sexta-feira, 10 de julho de 2009

Sobre a solidão das rosas



Marlene mora sozinha e trabalha na biblioteca desde sempre. Acorda tarde porque dorme e labuta até o fim da noite. E também porque não tem um bichinho para alimentar ou para brincar ou para ficar olhando. Todo sábado vai à feira comprar víveres e rosas vermelhas que ninguém mais, além dela mesma, verá sobre a mesa da sala. Todas as noites senta-se à mesa admirando as pétalas ao som de jazz regado à vinho tinto seco. Escreve num caderno florido suas impressões sobre o mundo que nunca serão lidas. Compra bens que jamais serão aproveitados por ela ou por herdeiro algum. Limpa a casa somente para que o vento suje.
No trabalho conheceu Anselmo, frequentador diário da biblioteca. Conversam pouco, só sobre os livros a serem consultados. Com o tempo Marlene foi desenvolvendo um carinho especial por aquele homem sério, contido e elegante que sempre trazia uma rosa vermelha na lapela.
Num dia de ousadia, comentou que amava rosas vermelhas e que sempre as tinha em casa. A partir daquele dia Anselmo passou a dar-lhe a flor da lapela diariamente.
Ela apaixonou-se perdidamente. Passou a arrumar-se com esmero. Batom, esmalte e decote discreto. Perfume leve. Tudo harmonioso com o coque elegante. Desde então, abominava os fins-de-semana. Não mais comprava as rosas aos sábados, arrumava sobre a mesa as rosas murchas presenteadas pelo amado. Escrevia poemas melosos e acordava segunda-feira ansiosa pelo encontro.
Um dia Anselmo não apareceu. No outro dia também não. Nem na semana, nem no mês, nem no ano seguinte. Marlene definhava a olhos vistos em seu silêncio inodoro. Enfim criou coragem. Pegou o cartão da biblioteca de Anselmo e ligou para o telefone. Ninguém com esse nome. Endereço inexistente.
No sábado Marlene comprou rosas vermelhas, vestiu-se de negro e foi para o cemitério São João Batista. Depositou as rosas no túmulo mais bonito que encontrou, abraçou-se à lápide e chorou copiosamente até o sol se por.