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            Antes do céu clarear, Tião beija a mulher e os filhos como se para sempre.  O caminho até a estação de trem não carece de luz, os pés cegos nunca erraram o caminho. Argamassa com tijolo sobrepõe-se às horas lentas de poeira. Os músculos desabam com o sol. Tião sobe no alto do esqueleto, senta na beira balançando os pés no ar enquanto as formiguinhas lá embaixo urgem. Sorri com o privilégio do pôr-do-sol. Pensa na mulher grávida lavando roupa no tanque e os filhos brincando na viela fétida; sem pôr-do-sol. Abre a garrafa de cachaça, oferta o “gole do Santo” ao vento e vira a danada em um único fôlego. As nuvens correm para a esquerda, enquanto a lua sobe as escadas pelos degraus iluminados das estrelas. Tião vê poesia em seus pensamentos e toda a dor cede. Dança na beirada do abismo como nunca antes. Gargalha sem medo para o céu e grita:          - Eu estou aqui!      ...
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                                O vulcão de farinha sobre a bancada recebe os ovos com delicadeza. Enquanto  mãos tornam aquele casamento indissolúvel, a água ferve aquecendo o ar da cozinha.  A massa é aberta no rolo de madeira e fica ali, deitada na mesa, descansando da relação intensa. Quando o azeite cobre o fundo da panela, os tomates mergulham despedaçados e se unem para borbulhar sentidos nos narizes vizinhos. Pronta para a faca, a massa se horizontaliza em faixas sobrepostas cada vem mais finas. Entrega-se à água salgada e, ao ser escorrida, anseia pelo êxtase. O brilho denso do molho invade os caminhos por entre seus corpos ondulados. O  queijo ralado chove para derreter-se em pedaços de felicidade. Por fim o manjericão, esse exibido, deita por cima de todo mundo. Está na mesa!
O último desafio do Entre Contos foi "fantasia". Costurei a minha fantasia para desfilar pela Mangueira. Singela homenagem: http://entrecontos.com/2016/03/05/os-nove-ceus-onkqwe/

LEMBRANÇAS FUTURAS

Voltei!!! Entrei em 2016 no estilo bombeiro: derrubando a porta!  Esta foi minha melhor colocação nos Desafios EC. Sinto-me honrada em dividir o pódio com um tricampeão (  Fabio Baptista ) e um bicampeão ( Gustavo Castro Araujo ). 3º lugar com gostinho de primeiro. Com vocês, "Lembranças futuras": http://entrecontos.com/2015/12/09/lembrancas-futuras-kristin-lund/

Meu primeiro assédio

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                             O assunto da moda é o primeiro assédio. Antes de entrar neste ponto gostaria de contar como descobri que era diferente dos meninos. Eu tinha dez anos e não lembro o que estava fazendo. Soltando pipa, fazendo cerol, jogando queimado, pique esconde, pique bandeira, pelada, amarelinha? Não sei. Estava descalça e sem camisa, só de short, como todas as crianças que brincavam no asfalto fumegante enquanto não vinha carro. As camisas e chinelas ficavam amontoadas na calçada. Neste dia minha mãe me arrastou pra casa e me informou oficialmente: “Você é uma mocinha e não pode mostrar os peitinhos na rua.” Aleguei a mais pura verdade, que eu tinha peitos iguaizinhos aos dos meninos e que eu brigava com eles de igual também. Até os meus cabelos curtinhos e desgrenhados eram iguais aos deles.   Piorou minha situação, fiquei de castigo meia hora porque lá em casa ninguém nunca ap...

Um quilo de tomates (7º lugar no desafio www.entrecontos.com.br)

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¾     Glorinha, minha flor, precisa de ajuda aí na cozinha? ¾      Mô, vou fazer aquela macarronada que você adora. Vai lá ao mercado rapidinho e traz um quilo de tomate bem maduro. Um quilo só e tem que ser do débora que é pra molho. Traz também uma garrafa de vinho daquele que só você sabe escolher.                     Era a deixa que Reboque estava esperando. ¾      Pode deixar, minha flor, volto já! ¾      Olha só, vai pela avenida para não passar pelo boteco do Seu Dodoca. Se eu tiver que sair daqui e te encontrar jogando porrinha com aqueles trastes eu te mato. ¾      Não vou passar nem perto.                     Reboque chega esbaforido. A mesa para a Grande Final do Campeonato de Porrinha do ...

A Nave (40º lugar no desafio www.entrecontos.com.br)

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          A Nave foi criada através de um estudo que durou meio século. Dotada de atmosfera autorregulável e autolimpante prescindia de filtros. Transparente em toda sua circunferência recebia luz regulada naturalmente, alimentando seus geradores dia e noite. Gerava sua própria água fundindo luz com o oxigênio artificial. As hortas não manipuladas eram semeadas, nasciam, cresciam e eram colhidas pela própria nave, evitando assim contaminação cruzada. Estava preparada para uma longa viagem. O feito inédito, visitar um planeta de outra galáxia, exigiu um plano de exatidão matemática. A nave seria lançada através do grande arco atmosférico que se abria periodicamente. Uma grande massa de ar empurraria a densidade da nave maleável para o espaço. A viagem seria lenta e longa. O pouso estava previsto para  09:42:12 horas de 03/07/2463 – hora local - em um campo  de luminosidade intensa porém fresca, solo macio apenas o suficiente para...