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O peru de Valdirson

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O contínuo Valdirson ganhou um peru congelado e temperado do pessoal do escritório. Veio com cartão do Papai Noel desejando Feliz Natal e Próspero Ano Novo. Só não dizia o que fazer com aquele bicho. Pegou o trem da Central com o peru pendurado na mochila. Quando começou a pingar o povo pediu para ele desencostar aquele peru gelado e Valdirson achou melhor manter o peru abraçado aos peitos para não incomodar ninguém. Chegando na pensão, onde aluga uma cama, pediu para a senhoria guardar no congelador. Ela não tinha espaço nem no congelador muito menos no coração. Ele pensou o que faria com aquilo, nem família tinha. Acharia alguém para comer o peru com ele. Alguém iria acabar convidando para uma ceia; e ele entraria orgulhoso com o peru. Até ser convidado Valdirson precisa guardar na geladeira se não estraga. Saiu abraçado com a ave sentindo o coração molhado. No boteco do Seu Nonô bebeu um café com leite no pendura e deixou o peru no prego. Ganhou tempo. No dia seguinte não consegui...

Pipocas no asfalto

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Paulinho nasceu numa família como qualquer outra. O pai intelectual silencioso, a mãe orgulhosa da prole, o irmão mais velho lindo, estudioso, obediente. A irmã caçula, sempre doente e boba, recebia a atenção de todos; inofensiva, uma benção. Já o magro, pálido e ágil Paulinho honrava a fama de filho do meio, era o capeta encarnado. Frequentador eventual da escola mantinha ano após ano o boletim regularmente vermelho, os cadernos desbeiçados, rasurados e sem datas. Saía de casa com a mochila nas costas, uniforme engomado, cabelo penteado e sapatos dignos para voltar totalmente possuído pelas peladas de rua. Joelho esfolado, meias rasgadas, chiclete no cabelo, boca suja de paçoca e, no lugar do dever de casa, a bolsa cheia de bolas de gude e figurinhas conquistadas. A mãe, mulher espiritualizada, resignava-se aos desígnios de Deus, mais cedo ou mais tarde seu moleque tinhoso haveria de servir para alguma coisa. Numa intensa tarde Paulinho atravessou a rua destrambelhado atrás da bola...
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Voltei. Depois de doses cavalares de Chá de Sumiço, volto levinha, Catarininha-paz-e-amor. Para festejar o feliz retorno segue uma crônica:

Caminho para a terapia

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- Mô, o bebê tá chorando... - Eu ouvi. - Não vai fazer nada? - Não. Pode ser cocô, xixi, fome, cólica e... - Frescura. - Maldade. Vou lá. - Faça isso. Eu vou dormir. - Você é muito egoísta. - Não, sou muito cansado de trabalhar o dia todo para você brincar de casinha com esse moleque que só tá de olho no seu peito. - Não acredito que você está com ciúmes. - Estou exausto para tanto. - Você não liga para seu filho. Sabia que hoje ele falou? - Pediu o quê? - Água. - E você deu? - Dei peito. - Do que adianta ele falar se você não ouve? - Marcondes, você é insensível. - Você é que é. O garoto desesperado de sede, fala pela primeira vez e você finge que não entende. Pelo jeito vai ser assim pelo resto da vida. - Eu amo o meu filho. - Não parece... -Ah! Eu sou uma péssima mãe, ele vai ficar traumatizado. Vai ter déficit de atenção. Já percebo que ele fica olhando para um monte de coisa ao mesmo tempo. Vai fazer terapia até morrer. - Menos, Rute, ...

Quarentena sabática

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Amigos, A partir de hoje entro em quarentena sabática para cultivo do ócio criativo renovador. Ficarei sem publicar no blog www.gavetaverde.blogspot. com e na coluna no site www.cronicascariocas.com.br , assim como nas redes sociais. Volto em outubro com novidades. Saudades antecipadas,

Promessa da noite

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Cheguei bombado no baile. De cara a morena me deu mole passando lentamente a ponta da língua pelos dentes unidos protegidos por lábios acolchoados. Fui lá conferir. Era tudo verdade. Ofereci latinha, ela sorriu recusando, pegou a dela e virou de um gole só deixando escorrer pelo queixo, peito, umbigo. Respirou fundo e depositou a lata vazia na minha mão. Melhor assim, não tem custo, a noite promete, comentei em segredo com minha cueca. No batidão fui me animando e me aninhando na dança da preparada. Suor no vapor, o funk bombando, a morena ondulando e eu cercando prá nenhum outro maluco se chegar. Um beijo no cangote, mão na cintura descendo sentindo a minha paciência colhendo o prêmio. É chegada a hora do pega. Ah moleque! Puxei pela mão prum canto. Agora o menino cresce! Ela escorregou de mim e voltou para o salão saltitando, me chamando, me tinindo. Caraio, essa menina vai me fazer pular a noite inteira antes de me dar. Resisti porque o investiment...

A discreta Lucila

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Lucila tem várias manias, a sua preferida é cutucar gente na rua para avisar que a etiqueta da roupa está aparecendo ou tem um fiapo de linha pendurado na manga do paletó. É tão dedicada à coisa que é capaz de saltar do ônibus antes de seu ponto por conta de uma blusa pelo avesso ou – pior – um zíper aberto. Sutiã com alça aparecendo, mancha de molho na barriga da camisa, cadarço de criança desamarrado, remela por baixo dos óculos, meia de bebê caindo, bolsa aberta, carteira saindo do bolso, brinco frouxo, batom borrado no dente, nada, absolutamente nada, escapa de seu olhar aristotélico. Cônscia de estar prestando serviço humanitário de alta relevância encara as pessoas na rua dando aquela escaneada de cima em baixo procurando um defeito. Quando não encontra fica frustrada e só sossega depois de cutucar alguém. A reação das vítimas é um prazer à parte para Lucila. A maioria fica com vergonha, agradece e sai de perto de fininho. Hoje foi diferente. Est...