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À luz das begônias

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O sol matinal formava um cone de luz nos tacos da sala retendo-se nas rodas da cadeira. Olhou os pés vestidos com aquelas meias de listras coloridas. Como chegou ali aquela alegria besta para pés mortos? Pensou. A beleza refletiu nos seus olhos e levantou a mão esquerda bêbada. Na janela um beija-flor planava sugando o peito da begônia. Creuza! Creuza olha que lindo o beija-flor na begônia que eu plantei naquela primavera! Da boca saiu o som sem o próprio reconhecimento. Ooooh...beiibei...lin...gôgô...mavééé...Ahhh! - Dona Lina, para de gritar. Os vizinhos vão reclamar. - Ai...a....lí!!! - Assim não dá. Vai acabar caindo da cadeira de novo. - Bei..bei....óóó... - Minha bonequinha está muito agitada hoje. Vou te dar um calmante para descansar. Abre a boquinha, toma, vai. - Nãnã....naa...ohhh...didi...otááá! - Para de me xingar, Dona Lina, coisa feia. Vou ter de enfiar na força. Assim. Ai! A senhora me mordeu, está ficando além de torta gagá? Não quer tomar o remédio...

O americano do 1401

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(Foto Sammy Angeli)          Nos corredores comenta-se a boca nervosa que o americano do 1401 foi fuzileiro boina verde, daqueles que descascam abacaxi no dente, bebe água de goteira e estanca ferida só no bafo. De poucas palavras, olhar de computação gráfica, movimentos de Matrix, áurea de Blade Runner e pele de pêssego passado cobrindo músculos atracados a ossos longos. A boca em régua nunca enverga. Embora de fala mansa, seu “bom dia” arrepia os intestinos do mais bravo dos homens. Duas pedras azuis de anel de chiclete, fincadas na cara por um dedo ogro, avisam que não veio para tomar caldinho de feijão no boteco da esquina.          Seu apartamento não emite som algum. Nem uma tevê, rádio, sequer um singelo micro-ondas tão importante para um homem solitário. Recebe entregas neandertais de pizza, uísque e água mineral com gás. Mesmo no tórrido verão brasileiro não tira o surrado blusão de militar...

Ainda Alagoas

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Gaivotas na termal. Não pairo culpa. Até por que nada vejo. Evaporo entre uma nota e outra antes dos tons pastéis do céu nascer, antes do eu acordar sibila o som que tudo promete. Há de acordar algo antes da fatura, antes do cartão de crédito, antes de eu conseguir de meio olho escanear o ganho e a perda. De passagem, te foder.  Antes, antes, antes; depois, só dívida na quina da mesa. Do ontem, dos teus aqui, quisera amanhã um clique da paisagem. Eu não vejo culpa, só a bílis carente beijando pés. Não beijo pés. Nunca. Cravo meu petardo, rasgo o futuro com a inocência dos bravos, com o regurgitar dos fetos; com o ódio dos babacas mato o herói. Que me trucidem de urbanidade. Nada temo; tenho CO2 brotando dos poros e o zumbido dos insanos alimentando a carótida. Venci. Que caiam nuvens, que caia a conexão, que caiam maracujás e cajus na areia branca de Alagoas enquanto o mar lambe, goza e descansa a minha febre. Porque ninguém é o que pensa.

Esporro

Não faça ouvido moco, moleque, com esse buraco da maldade. Não te criei ouvindo canário para vomitar urubu depois de tirar os cueiros. Vou cuspir no chão e, antes de secar, quero tua cara de cagão aqui. Não adianta dar chilique nem botar tromba que eu não tenho medo de murrinha. Se apanhar na rua de novo dos maloqueiros carunchos e borrar o pino da caçoleta saiba que o cinto vai cantar na carcunda até fazer caminho de lacraia. O quê? Fala direito estrupício! Come como são e fala como doente. Parece que tem miolo mole. Como é que é? Vai retrucar empinando as ventas? Tua mãe não te deu educação? Tinhoso como o cunhado e enxerido como a sogra. Em vez de tratar a roça pra empedrar os braços fica aí de flozô com os livros até o cu da noite gastando candeeiro. Fica assim, xôxo, com vudum de preguiça. Depois me vem com renda de trancoso e não quer levar esporro. Nada de fliquiti e toma temência. Tenho dito. Pede a bença e xispa! - A bença, meu pai. - Deus te abençoe, meu filho. Passo ...

O ano do ovo

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         Berta encarou a tradicional lista de ansiedades do novo ano pregada na porta da geladeira: 1.    PARAR DE FUMAR 2.    DETONAR CACARECOS 3.    SER FLEXÍVEL 4.    PERDER CINCO QUILOS 5.     ABANDONAR A INTERNET 6.    NÃO LER MAIS HORÓSCOPO 7.    COLAR TACOS SOLTOS. O primeiro item há vinte anos bate ponto na lista, conquistou status de líder absoluto dos objetivos.  Cruel e cascudo, humilha Berta todos os anos e sempre volta para tirar onda com a cara dela. Por doze meses exige, cobra, lembra, enche o saco. Não vai mais tolerar toda essa opressão. Está expulso da lista. O segundo envolve grande operação de administração e logística. Quantas canetas, tesouras, penduricalhos, carregadores de celular, lembrancinhas lindas e inúteis, potes de sorvete, panos de chão, brincos, colares, dicionários, relógios, botões e imãs de geladeira precisamo...

Nada ao acaso

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         Apressado pela Rua das Laranjeiras devora um joelho de padaria. Pensa ouvir um arfar nas costas. Olha para trás e nada vê. Continua ouvindo e andando e vez em quando olha para trás. Nada. Para no sinal da Rua Pinheiro Machado e sente o contato úmido na canela. Um vira-lata baba seu tênis. Vaza! Grita enojado. O cão para, senta e encara com a língua pendurada. Saco. Vai pra casa, cara, você está me confundindo com outro humano. Olha só: vou atravessar a rua agora. Não vem não, fica aí, é perigoso; você entendeu? O cão atravessa junto. Chegam ao laboratório para pegar resultado de exame. Entra ele, o cão é barrado pelo segurança: xô sarna! Melhor assim. Pega o resultado, rasga o envelope. Uma linha impressa e dois segundos são suficientes para minar seu futuro. Faltam pernas, anoitece, senta gelado na calçada. Pensa nas coisas a fazer, no que jamais faria e, principalmente, no que jamais deveria ter feito. Deita os braços nos joelhos. ...

QUE VENHAM

Lentilhas, abacates, cigarras, família, amigos, lírios e damas-da-noite; Cantigas, versos, prantos, gargalhadas, chuva e a madrugada; Gatos, maré alta, ventania, lua cheia, beijo e água oxigenada; Fé, sonho, magia, desejo, coragem e muito mais café; Vírgula, til, travessão, ponto, teclado e inspiração; Mas venham logo. Tenho pressa.