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Porque o inferno se perdeu

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Bolas de sabão explodem alopradas pelo vento Pegá-las! Pegá-las em correria desatinada Canta de roda a ciranda que foi minha e foi tua No meio da rua que mandava ladrilhar Com cerol de vidro amassado com cola polar Batatinha-frita-um-dois-três vezes pula a perna num pé só Amarelinha de um ao céu, porque o inferno se perdeu No pique da bandeira hasteada no pátio da escola Hino nacional cantado de conga e meia três quartos Sempre desarrumados tal estratégia de queimado Corre! Corre que lá vem bola! Topada e ronxa Não dói nada. Nem sarampo, catapora ou febrão Impede correr atrás de doce em dia ou noite De São Cosme e Damião.

Abelhas e moscas

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Olhou para o ponto no teto insone e pensou: As abelhas e as moscas Devem ser da mesma raça Mas freqüentam igrejas diferentes.

A flor de Adriana

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Sentei na mureta da praça e, pela primeira vez depois que saí do prédio, levantei o queixo para a estátua úmida e dura como o meu coração. A sensação era igual a de abrir os olhos pela manhã: nada. Havia uma névoa torpe nos meus passos. Coisa estranha. O nada vem acontecendo todos os dias em todos os momentos. Por que continuar se só o limbo aguarda do outro lado da praça? Sempre achei incômodas essas pessoas que passam sorrindo para os próprios chinelos. É um sorriso cheio de prazer íntimo. O interessante é que não têm em comum a idade, a cor, o sexo, só o sorriso abestalhado. Lá vem o maior dos enigmas, a pequena Adriana e sua velha mãe sacrificada. Ela vem saltitando seus pezinhos gordos. Ao contrário dos outros, sorri para as árvores, abraça o pipoqueiro, acena para o mendigo e também para o guarda. Perito algum encontraria vestígios de lágrimas naqueles apaixonantes olhos mongóis. Seus cabelos feitos de nanquim balançavam inquietos. Ela me olhou. Desviei o olhar, sua felicidade me...

O balde cheio

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Chovia, mas chovia muito na cidade maravilhosa. Mas era tanta torneira despencando dos beirais que não mais se via a via expressa, somente bueiros ferventes. O rio Carioca enlaçava-se às pernas hesitantes das almas encharcadas. Os inevitáveis carros dos bombeiros gritavam vermelhos ao fazerem marolas sobre as calçadas escondidas. As árvores dançavam bêbadas a música do caos, lançando folhas ao vento como filhos à própria sorte. Lá em cima, baldes sôfregos corriam de mão em mão, urgentes em salvar o barraco afogado. O céu rugia nas encostas lançando fleches assustadores no paredão de pedra, tal qual correspondente de guerra tirando fotos a cada rajada de raios torturantes. A geladeira pulou para cima da mesa, o fogão, já sem ar, soltava uma fumacinha ardida de gás. Balde de mão em mão, suor, balde, lama. O coração pulava apertado no peito enrugado. Balde, balde, barro, lama, suor e mais lama do céu crescendo de baixo para cima. Balde de mão em mão, barro, lama, mão e mais barro já em so...

A garota do telhado

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Chegava da escola arrancando o uniforme e vestia somente um shortinho de algodão. Passava na cozinha, enchia um prato fundo de feijão com arroz e farinha. Comia sentada no chão fazendo bolinhos com as mãos, ladeada por gatos que destrinchavam sardinhas sobre um jornal. Terminada a refeição, divertia-se deixando que os gatos lambessem suas mãos. Corria para o quintal, alçava o muro e ganhava os telhados. Ali, era a rainha dos gatos, sempre com um séquito de rabudos no encalço. Conhecia os gatunos pelos nomes por ela mesma batizados. Brincava, cochilava e embolava com os felinos pelas telhas do quarteirão entre a Rua Uberaba e o Largo do Verdun. Os vizinhos já a conheciam, os cachorros também; nem por isso aceitavam aquela gata magrela em seus muros: latiam, jogavam água, praguejavam. Ela? Fugia como um gato, mas ria; coisa que os companheiros não sabiam fazer. O tempo foi crescendo, o short apertando, os telhados subindo, a noite chegando, as regras nascendo e os gatos morrendo den...

Assombro tecnológico

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Ahrg! Celular vibrando no bolso sempre me assusta. Tem o efeito similar a enfiar o dedo mindinho na tomada. Se estiver no toque de voz, pior ainda. Assemelha-se a alguém bater na porta do banheiro quando estamos ocupadíssimos. Nunca espero uma ligação no celular. Não sei nem por que tenho esse troço. Quando estou escrevendo posso até ter uma síncope se receber uma ligação ou alguém tocar a campainha. E não tem como ignorar, é pior. E se for urgente? Alguém que amo precisando de minha atenção? Uma oportunidade impar? Pronto. Já estragou tudo; Não sei mais o que estava fazendo antes de ser ferozmente interrompida. Ciente de minha sensibilidade, procurei colocar um toque sutil e tranqüilo: o miado amoroso de um gatinho. Mesmo assim sou pega de surpresa. Minha gata está me chamando? Com fome? Com sede? Engasgada com uma bola-de-pêlo? Não tem jeito. Esse monstro não me larga.

Ontem encontrei o Tempo na esquina.

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Ontem encontrei o Tempo na esquina. Ele estava apressado, mas como sempre, disposto e bem apessoado. Falou rápido de seus novos projetos e da felicidade de me ver. Arrancou-me gargalhadas ao relatar suas últimas peripécias na noite anterior. Havia torturado algumas almas na madrugada e infestado de criação os insones. Agora não podia me dar muita atenção, pois o trabalho o chamava. Labutava em um projeto complexíssimo no centro financeiro. Coisa grande que exigia dedicação exclusiva. Não reclamou, embora tenha transparecido preferir as missões na beira da praia ou na floresta. Perto da despedida me encarou e não mediu escrúpulos no arremate: Onde você esteve? Nunca mais te vi...Andou dormindo, foi? Ando preocupado com o seu prumo...Descompassada, sorri e o abracei com tanto amor e carinho que tinha a certeza de não mais deixá-lo escapar. Gentil, aceitou o afago, no entanto, me afastou de seu corpo lentamente, beijou meus dedos, prometeu visita e telefonema, afagou meus cabelos e pediu ...