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Cida e a televisão

        Em 2006 meu filho, Ian C Angeli, me intimou a participar, com o conto "Cida e a televisão" do concurso Contos do Rio, do jornal O GLOBO e fiquei entre os 10 finalistas. O tema era "futebol". Graças ao acervo do jornal O Globo pude resgatar essa publicação em 29/07/2006,  Caderno Prosa & Verso, página 2: http://acervo.oglobo.globo.com/busca/?tipoConteudo=pagina&busca=a+marca+de+denser

Uma luva vermelha em Porto Alegre

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Cesário segue pela Rua dos Andradas pensando se o frio encolhe ou desperta os neurônios. Sabe que o ar inóspito empurra para debaixo das cobertas. Haja gana para comer as esquinas, placas e meios-fios gelados “à la minuta”. Anda por calçadões apinhados e vidros estilhaçados de agências bancárias. A noite anterior fora a mais longa dos últimos trinta anos e nunca estivera tão acordada. Chegaria a tempo? Na beira do Guaíba senta num banquinho improvisado vendo o povo encasacado tomando chimarrão e jogando conversa na correnteza. A garrafa térmica, o pote de erva e a cuia, que nos trópicos seria um trambolho, harmonizam-se perfeitamente entre tantos panos. É um povo bem estranho, sai de casa com sete graus molhando os ossos, todo embrulhado em várias camadas de roupas. Lá pelas tantas, com o sol subindo, vai retirando as cascas aos poucos, feito cebola. Vê-se na rua um monte de gente-varal, com casaco, suéter, cachecol, luva e gorro pendurados nos braços. Ninguém reclama, sabem qu...

POR AGORA

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(Fotos Sammy Angeli)  De tanto ir e vir nas ruas de meio século Susto já não distinguir cor de grito Fato de foco Ato de rede social Social de indivíduo De tanto cair e levantar de faixas e anexos Velam meus anjos exalando bruxos Jargões devorando a história Enquanto a fúria apedreja o futuro A burrice avança rumo aos pilares De tantos deuses e demônios amontoados Refastelarem-se em festim patriótico A frágil linha da liberdade se fortalece nas ruas Ou, como reprise de filme ruim, Arrebenta.

Entre abutres

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O que a faz chorar mora na eternidade das horas. Que entre pela porta agora, para que a tua essência abutre desabe pela sala e aquele livro que você lhe deu, e não leu, repouse estático sobre os pedaços de ti. Que, antes de questionar qualquer “que”, vislumbre uma fêmea complicando e existência dos olhares e o pôr-do-sol que se consome na estática retina das ondas. Vem e vai, entra e vem e vai; para. Até então não há verdade, só uma mulher planando sobre teus pesadelos. E esta mulher sabe quem você é e de onde veio. Esta mulher gera luz sobre o passado e pedra a humilhação com um sorriso. Suga esse ser que verte líquidos por todas as bocas. A boca do dia soltando sopas de letrinhas ou furiosas maiúsculas, a boca da noite em sopa rubra em prestações mensais, branca de prazer ou de piscina estourada de neném. Pois que mortal é a enxurrada da boca da alma: os olhos molhados fixos em ti. Esse ser deslizante, ora fúria ora além, às vezes fora de hora, trafega entre os abutres com ...
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Tenho medo dos poetas e suas odes ao esquecimento Tenho medo dos intelectuais e suas caras de paisagem Tenho medo dos gênios e suas reticências Tenho medo dos saudáveis e seus pulmões rosados Tenho medo dos certinhos e suas verdades absolutas Tenho medo do amor imenso e suas mentiras Tenho medo dos grudentos e seus elogios vazios Tenho medo dos belos e suas luzes irritantes Tenho medo do sucesso e suas grades deslumbrantes Tenho medo da felicidade e suas armadilhas Tenho medo de você que me suga com seu coração Não durmo sobre meus neurônios Tenho medo de que, se eu fechar os olhos, tudo isso me consuma. (Foto Sammy Angeli)

À luz das begônias

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O sol matinal formava um cone de luz nos tacos da sala retendo-se nas rodas da cadeira. Olhou os pés vestidos com aquelas meias de listras coloridas. Como chegou ali aquela alegria besta para pés mortos? Pensou. A beleza refletiu nos seus olhos e levantou a mão esquerda bêbada. Na janela um beija-flor planava sugando o peito da begônia. Creuza! Creuza olha que lindo o beija-flor na begônia que eu plantei naquela primavera! Da boca saiu o som sem o próprio reconhecimento. Ooooh...beiibei...lin...gôgô...mavééé...Ahhh! - Dona Lina, para de gritar. Os vizinhos vão reclamar. - Ai...a....lí!!! - Assim não dá. Vai acabar caindo da cadeira de novo. - Bei..bei....óóó... - Minha bonequinha está muito agitada hoje. Vou te dar um calmante para descansar. Abre a boquinha, toma, vai. - Nãnã....naa...ohhh...didi...otááá! - Para de me xingar, Dona Lina, coisa feia. Vou ter de enfiar na força. Assim. Ai! A senhora me mordeu, está ficando além de torta gagá? Não quer tomar o remédio...

O americano do 1401

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(Foto Sammy Angeli)          Nos corredores comenta-se a boca nervosa que o americano do 1401 foi fuzileiro boina verde, daqueles que descascam abacaxi no dente, bebe água de goteira e estanca ferida só no bafo. De poucas palavras, olhar de computação gráfica, movimentos de Matrix, áurea de Blade Runner e pele de pêssego passado cobrindo músculos atracados a ossos longos. A boca em régua nunca enverga. Embora de fala mansa, seu “bom dia” arrepia os intestinos do mais bravo dos homens. Duas pedras azuis de anel de chiclete, fincadas na cara por um dedo ogro, avisam que não veio para tomar caldinho de feijão no boteco da esquina.          Seu apartamento não emite som algum. Nem uma tevê, rádio, sequer um singelo micro-ondas tão importante para um homem solitário. Recebe entregas neandertais de pizza, uísque e água mineral com gás. Mesmo no tórrido verão brasileiro não tira o surrado blusão de militar...