sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Você é mais um para a estatística?


Maurício é um clássico eleitor nulo. Frequentou os melhores colégios do Rio de Janeiro, conhece as melhores noitadas e praias, nunca leu os clássicos da literatura, mas conhece todos pelo nome, pratica musculação, surf, comida natureba pronta para micro-ondas e churrasco com os amigos. Não dispensa a imagem de São Jorge nem o patuá na carteira. Preocupa-se com a poluição e o aquecimento global embora nunca tenha pedido a dispensa dos sacos plásticos no supermercado ou deixado de jogar filtro de cigarro na rua. É contra o aborto, mas não usa camisinha porque não anda com cachorra. Paga impostos em dia, tem crise de memória ao declarar o imposto de renda e sempre reclama na coluna do leitor da corrupção. Sua vida nunca teve grandes percalços, boa alimentação, boa saúde, boa mesada. Os últimos oito anos não fizera diferença no seu estilo de vida, não se importa que os pobres estejam comendo, estudando e vivendo melhor; desde que não invadam sua zona de conforto. Maurício não pensa pequeno, é um visionário. Recusa-se a coadunar com populares programas de governo e assume que, enquanto viver neste país de gentinha, continuará a anular seu voto. Não quer ser conivente com os escândalos e erros futuros. Entretanto, no próximo domingo, resolveu não anular o voto, vai justificar, afinal não pode dispensar um feriadão ecológico na região dos lagos.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Senhor, sua assinatura não confere



Seu Antônio, Contador de relativo renome entre os pequenos comerciantes da zona norte do Rio, tem como principais clientes os portugueses donos de botecos. Organizadíssimo, mantém fichas amareladas com dados contábeis e emite relatórios inquestionáveis em sua máquina de escrever manual desde 1971.

Parte dos serviços contábeis é pago com generosas rodadas de cerveja no fim de cada tarde, quando Seu Antônio sai do escritório e pendura o paletó na cadeira do bar e guarda a gravata no bolso. Eventualmente consome no bar mais do que possui de crédito laboral. Lá pelas tantas passa o cheque psicografado pelo anjo da guarda e volta para casa limpando parede com o ombro.

Mesmo com todo o apoio celestial, os cheques começaram a voltar; não por falta de fundos e sim por divergência na assinatura. O Contador, indignado com a humilhação imposta pelo Banco, reclamou tal bandeira despregada, ameaçou encerrar a conta, processar por danos morais; o que não adiantou absolutamente nada. O nome do homem continuava sendo manchado nas mesas dos mais tradicionais botequins da cidade.

Um dia acordou inspirado. Não foi para o escritório e sim direto para o bar. Tomou todas até o meio-dia. Na hora de pagar a conta disse que iria ao Banco e voltava já. Entrou na agência bancária visivelmente chapado. Sentou diante da gerente e sentenciou:

- Traz aí de saideira um cartão de autógrafo que eu quero renovar minha assinatura. Quero ver se agora vocês não reconhecem essa merda!

Negativo da alma


Tirei um retrato

Do rato cego rondando meus encalços

Em preto e branco

Surto meu filme mofado

Não filmado, não listo

A imagem na parede

Revela apenas fato

Com o riso torto

E o olhar morto

Na moldura presa alma

Rota arrota

Estática.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Indivíduo coletivizado


Acorda cedo, jornal, barba, corte no queixo, que merda, logo hoje? Banho, café, jornal, terno preto, verão, acostumado, mas nem tanto. Pega a última vaga na sombra do poste no ponto de ônibus. Sorte. O dia começou bem. Entrevista para emprego não pode chegar com a camisa social colada nos peitos e a testa pingando na gravata. Meia horinha depois chega o coletivo bem coletivizado. Licença aqui, olha onde bota o pé, desculpa, segura, balança, não encosta, não dá, quer que segure a pasta?, abre a janela faz favor, alô? agora não posso tô no buzão, que cheiro, credo! vai descer, motorista, aqui não, no outro, é aqui, é aqui, valeu, ufa. Duas horas, dentro do previsto, muito bem, você é o cara. Sinal da Presidente Vargas com Rio Branco fechado. Calma, você ainda tem quinze minutos, segue o gado, dribla camelô, bicicleta, gente lerda, buraco na calçada, topada, fila para o elevador, ai-ai-ai...bora-bora-bora, agora sim, respira fundo, espera um pouco antes de entrar para se recompor. Bom dia, tudo bem, viagem tranquila, obrigado, sim, moro perto, é rapidinho até aqui. Nenhum problema, posso esperar o tempo que for necessário, este sofá está ótimo, não, obrigado, já tomei café, fique a vontade. Espera, espera, calma, não comece a tremer a perna, nada de TOC, lembra os conselhos do gestor de RH? Então espera, espera, meio-dia, o chefe foi almoçar? Tudo bem, eu espero, duas da tarde, três, café, chiclete. Chegou, calma, vai chamar, até que enfim, sorria, isso mesmo, disposição imediata, salário a combinar, admiro esta empresa por isso e por aquilo outro, meu currículo é generalista, atuo em várias frentes, sei, sei, entendo perfeitamente, claro, claro, entendo, a vaga é para júnior e não senior, eu aceitaria se pudesse...tudo bem, tudo bem, precisa de um perfil mais jovem, isso, não quero tomar mais o seu tempo,obrigado por me receber, foi um prazer, quem sabe em outra oportunidade?

Acorda cedo, jornal, barba, corte no queixo, que merda, logo hoje? Banho, café, jornal...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Eu voto porque posso



Eu voto. Voto nos incluídos mantenedores dos excluídos, nos pensadores transformados em ação, nos que acordam cedo e dormem tarde. Voto nos que se expõem ao julgamento do povo, à bala e ao futuro. Voto no trabalhador, no estudante, no artista, no militante, no aposentado e em você. Voto hoje porque posso e não abro mão desse direito conquistado dos porões da ditadura ao burburinho nas ruas. Voto porque tenho fé e coragem para consertar meus erros, abrir estradas do conhecimento e rasgar o verme do voto nulo, do branco e o de cabresto. Voto com os olhos abertos para o passado e de olho na consolidação diária de nossa democracia. Voto porque vejo minha nação melhor a cada dia e é responsabilidade minha fazer com que ela continue subindo no prumo. Domingo próximo assino mais uma vez meu compromisso com o futuro; porque eu posso.