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Há 30 anos

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         1985 foi um ano quente, muito quente. Os acontecimentos se empilharam formando uma torre colorida e desconexa como a geração da época. Fora as tragédias inevitáveis e evitáveis, foi um ano espetacular.          Começamos o ano bem. O regime militar brasileiro foge pela porta dos fundos e dois ditadores falecem: Konstantin Chernenko e Emílio Garrastazu Médici.  Ocorrem eleições diretas para as prefeituras das capitais, das cidades litorâneas e de municípios "enquadrados" pela antiga   Lei de Segurança Nacional   no Brasil, em quase 20 anos. Surge no Brasil a primeira  Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher em São Paulo. E o Prêmio Nobel da paz vai para médicos Internacionais pela prevenção da Guerra Nuclear.          Michael Stuart Brown e Joseph Goldstein ganham o Nobel de medicina p or elucidar   metabolis...

Coragem, dezembro

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          Caixinhas, comprinhas, lembrancinhas, íntimos esquecimentos; vinhas e rinhas de Natal, não há perdão. Impossível traduzir todo o seu amor em objetos horrorosos.          Forcas bipolares travestidas de guirlandas seduzem inocentes décimos terceiros salários. Papai Noel se multiplica em varandas envidraçadas. Bizarros arranjos penduram o velho barbudo vermelho entre luzes e pedidos de revanche, a memória escorre nos umbrais.  Ambulâncias urgem enquanto shopping centers lotados de calos e dívidas futuras piscam sedutores. Pisca-piscas incendiários, presépios decorados com alienígenas fluorescentes em miniatura: nada a declarar por suas santidades. O povo quer mais. Dingobel, dingobel, acabou o papel.  Hoje vai bater 40 graus. Vai cair o maior toró. Não faz mal, não faz mal, limpa com jornal. Sensação térmica de 46 graus, e olha que não chegou nem o verão.  Esqueceram o vestilador ...

BELADONA

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                    Beladona nasceu com um problema que carregou como uma cruz por toda a vida. Veio ao mundo proprietária inquestionável de uma beleza intoxicante; daí o nome.          Foi a bebê mais fofa da maternidade: sem ruga, amarelão, hematoma ou inchaço. Verdadeira top model do berçário. No parquinho sua companhia era disputada pelas mamães, papais, babás, bebês e até pelos cachorros. Voltava para casa toda lambida e as bochechas amassadas. Passou a infância sendo assediada, bolinada e elogiada como uma boneca de vitrine. Lutou até a adolescência por uma identidade própria. Quis ser professora, veterinária, bombeira, policial, atleta e cientista. Todo mundo achava graça como ela era linda e brincalhona. Foi capa de revista infantil, modelo e, para ser atriz, bastou estar de corpo presente no estúdio ganhando muito dinheiro. A família, orgulhosa, cobria a garota de mimos.  E...

Dívida histórica

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Quem olhava para o meu roçado esturricado, as galinhas carecas e Vaidosa, a vaca leiteira, com as costelas assanhadas e as tetas secas, pensava logo que eu não cuidava da posse. Mas Deus é testemunha que não havia galo que, ao acordar, não me encontrasse lutando no roçado. Por mais que cavasse não brotava água nem para amolecer a terra. Os meninos sem condução ou disposição na barriga para ir até a escola por um mingau ralo, iam ficando por ali mesmo catando mandacaru e xique-xique. A mulher toda manhã vagava duas léguas com o mais velho para catar água na poça sobrada do açude. A vida cobrava mais do que dava e nem o Sol, que nunca faltou, se compadecia do nosso miserê. Um dia uns homens de sapatos pretos em carro de roda larga chegaram medindo telhado, colocando calha e cano até uma caixona enfiada no chão. Tampada que nem uma chaleira guardava a escuridão. Aí veio os meses da chuva e a caixa encheu. Os homens trouxeram médicos de fala esquisita, mas de boa mão. Um ônibu...

Sou nordestina, de pai e mãe.

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                   Sou nordestina, de pai e mãe. Não me interessa minha origem portuguesa, espanhola, holandesa, indígena ou africana. Sou brasileira e nordestina e isto me basta. Nasci em Maceió, Alagoas e, pasmem, não sou idiota. Amo e conheço minha terra como quem toma um caldo-de-cana ruim pela manhã sabendo que à noite todo o potencial de meu povo pode surpreender.            Cresci em uma família de trabalhadores e pensadores que se preocupam mais com a dignidade, alimentação e educação dos seus do que com a rotação da Terra e a opinião alheia.          Divertidas, se não fossem trágicas, as reações xenófobas nas redes sócias pregando o extermínio do povo nordestino, são de uma virulência tão inócua que remetem à “Revolta da Vacina” no início do século passado ou à penca racista imputada a Monteiro Lobato. Aos ataques infantis seria ...

Ninguém aprende a ser atleta em meia hora de esteira, muito menos a respeitá-lo.

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Não vou falar da Copa. Ninguém aguenta mais; nem eu. O assunto de hoje é muito mais profundo. Quero falar do atleta, esse ser que de tão simples chega a ser complexo. Ao contrário da Copa, FIFA, CBF, Governo, que podem ser julgados politicamente, o atleta não pode ser confundido com elementos exteriores à sua essência. Ser atleta requer práticas e conhecimentos físicos e mentais desconhecidos da maioria ensandecida opinante nas redes sociais e até de alguns respeitáveis jornalistas que vêm divertindo a população com suas crônicas “esclarecedoras” quanto à incompetência dos jogadores.                 Li recentemente um texto apócrifo, logo covarde, que execrava os jogadores de futebol pela imerecida rápida ascensão econômica e social sem estudar, sem esforço. O texto alegava que a derrota da seleção brasileira para a alemã era merecida por serem os jogadores brasileiros uma cambada de vagabundos, ignorantes ...

A PRAÇA É DE NINGUÉM

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As praças foram criadas para que os humanos pudessem interagir de forma centralizada. Fosse para se divertir, competir, se exibir ou compartilhar a comida. As praças participam da evolução da humanidade. Nascem, têm seu apogeu, tragédia e abandono junto com suas civilizações. Algumas adormecem como Pompéia e Machu Picchu. Ao contrário das civilizações as praças, enquanto espaço aberto,  nunca morrem, apenas adormecem. Aguardam o momento propício ao renascimento.  As praças eternizam-se na memória de cada frequentador e momentos, como clichês, não morrem. O leitor neste momento deve lembrar da praça da infância onde brincou de escorrega, jogou bola de gude, deu o primeiro beijo, conheceu a pessoa amada. Todo mundo tem uma lembrança de uma praça a preservar. Eu também tenho uma praça. Moro na bucólica Praça São Salvador, fincada na zona sul do Rio de Janeiro, Brasil. Sem trânsito intenso, arborizada, ruas de paralelepípedo, parquinho, chafariz e coreto. A dez minutos do ...