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Cavalo de Troia (6º lugar no desafio www.entrecontos.com.br)

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         Cavalo de Troia          Com Betão não tem tempo ruim. Encara cave jump, escalada na chuva, mergulho de plataforma de petróleo, mulher ciumenta, chefe burro e turismo no Complexo do Alemão. Sem contar que é ciclista no Rio de Janeiro. O cara é foda.          Ou quase.          Em segredo mantém-se refém de um inimigo íntimo de alta periculosidade terrena. A simples visão de um espécime rondando uma inocente banana causa-lhe espasmos neurológicos com reflexos imediatos no controle de todos os esfíncteres. A boca se contrai até os lábios beijarem a goela. As pernas bambeiam e o suor arde nas pálpebras.  Entretanto, apenas uma leve espuma seca no canto da boca poderia denunciar o inferno dantesco em que Betão cai quando percorre os perigosos mercados e feiras.          Aprendeu táti...

É a da feira?

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¾    Bom dia, o senhor pode me dar uma informação? ¾    Só se for agora! ¾    A Rua Senador... ¾    ...Vergueiro? Facinho. Pega aqui a vida toda, quando não der mais mão chegou. ¾    Senador Corrêa. ¾    Ih, esse senador é mais difícil. Ô Parafuso! Vem cá, traste! Larga essas caixas agora! ¾    Deixa, moço, ele está trabalhando. ¾    Trabalhando nada. Tá só enrolando para não fazer entrega. Ô menino, já fez entrega na Rua Deputado Corrêa? ¾    Senador... ¾    Aquela da feira, dona? ¾    Não sei, não conheço, é que... ¾    Deixa de ser abilolado. Tem feira todo dia na cidade toda. Segunda, terça, quarta, quinta, sexta-feira, sábado-feira, domingo-feira, feriado-feira. De que feira você está falando? ¾    A do Corpo de Bombeiros, chefe. ¾    Ah, bom. Por que não falou logo? Mas não tem mais feira lá. Acabou faz mais de déc...

ABRICÓ CANADENSE

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                                                         Pensei em escrever algo para a despedida de uma amiga canadense prestes a voltar ao lar depois de uma exaustiva temporada carioca. Algo que a fizesse ter lampejos de saudade das cores e sons do Rio quando estivesse tomando um vinho aos pés de uma lareira enquanto a neve caísse romanticamente lá fora através da janela; bobagem, logo não permitirei cenas pobres procriando em minha mente.              Os canadenses são famosos pela tolerância e respeito pela individualidade. Eu gostaria que minha amiga, que além de ser do bem ainda ostenta um intrigante sorriso de desenho animado, levasse uma lembrança significativa para a sua terra. O tema “partida” ficou martelando minha cabeça e não consegui encaixar o termo à ...

Há 30 anos

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         1985 foi um ano quente, muito quente. Os acontecimentos se empilharam formando uma torre colorida e desconexa como a geração da época. Fora as tragédias inevitáveis e evitáveis, foi um ano espetacular.          Começamos o ano bem. O regime militar brasileiro foge pela porta dos fundos e dois ditadores falecem: Konstantin Chernenko e Emílio Garrastazu Médici.  Ocorrem eleições diretas para as prefeituras das capitais, das cidades litorâneas e de municípios "enquadrados" pela antiga   Lei de Segurança Nacional   no Brasil, em quase 20 anos. Surge no Brasil a primeira  Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher em São Paulo. E o Prêmio Nobel da paz vai para médicos Internacionais pela prevenção da Guerra Nuclear.          Michael Stuart Brown e Joseph Goldstein ganham o Nobel de medicina p or elucidar   metabolis...

Coragem, dezembro

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          Caixinhas, comprinhas, lembrancinhas, íntimos esquecimentos; vinhas e rinhas de Natal, não há perdão. Impossível traduzir todo o seu amor em objetos horrorosos.          Forcas bipolares travestidas de guirlandas seduzem inocentes décimos terceiros salários. Papai Noel se multiplica em varandas envidraçadas. Bizarros arranjos penduram o velho barbudo vermelho entre luzes e pedidos de revanche, a memória escorre nos umbrais.  Ambulâncias urgem enquanto shopping centers lotados de calos e dívidas futuras piscam sedutores. Pisca-piscas incendiários, presépios decorados com alienígenas fluorescentes em miniatura: nada a declarar por suas santidades. O povo quer mais. Dingobel, dingobel, acabou o papel.  Hoje vai bater 40 graus. Vai cair o maior toró. Não faz mal, não faz mal, limpa com jornal. Sensação térmica de 46 graus, e olha que não chegou nem o verão.  Esqueceram o vestilador ...

BELADONA

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                    Beladona nasceu com um problema que carregou como uma cruz por toda a vida. Veio ao mundo proprietária inquestionável de uma beleza intoxicante; daí o nome.          Foi a bebê mais fofa da maternidade: sem ruga, amarelão, hematoma ou inchaço. Verdadeira top model do berçário. No parquinho sua companhia era disputada pelas mamães, papais, babás, bebês e até pelos cachorros. Voltava para casa toda lambida e as bochechas amassadas. Passou a infância sendo assediada, bolinada e elogiada como uma boneca de vitrine. Lutou até a adolescência por uma identidade própria. Quis ser professora, veterinária, bombeira, policial, atleta e cientista. Todo mundo achava graça como ela era linda e brincalhona. Foi capa de revista infantil, modelo e, para ser atriz, bastou estar de corpo presente no estúdio ganhando muito dinheiro. A família, orgulhosa, cobria a garota de mimos.  E...

Dívida histórica

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Quem olhava para o meu roçado esturricado, as galinhas carecas e Vaidosa, a vaca leiteira, com as costelas assanhadas e as tetas secas, pensava logo que eu não cuidava da posse. Mas Deus é testemunha que não havia galo que, ao acordar, não me encontrasse lutando no roçado. Por mais que cavasse não brotava água nem para amolecer a terra. Os meninos sem condução ou disposição na barriga para ir até a escola por um mingau ralo, iam ficando por ali mesmo catando mandacaru e xique-xique. A mulher toda manhã vagava duas léguas com o mais velho para catar água na poça sobrada do açude. A vida cobrava mais do que dava e nem o Sol, que nunca faltou, se compadecia do nosso miserê. Um dia uns homens de sapatos pretos em carro de roda larga chegaram medindo telhado, colocando calha e cano até uma caixona enfiada no chão. Tampada que nem uma chaleira guardava a escuridão. Aí veio os meses da chuva e a caixa encheu. Os homens trouxeram médicos de fala esquisita, mas de boa mão. Um ônibu...