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Todo o meu pedaço

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O amor é inteiro ou apenas um pedaço? Meu conto "Todo o meu pedaço" ficou orgulhosamente em 4º lugar no desafio FOLCLORE BRASILEIRO do site Entre Contos. Leia o meu e os outros contos. Seu dia ficará mais belo e completo: https://entrecontos.com/2017/03/10/todo-o-meu-pedaco-calango/comment-page-1/#comment-60228 Todo o meu pedaço ( Catarina Cunha) Ainda com o torpor da vigilância noturna, Etelvino lavou o sorriso pensando no corpo morno de Melissa entre os lençóis sonolentos. Tirou o uniforme e devolveu a arma da firma, nunca gostou de arma de fogo, carregava por obrigação. Mas Benedita, a companheira das solitárias rondas noturnas, se mantinha junto à coxa esquerda. A peixeira descansava na curtida bainha de couro desde os tempos de menino nos canaviais. Pegou gosto pelo ornamento que lhe equilibrava o gingado. A madrugada recifense, de escuridão escaldante, jogou o homem dentro de um ônibus. Não faria o longo percurso a pé, como de costume, guardaria um pouco de e...

Bela

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Bela (Catarina Cunha) Hoje é meu aniversário. Mamãe me enfeitou de vestido branco com moranguinhos desenhados. O laço de fita nos cabelos me deixou bem mocinha com os sapatos emprestados da Cinderela.  Meu príncipe encantado me procura neste salão enfeitado de flores recebendo convidados de mansinho.   Será que vai ter refresco de pêssego?  Gosto mais de presente surpresa,  como a cama branca da Bela Adormecida. Mas que gente sem graça, vamos animar esta festa dançando meu vestido.  Mamãe, tira meus sapatos para não sujar o lençol. Não chora, prometo nunca mais deitar de sapato. Não fecha a cama, papai, fica escuro. Papai?

CAFÉ

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Café Antes de pensar o dia perguntei-me se haveria outra noite suficiente para alimentar todas as bocas estelares. A mudez solar sepultou todos os meus pensamentos óbvios na cova rasa da imensidão galáctica. Vácuo no corredor. Meteórico. Foda. Odeio o dia começar assim da mesma forma que terminou. A cafeteira me inferniza com questionamentos domésticos recheados de rotina maternal. Sofro as lamúrias depressivas das marés, como se não bastasse o que tenho que assistir inerte. Suporto o beijo do aroma do que odeio amar. Fé e mar. Café. Saudade do que nunca se é Foda. Odeio o dia começar assim da mesma forma. O movimento de rotação me embrulha o estômago e sucumbo ao tédio de goles homeopáticos de translação. Não há latitude suficiente para aplacar a longitude de minha desesperança com tantas certezas absolutas. Obtusas, contra ou pró. Sempre profundo. Mundo foda. Odeio o dia começar assim. Dou corda na engrenagem alimentando os ventos antes que a v...

Hibisco para todos

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No último desafio do Entre Contos, com o tema "Retrô cemitérios", fiquei em 7º lugar com a singela visão de um menino muito engajado em suas teorias sobre vida e morte. Assim como meu filho  Ian C Angeli  na mais tenra idade, Jonas é capaz de emendar um raciocínio no outro sem perder a ternura jamais.  Todos os contos possuem comentários que foram feitos sem ninguém saber a autoria, usamos pseudônimos até o resultado; o que dá lastro ao desafio.  Não deixem de conferir os contos dos outros autores, principalmente o campeão "Mea Culpa" de  Daniel Reis  e "Belinha" de Anderson Henrique. Com vocês,  "Hibisco para todos": Hibisco para todos Há anos adquiri o hábito de passear nas alamedas do cemitério depois do almoço, lendo as lápides, imaginando a vida daquelas pessoas e sempre terminando meu passeio no túmulo 1672, quadra 9, lar definitivo de minha esposa, que pediu que eu  plantasse um pé de hibisco amarelo, hoje uma frondosa árvore flor...

O gato, o pinguim e um brinde.

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Este conto participou do Desafio de Terror Recanto das Letras (DTRL28). Não entendo de literatura de terror, sendo a técnica extremamente difícil para mim; mas prestigiei o desafio com um conto-crônica do cotidiano. Isto é, ao meu ver, o verdadeiro terror: O gato, o pinguim e um brinde.          Por mais bêbado que Onofre se esforce, não tem como não ver e odiar a plaquinha ridícula pendurada na porta: “Lar doce lar”. Prometera aos próprios colhões um dia matar Zelda com essa placa. Bater tanto naquela cabeça oca até explodir como um ovo no micro-ondas. Já estava até vendo o sangue respingando nas cortinas floridas, no tapete sempre branco e no maldito pinguim, todo dia o encarando quando abre a geladeira. Pensou o quanto aquele bibelô encaixaria como uma luva na goela do gato de nome escroto: Feliz. Riu com a ideia da cena, arrancou a placa e socou a porta.   -    Quero mijar, porra! Porta filha da puta cheia de tranca, com...

Crônica ao “presidento”

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Recebi três sugestões interessantíssimas. O mestre e escritor Eduardo Selga incentivou a continuação de minha crônica indignada com o golpe parlamentar. O líder João Gilberto Krepel, com quem tive a sorte de trabalhar, pediu que eu escrevesse uma crônica a favor de Temer. E, por último, fugindo da crônica política chata e apostando na fantasia, como sugeriu o sinceríssimo escritor Rich Dan, com vocês a   Crônica ao “presidento” A viagem de volta da China mexeu com os sensíveis órgãos internos do septuagenário presidente. A bílis lhe subia à língua, diante de qualquer pergunta, deixando suas palavras resumidas à enigmática expressão mesoclítica: Um pronunciamento à nação? “Fá-lo-ei amanhã”. Reunião com os ministros? “Fá-lo-ei amanhã”. Almoçar? “Fá-lo-ei amanhã”. Ir ao médico? “Fá-lo-ei amanhã”. Assim os dias foram passando sem que o empossado saísse da toca do Jaburu para assumir a Alvorada de uma nação ascendente. A imprensa solidária rasgava-se em imagens gravadas e ...

Crônica ao “presidento”

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Recebi três sugestões interessantíssimas. O mestre e escritor Eduardo Selga incentivou a continuação de minha crônica indignada com o golpe parlamentar. O líder João Gilberto Krepel, com quem tive a sorte de trabalhar, pediu que eu escrevesse uma crônica a favor de Temer. E, por último, fugindo da crônica política chata e apostando na fantasia, como sugeriu o sinceríssimo escritor Rich Dan, com vocês a   Crônica ao “presidento” A viagem de volta da China mexeu com os sensíveis órgãos internos do septuagenário presidente. A bílis lhe subia à língua, diante de qualquer pergunta, deixando suas palavras resumidas à enigmática expressão mesoclítica: Um pronunciamento à nação? “Fá-lo-ei amanhã”. Reunião com os ministros? “Fá-lo-ei amanhã”. Almoçar? “Fá-lo-ei amanhã”. Ir ao médico? “Fá-lo-ei amanhã”. Assim os dias foram passando sem que o empossado saísse da toca do Jaburu para assumir a Alvorada de uma nação ascendente. A imprensa solidária rasgava-se em imagens gravadas e ...