O peru de Valdirson



O contínuo Valdirson ganhou um peru congelado e temperado do pessoal do escritório. Veio com cartão do Papai Noel desejando Feliz Natal e Próspero Ano Novo. Só não dizia o que fazer com aquele bicho.
Pegou o trem da Central com o peru pendurado na mochila. Quando começou a pingar o povo pediu para ele desencostar aquele peru gelado e Valdirson achou melhor manter o peru abraçado aos peitos para não incomodar ninguém. Chegando na pensão, onde aluga uma cama, pediu para a senhoria guardar no congelador. Ela não tinha espaço nem no congelador muito menos no coração. Ele pensou o que faria com aquilo, nem família tinha. Acharia alguém para comer o peru com ele. Alguém iria acabar convidando para uma ceia; e ele entraria orgulhoso com o peru. Até ser convidado Valdirson precisa guardar na geladeira se não estraga. Saiu abraçado com a ave sentindo o coração molhado. No boteco do Seu Nonô bebeu um café com leite no pendura e deixou o peru no prego. Ganhou tempo. No dia seguinte não conseguia pensar em outra coisa, só no peru. Na fila do banco olhava as pessoas e imaginava se seriam dignas de comer o seu peru. Ninguém a altura. Pensou em fazer uma visita a tia em Campos, fazer bonito chegando com o peru. Ao menos não chegaria com as mãos abanando como sempre. Lembrou que a tia não gostava dele, não gostava de sol e nem de chuva, não gostava de ninguém e nem de nada, por que haveria de gostar de seu peru?
Os dias foram passando, os grupos fazendo amigo oculto, marcando chopada, planejando ceia com a família servindo mil pratos com temperos especiais, e Valdirson com seu peru encalhado no frízer do boteco. Na véspera do Natal o dono do boteco despejou o peru. Some com esse troço daqui que eu estou sem espaço! O rapaz saiu com o peru balançando e pingando pelas ruas coloridas piscantes. Com a noite nos pés percebeu o nada há fazer, olhou a ave e comentou: É rapaz...parece que vamos passar o Natal só nós dois mesmo.
Andou, andou, andou até bater no Aterro do Flamengo. Sentou nas pedras da boca do rio Carioca e abriu o peru já descongelado. Sentou o bicho no colo pegando suavemente em uma de suas asas. Assim ficaram, de mãos dadas, vendo a baía da Guanabara se mover lentamente.

Comentários

Anônimo disse…
Muito boa esta crônica. Feliz Natal para todos !!!! Sem peru congelado, é claro !Monica Cunha
Unknown disse…
Antes um pássaro na mão, que dois voando.
Marcia Tavares disse…
Vou continuar fã em 2012.
bjus

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