sexta-feira, 23 de julho de 2010

Zé, o porteiro de Copacabana

Embora muitos jurem que os porteiros de Copacabana foram produzidos em série misturando barro, xiquexique e água de açude nos cafundós do nordeste, Zé sabe ser único. Não pela origem humilde, a viagem no pau-de-arara e o misere inicial na cidade maravilhosa porque isso tudo é de praxe. Zé é o Zé porque sorri o tempo todo e não baixa os olhos diante de ninguém. E nunca negou serviço. Conhece o povo que entra e sai do prédio pelo nome, pelas sortes e azares de cada um. Mantém a timidez lapidada em discrição tão característica do retirante nordestino.

A vida lhe foi digna e, com tempo para aposentadoria, casa ampla com laje no Pavão-Pavãozinho, filhos criados e passado apaziguado, Zé deu entrada no INSS para receber o benefício e descansar. A vista escureceu quando o atendente declarou que ele não tinha contribuição alguma e como não tinha carteira de trabalho nem contra-cheque para comprovar a história, a situação fica complicada. Envergonhado, mas com sangue ainda quente, Zé voltou para o condomínio e procurou o patrão de longas datas. O síndico, velho amigo, lamentou o ocorrido e mandou que o homem procurasse seus direitos na justiça.

Zé sentiu um troço quente na nuca e o peso de mil caixas sobre os ombros arqueados. Correu para o seu antigo cafofo no porão úmido do prédio porque homem que é homem chora, desde que sozinho e no escuro para que nem ele mesmo veja. Agarrou-se ao colchão e sentiu sob a cama o cabo da peixeira aposentada. Qual a última vez que precisou usá-la? A ferrugem ajudava a contar o tempo e a lembrar das brigas, bebedeiras e desatinos da solteirice. Ainda saberia usá-la com a mesma destreza com que cortara cana na infância?

Foram quarenta peixeiradas, uma para cada ano de trabalho. Deu-se por satisfeito. Limpou o instrumento, arrumou os panos de bunda e sumiu.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

À esquerda ou à direita?


- Mô, estamos próximos. Olha a placa do Queijão alí.

- Já é a terceira placa de queijo na estrada.

- Então. É isso que está no mapa: entrar na 3ª placa depois do Queijão.

- À esquerda ou à direita?

- Mas que mania, Marcelo, de complicar tudo! De que lado está a placa? Não é à esquerda? Então entra à esquerda, né?

- Sueli, não tô vendo nem estrada...

- Pronto. Lá vem você de novo. É por isso que a gente precisa rever a nossa relação. Você não leva a sério nada do que eu falo. Confiança zero. Trata-me como se eu fosse uma idiota.

- Ok. Entrando à esquerda.

- Não adianta disfarçar e mudar de assunto. Sei que você só concordou em entrar à esquerda porque eu questionei a falta de diálogo no nosso casamento. Pensa que eu não percebi quando, mesmo eu lendo o mapa, você com olho comprido, conferindo tudo, duvidando da minha capacidade? Minha mãe sempre disse que você não era um homem confiável...

- Eu?

- E cheio de meias palavras. É um tal de futebol com os amigos prá lá, hora-extra prá cá, atrasos inexplicáveis...E quer saber mais? Eu não preciso passar por toda essa humilhação. Sou uma mulher independente, capaz, bonita e gostosa, viu? Muito gostosa se você não sabe ou esqueceu. Saiba que ouço isso quase todo dia na rua, no escritório e até no supermercado.

- Estrada ruim, não é querida? Vai acabar com os amortecedores do carro. Meu bem, olha esse mapa de novo.

- Viu? Nem ouve o que eu estou falando. Só se preocupa com essa lata velha. Já entendi tudo. Se é assim que você quer está decidido. Eu fico com o apartamento e você com o carro e com a casa de praia que eu nunca quis essas porcarias que só dão despesas. Bem, foi bom enquanto durou. Não vamos fazer cena. Melhor resolver tudo amigavelmente, mantendo o respeito mútuo, para não traumatizar as crianças. O cachorro fica comigo, é meu companheiro fiel como você nunca foi, seu galinha. Aquela tartaruga nojenta que você ganhou numa rifa de bar pode levar contigo. Já vai tarde. As crianças ficam comigo, lógico, você não saberia o que fazer com eles. Não sabe nem em que série estão na escola. Pai desalmado.

- Mô, desculpe interromper sua partilha, mas chegamos numa pedreira abandonada com uns caras esquisitos e armados. É aqui o churrasco da sua empresa, q.u.e.r.i.d.a?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Reciclando o futuro deste país


- Compro alumínio, compro metal, panela velha, máquina de lavar velha, micro-ondas velho, ferro de...

- Aqui, moço!

- Tem o que prá gente aí dona?

- Um computador slim com processador 2.2 GHz + 2 GB de memória DDR2 800 MHz + disco rígido de 160 GB + monitor 17 polegadas + teclado + mouse sem fio.

- Sei... O resultado dessa soma toda que a senhora fez aí é igual a vinte pratas.

- O quê? R$ 20,00? Só isso?

- Funciona?

- Claro que não. Mas pode ser consertado. É que comprei um novo e não tenho espaço para este.

- Hum... Vinte e cinco e não se fala mais nisso.

- Absurdo! Tem um monte de peças novas aí dentro.

- Então a senhora sai pela rua anunciando suas peças novas.

- Nada feito. Prefiro doar para quem precisa a aceitar ser extorquida.

- A senhora é quem sabe...Compro alumínio, compro metal...

Revoltada, colocou o computador num carrinho de feira e doou para a primeira escola pública que encontrou no caminho aos cuidados do porteiro. Pensou orgulhosa que, com certeza, a escola tem oficina de informática e aproveitaria o equipamento importante para a formação da futura intelectualidade brasileira. Quem sabe através do velho teclado surja um grande escritor ou um cientista renomado?

Meia hora depois o porteiro vendeu o computador para o mesmo carro do ferro-velho pela melhor oferta: R$ 10,00. Cerveja do dia garantida.