quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Papo mole beira-mar



Jorginho é taxista legítimo: folgado, cabeleira branca e barriga farta, boa praça, poliglota, puxa conversa até com surdo-mudo e conta histórias clássicas do cotidiano do Rio. Lábia afiada leva, na maciota do banco traseiro, a fauna e a flora carioca.

Trabalha de segunda a domingo e de sol a sol. Ano novo entra em recesso. Encosta o amarelo na garagem do apartamento da mãe na Praça do Lido para passar a virada com a família; bem longe da lei-seca. No festão de 2009/2010 Jorginho manteve a carteira de motorista no bolso da bermuda só para não se sentir pelado e, quase na hora dos fogos, decorou os chinelos com areia e sentou de frente ao mar para levar aquele papo cabeça com Iemanjá. Negociou as posturas para o ano que prometia a saúde dos seus e as boas corridas, reclamou – de leve – das intempéries pessoais, do síndico, do trânsito, dos preços, todos loucos do ano moribundo. Empolgado, cobrou mais ação da Rainha do Mar diante de tanta bagaceira ocorrendo no mundo. A Senhora pode fazer melhor, incentivou. Súdito assumido, não querendo ser desrespeitoso, mas firme, comentou com a Soberana que 2009 foi muito quente, o mar esteve indócil boa parte do ano e na outra fedendo a merda. Alguns peixes sumiram das redes, pinguins argentinos bateram nestes costados e plantas, aparentemente extraterrestres, invadiram as praias. Majestade, a Senhora não pode deixar essas coisas por isso mesmo, se não vira bagunça. Sei, sei – contemporizou – têm certas coisas que cansam, principalmente depois de certa idade e com tanto trabalho e concorrência terrena. Mas os seus filhos estão aqui na praia pedindo perdão, graça e força. Não é hora de amarelar. E por falar nisso, ando preocupado com Vossa Excelência. Assisti a um filme sinistro em que daqui a dois anos a Digníssima Majestade pira geral, chuta o balde e faz a maior bagunça com o planeta. Não deixa pedra sobre pedra, derruba até a concorrência do alto do Corcovado. Querida, antes que cheguemos a esse ponto vamos relaxar, pensar positivo, sabe? Nós estamos nos esforçando, por favor, não desista destes filhos inconsequentes. Ofereça-nos a oportunidade de sair da adolescência e - quem sabe? – consertar nossos erros.

Veio uma onda hostil pegando Jorginho em cheio. O taxista levantou todo molhado, mas não perdeu a compostura e soltou mais uma: Perdão, Mãe, eu estava só pensando alto. É uma mania minha, força do ofício. Mas se quiser pensar um pouco no assunto, este humilde servo se curva.

Fogos estouram, garrafas viram, gritos e urras. Antes do fim da queima de fogos, raios dividem os céus com a pólvora. Uma tempestade torrencial cai sobre os súditos esvaziando o tapete branco de Copacabana. Os que insistem em ficar, seja pelo poder da fé ou do álcool, são finalmente afugentados por ondas que apagam velas e enterram Cidras. Jorginho vê todo aquele alvoroço e pensa com seus chinelos: Eu e minha boca grande...

sábado, 19 de dezembro de 2009

O dia de Opílio


Opílio é o “cara”. Turma do deixa - disso, fala de veludo e pele de ébano. O sorriso conivente de anjo contrasta com os dois metros de altura com um de envergadura. Diga-se de passagem, porte totalmente desnecessário diante dos inúmeros pré-requisitos preenchidos de um tijucano culto, elegante e contido.

Ocorreu que, naquela segunda-feira, Opílio entrou pela rua em que morava especialmente sem disposição para grandes ou pequenos debates, doido para tomar um banho e esticar o esqueleto diante da TV. No entanto, pressentiu com um arrepio na nuca, de que a noite seria longa. Não deu outra: em frente de casa viu, logo de cara, um Mercedes deitado sobre o seu jardim, entre eles o portão do lar todo contorcido. O “artista” tinha sumido deixando sua “obra” abandonada.

Opílio não se fez de rogado. Certo de que o “artista” voltaria na madrugada para remover a “instalação modernista”, camuflado pela noite tórrida, sentinelou-se numa cadeira de praia ao lado do carro e esperou. Não deu outra. Duas horas da madruga o malandro aparece cheio de disposição para retirar o veículo à surdina. Opílio, com tom de voz de dar inveja a Papa santificou:

- Olha só. Às sete horas da manhã de hoje quero você aqui com um pedreiro e um ferreiro para consertar o meu portão. Às sete e quinze, se o senhor não estiver aqui, vou ficar um pouco irritado e rasgarei o primeiro pneu dessa belezura. Às sete e trinta rasgarei o segundo, e assim sucessivante. Às oito, hora do meu sagrado banho antes de ir trabalhar, incluirei no rol dos ex-pneus até o estepe.

- Pelo amor de Deus, moço, não faça isso. Dá prá notar que o carro não é meu, né? Meu pai vai me matar.

- O pai é seu, mas o portão é meu. Está perdendo tempo precioso...

O homem sai correndo em desespero.

Às sete e quinze a moto-serra fatia implacável o primeiro pneu. Sete e trinta, serra ligada, o Zé-mané aparece com duas almas remelentas. Opílio perguntou pelo material para a obra. Nada. Vieram só avaliar para mais tarde voltar. A vizinhança, formando arquibancada nas muretas, conhecendo bem os atributos do vizinho, não teve dúvidas. Lá vai mais um pneu. Dito e feito. A galera aplaude. Em prantos o “artista” ajoelha-se e promete tudo pronto até o fim do mês. Proposta errada. Opílio entrou em casa e voltou com um bujão de gás numa mão e um maçarico na outra e sentenciou:

- Chega de papo, vou explodir essa porcaria toda e vai ser agora!

Foi um corre-corre dos diabos. O “artista” também tentou correr, mas Opílio segurou-lhe pelo cangote e olhou dentro daqueles olhos rasos de cagão. Na mesma hora o filhinho-de-papai começou a soltar a língua e o bolso. Quando o valor ofertado pelo moleque, de livre coração aberto, chegou ao bastante razoável, Opílio recebeu educadamente em dinheiro, agradeceu, devolveu as chaves do veículo e mandou o traste embora desejando boa viagem.

Nunca pensou que aquele bujão vazio e maçarico quebrado seriam tão úteis um dia. No Natal, a casa de Opílio era a mais bonita da rua. Portão novo, pintura nova, e sobrou até uns trocados para instalar um pisca-pisca na roseira do jardim.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O bom samaritano


- Tio, dá um trocado prá comprá um lanche.

- Trocado é o cacete! Não tenho inteiro e nem trocado. E se tivesse não te daria, seu bosta!

- Que-que-é-isso, tio? Tô só pedindo.

- E já está me ofendendo. Sabia que você não era para existir? Pago imposto para que não tenha que ver coisas como você. Vai lá na Prefeitura, no palácio do Governo, não me interessa, vai lá pedir dinheiro para a puta-que-te-pariu; se é que você sabe quem foi. Vaza ou te encho de porrada.

- Eu sou de menor.

- Está na cara. Menor inteligência, menor saúde, menor limpeza, menor futuro. Ô aberração, tua mãe não te abortou por falta de grana. E não me olha com essa cara de gente que você não me engana.

- Tio, paga uma empada então.

- Mas você não vale nada mesmo. Nem vergonha tem.

- Tenho sim, senhor. Tanto faz. Só quero comer qualquer coisa.

- É. Parece que o merdinha está com fome mesmo. Aí, garçon, traz uma coxa de frango no papel para este infeliz. Agora, moleque, desaparece da minha paisagem antes que eu me arrependa.

- Valeu, tio.

sábado, 5 de dezembro de 2009

No negativo é mais gostoso



Devendo na padaria, na farmácia e no boteco, Lindinho das Beiradas, somada a ordem de despejo, começou a pensar na remota hipótese de procurar trabalho. Mas foi uma ideia que, graças ao bom Deus, passou logo quando tentou tirar no fiado cópias do currículo e o velho do armarinho fitou-o e, por cima dos óculos, pediu pagamento adiantado. Percebendo que seu crédito na praça encontrava-se sensivelmente comprometido, Lindinho não se intimidava, pedia aos amigos e familiares e pagava com eletrodomésticos velhos em troca de comida, o que na verdade não pagava nada. Depois de detonar os limites de cheque especial em três contas bancárias, partiu para o genocídio dos cartões de crédito.
Agora sim, oficialmente falido, resolveu caminhar na praia e fiscalizar o ir e vir das ondas e o planar das gaivotas. Questionou-se, pela primeira vez, como conseguira torrar toda a indenização trabalhista e ainda ficar devendo a meio mundo em apenas três meses. Para uma empreitada dessas tem que ter vocação, não é coisa para qualquer um...
O céu se iluminou, anjos cantaram, sinos repicaram, eureca!
Com a publicação de seu livro “Como falir em três meses: métodos e projetos passo a passo”, Lindinho das Beiradas fez seu pé-de-meia e, para honrar a fama, torrou tudo de novo em três meses.