma. Foi com grande alegria que assistiu a construção, em frente ao seu prédio, de uma rampa de acesso ligando a calçada até o outro lado da rua, atravessando a praça e terminando em frente à entrada do supermercado. Asfaltada, sinalizada com lindas faixas amarelas, independente. No dia da inauguração Leo desceu ansioso para estrear a pista e deu de cara com um Palio estacionado bem em cima da faixa. Deixou um bilhete simpático no limpador de para-brisa e resignou-se em dar a volta na praça. À noite tranquilizou-se ao ver a pista desimpedida. Pela manhã lá estava o carro no mesmo lugar. Deixou outro bilhete agora menos simpático e mais incisivo. Na manhã seguinte, o carro na faixa e o bilhete de Leo amassado no chão. Resolveu esperar para conversar com o vizinho. Quando o homem chego...

Um tanto ao mar

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Parou na beira deixando a espuma enterrar as pontas dos dedos, depois os pés e por fim os tornozelos. Preocupou-se com as coisas do mar. A maré está secando ou enchendo? Puxando para dentro ou para fora? Própria ou imprópria para banho? Dando onda ou banheira? Um redemoinho depois da rebentação sombreado por pássaros planando na termal. Que aves são essas? Gaivotas, quero-quero ou urubus? O vento está soprando do sul ou do norte? Trás frio ou calor? Entro ou não entro? Quantos ainda teria dias como este? Mergulhou no meio da onda deixando a água gelada alisar o corpo. Embaixo d’água, desde menina, sempre pode ver o passado e o futuro conversando animadamente. Com o somar dos anos os diálogos tornaram-se mais intensos e nadar em direção ao horizonte, o que antes curiosidade, hoje necessário esforço de compreensão do presente. O braço esquerdo girando na cadência da batida da perna direita e vice o anverso de novo novamente a água entrando e saindo dos ouvidos e narinas ritmadas. As ...

O infinito de Pi

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( p = 3,14159 26535 89793 23846 26433 83279 50288 41971 69399 3751) Quem vê Pi contando aos palmos a distância entre uma árvore e outra, anotando números no braço e falando com suas equações, não imagina o engenheiro brilhante escondido dentro do terno roto e amarrado pela gravata sebenta. Quando a gula da esquizofrenia devorou-lhe o emprego, a família e a dignidade, passou a vagar pelas ruas medindo seu mundo e traduzindo-o em enigmáticos cálculos nas paredes da cidade. Um entre milhões de malucos abandonados pelo Universo, Pi exibe seu tempo entre um pôr-do-sol e outro. Passeia sua massa cinzenta aprisionada no infinito por entre sinais de trânsito, sinais de olhos, sinais dos tempos inexatos, todos voltados para ele julgando-o. Busca interminável nos números a explicação para tanto abandono e fúria dos nunca pares mesmo que iguais. Os dias sobrepõem as noites sem que ninguém perceba Pi sentado no banco da praça coberto de números. O olhar encontra o nada e ne...