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Quarentena sabática

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Amigos, A partir de hoje entro em quarentena sabática para cultivo do ócio criativo renovador. Ficarei sem publicar no blog www.gavetaverde.blogspot. com e na coluna no site www.cronicascariocas.com.br , assim como nas redes sociais. Volto em outubro com novidades. Saudades antecipadas,

Promessa da noite

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Cheguei bombado no baile. De cara a morena me deu mole passando lentamente a ponta da língua pelos dentes unidos protegidos por lábios acolchoados. Fui lá conferir. Era tudo verdade. Ofereci latinha, ela sorriu recusando, pegou a dela e virou de um gole só deixando escorrer pelo queixo, peito, umbigo. Respirou fundo e depositou a lata vazia na minha mão. Melhor assim, não tem custo, a noite promete, comentei em segredo com minha cueca. No batidão fui me animando e me aninhando na dança da preparada. Suor no vapor, o funk bombando, a morena ondulando e eu cercando prá nenhum outro maluco se chegar. Um beijo no cangote, mão na cintura descendo sentindo a minha paciência colhendo o prêmio. É chegada a hora do pega. Ah moleque! Puxei pela mão prum canto. Agora o menino cresce! Ela escorregou de mim e voltou para o salão saltitando, me chamando, me tinindo. Caraio, essa menina vai me fazer pular a noite inteira antes de me dar. Resisti porque o investiment...

A discreta Lucila

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Lucila tem várias manias, a sua preferida é cutucar gente na rua para avisar que a etiqueta da roupa está aparecendo ou tem um fiapo de linha pendurado na manga do paletó. É tão dedicada à coisa que é capaz de saltar do ônibus antes de seu ponto por conta de uma blusa pelo avesso ou – pior – um zíper aberto. Sutiã com alça aparecendo, mancha de molho na barriga da camisa, cadarço de criança desamarrado, remela por baixo dos óculos, meia de bebê caindo, bolsa aberta, carteira saindo do bolso, brinco frouxo, batom borrado no dente, nada, absolutamente nada, escapa de seu olhar aristotélico. Cônscia de estar prestando serviço humanitário de alta relevância encara as pessoas na rua dando aquela escaneada de cima em baixo procurando um defeito. Quando não encontra fica frustrada e só sossega depois de cutucar alguém. A reação das vítimas é um prazer à parte para Lucila. A maioria fica com vergonha, agradece e sai de perto de fininho. Hoje foi diferente. Est...

Uma medalha para Botelho

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Botelho trabalhou por quarenta anos como servidor público. Aposentado poderia dedicar-se ao ócio até o fim de seus dias. Todavia sua vocação para servir à cidade que ama fala mais alto e nosso herói dedica todos seus minutos ao exercício da cidadania. Fiscaliza poda de árvore, buraco em calçada, estacionamento irregular, poste sem lâmpada ou gastando energia. Possui em sua agenda telefônica contato com todos os órgãos públicos, ONGs, jornais e – dizem – até o celular do prefeito. Diariamente faz a ronda em seu bairro com uma máquina fotográfica e um caderninho de anotações. É tão conhecido na área que alguns infratores tratam de se corrigir antes de serem documentados em flagrante delito. Alguém grita “Lá vem Seu Botelho!” e é um tal de catar guimba de cigarro do chão, tirar a moto da calçada, recolher a muamba da esquina; uma correria só. Até os cachorros ficam com prisão de ventre só de olhar para ele. Quando os bueiros da cidade criaram asas de fogo matando gente, verdadeiras mi...

Caixa de fósforos

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Desde que aprendeu a andar Nina olhava mais para o céu do que para o chão onde pisava. Não a toa vivia tropeçando e esbarrando nas coisas terrenas. Contava estrelas torcendo para não nascer verruga nas pontas dos dedos, apertando os olhos para ver detalhes de São Jorge matando o dragão na lua cheia. Aos cinco anos amarrou uma toalha de mesa na gola do pijama e pulou de cima da geladeira com os braços e olhos bem abertos. Os dez pontos na testa não borraram seus sonhos alados, apenas trouxeram a sabedoria da necessidade de asas. A primeira viagem de avião deixou-a grudada na janela. Nem o serviço de bordo conseguiu desviar sua atenção. O orvalho molhando o vidro já matava sua sede e as nuvens de algodão doce eram-lhe alimento suficiente. Na adolescência escrevia poesia com o céu tomando-lhe o peito e os hormônios. Apaixonou-se e desapaixonou-se entre uma lua nova e uma minguante. Cansada de voar sem rumo conheceu o Homem-árvore e aquietou-se em terra fir...

Terremoto na comunidade

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Tem uma árvore na rua; inquestionavelmente rainha do pedaço. Mais de trinta metros de altura, tronco popozudo, pele caroquenta, raiz marrenta e copa turbinada. Abriga condomínio de múltiplos espécimes. Macacos tinhosos tiram onda quicando nos galhos. Bípedes alados celebram colorida suruba armando um barraco fenomenal. Borboletas azuis de sangue nobre circulam esnobes entre mariposas do baixo-árvore. À noite, os morcegos agarram-se aos frutos mais duros do que pedra cantando a conquista timidamente. Liquens, musgos, orquídeas, barbas-de-pau, barbas-de-velho e barbas de cílios, e de sobrancelha e de qualquer coisa que se pendure, se agarre, e se alimente de seus oferecidos galhos. A aranha amarela corre atrás do mosquito que procura uma poça limpinha na forquilha, e as formigas trabalham já que o tempo urge e a antipática da cigarra continua cantando o tempo todo. A raiz tentacular da árvore pula rasgando a calçada, seduzindo o canteiro, o meio-fio e onde sua rebeldia determinar. El...

É complicado...

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- Mãe, o pai é um homem bom? - Claro, meu filho. Lembra aquelas inglesas bêbadas que ele salvou do afogamento? Então. - E o tio Edgar? - Também. Só que ele combate incêndio, deslizamento de encosta, essas coisas. - E isso é proibido? - Proibido? Seu tio salva pessoas. Isso não é proibido. Proibido é matar, roubar... - Então eu posso desobedecer à professora e reclamar com ela se ela me der bronca? - Pode. Vivemos em plena democracia onde podemos reclamar para defender os nossos direitos, desde que não prejudique o próximo e fale a verdade. - Então só vai preso quem mata, rouba e engana os outros? - Sim, devem ser presos e responderem por seus atos porque são bandidos perigosos para a sociedade. - O pai e o tio são bandidos? - Não! Eles são bombeiros, heróis da cidade e você deve continuar sentindo orgulho deles. - Então por que eles estão presos? - Não sei, meu amor, é complicado... Ei, olha bem nos meus olhos e entenda: é um engano, erros acontecem, eles volt...