terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Música de elevador

     
       Feliz Ano Novo com a saga de Maria do Rosário. Escrevi este conto para os que continuam na luta.





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         Arrumou a trouxa envolta em três sacos pretos de lixo. Equilibrou na cabeça e partiu. Precisava chegar à estação de trem antes que a tempestade desenhada no céu virasse realidade na Terra. Acelerou o passo. Acuda minha Santa Edwiges, valei-me nesta hora. Os petardos de água batiam descompassados no plástico fazendo plim-plong, plim-plong. A rua encheu mais rápido do que as pernas alcançavam. Um pé de água deu-lhe uma rasteira. Enfiou os braços entre os cordões da trouxa antes de cair na corrente. Perdeu os chinelos, fechou os olhos e deixou o corpo ser levado. Lembrou-se do caixote que levou ainda menina na praia de Copacabana. Era só esperar a onda estourar na praia, ajeitar o biquíni, tirar a areia dos fundilhos e pronto. Você não está na praia, sua besta. Está sendo arrastada para uma vala qualquer cheia de lama e lixo. Valei-me minha Santa, agora!
        A prece ouvida encalhou numa curva de entulho. Pega a corda, tia! Pega a corda! Tentou alcançar o laço com uma das mãos para não soltar a trouxa. Não conseguiu. Colocou a trouxa entre as pernas e lançou-se para sua última cruzada. Passou o laço no corpo, voltou a abraçar a trouxa e gritou para puxar. No caminho algo duro rasgou-lhe a perna do quadril ao joelho. Na margem beijou seus salvadores, pediu para Deus protege-los  e deixou-se levar para o hospital de Bonsucesso. O braço enrugado segurando a trouxa sobre a barriga. Enfaixaram a perna, tiraram pressão, escutaram o peito, perguntaram seu nome, que dia é hoje e o endereço de casa. Maria do Rosário Oliveira das Neves, Rua Tucurupimbá, número 21. Hoje é quarta-feira, dia de entregar a roupa da Dona Célia. Boa tia! A senhora vai ficar bem logo-logo. Chegamos. O rapaz dos bombeiros arrumou meus cabelos com o indicador e com uma piscadela charmosa sumiu pelo corredor. Fiquei ali vendo o ir e vir do hospital. Nunca fui mulher de pedir favor ou ficar reclamando atenção. Sou muito forte, tenho genética boa. Não dou asas para a dor. Aguento. Mando minha cabeça não dr atenção para frescura. Funciona. De uma fresta vi o sol subir para o meio-dia secar as ruas. Pensou no terninho da patroa e nas camisas sociais do patrão. Deus queira que os plásticos tenham resistido. Vou chegar atrasada. Com sorte chego sem ninguém ver pela entrada de serviço, tomo um banho e já começo a passar a roupa como se nada tivesse acontecido.
            Maria do Rosário! Maria do Rosário! Sou eu, aqui, aqui em baixo da trouxa. Costuraram a perna, deram injeção e mandaram embora. O trem, o metrô, o ônibus, tudo funcionando, uma benção. Chegou na Barra às três da tarde. Nunca soube o porquê daquela mulher tão fina não ter uma máquina de lavar. Dizia que não gostava do barulho. Vai entender? Cobro mais, é claro. Quando entrei a madame estava no quarto fechado. A cozinheira diz que ela tem enxaqueca e nas crises toma uns florais e não dá as caras. Sorte. Fui direto para o banheirinho arrastando a perna. Tomei banho perneta, lavei e sequei a trouxa. Perfeito. A perna latejava, mas o ferro quente soltava um calor tranquilo. Passou as golas primeiro, depois o meio e as laterais com cuidado para não estragar os botões. Arrumou tudo no quarto de roupas.
            Penteou os cabelos com creme, passou batom e dispensou o rímel. Gostou do que viu no espelho. Sorriu conivente. Pegou o dinheiro separado para ela sobre a mesa da cozinha e se dirigiu para a porta. Sentiu uma cutucada no ombro. Dona Célia acordara com a cara simpaticamente inchada besuntada de creme de cheiro estranho. Era uma boa moça, sem noção, mas uma boa moça.
- Nossa, Rosê, você está um caco, heim?
- Estou sim, Dona Célia.
- Chegando tarde, saindo cedo, que farra, heim? Tira essa preguiça do corpo e vai à luta, menina!
- Sim senhora.
            O elevador cantava baixinho uma música de elevador. Rosário já conhecia e assobiou pensando nos planos para o Ano Novo.


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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

  Estou assinando uma nova coluna no site 


       A crônica inaugural é a festejada "Oásis de Natal". Toda quinzena estarei publicando uma  crônica ou conto inéditos. Aguarde a de fim de ano na próxima quinzena. 

      Abraços,

sábado, 9 de novembro de 2013

Impressões de amor e dor em Maceió.


A pichação no muro em Cruz das Almas anuncia: “Não seja tolo de acreditar em alguém que não pode nem transformar sua própria vida” enquanto potoqueiros agem impunemente.
Sombra de barraca de palha, vento na cara, mar morno brilhando todas as cores dos meus humores em verde, azul, branco, amarelo e... preto. Preto? Arrastando sargaço com os pés estanco. Pecado, penso pulando a língua negra tingindo o mar da Ponta Verde. Pinceladas de cinza matinal.
Macaxeira, tapioca, manteiga de garrafa, maxixe, quiabo, boneca de vestido de chita, amendoim cozinhado, queijo coalho, sururu de capote, agulha branca, família farta e amorosa, amigos íntimos para a eternidade. Ensopado de massunim, taioba no shoyo com velhos amigos, picolé de amendoim Caicó, paçoca, bolo de milho, canjica, mingau de aveia e inhame feito pelo próprio pai, céu estrelado, Vênus ou a estrela Dalva balançando no coqueiro? Porteira escancarada, mar que come terra, fumaça, cães fiéis e café coado na confidência das amigas. Cerveja e lua cheia botando o papo em dia. Camarão no bafo. Pegar jacaré e jogar frescobol em Guaxuma, nascer do sol em Cruz das Almas. Casquinha de siri, chopes mais chopes, amor ou DNA?
Feijão de corda, carne-de-sol, farofa de farinha d’água, papo cabeça, existencial, sexual, grandes amores, tragédias e superações. Perdas e reparações. Família, literatura, música, cinema, trabalho e muito ócio. Artesanato, culinária, pedagogia, administração, política, psicologia, arquitetura, medicina, engenharia e direito, muito direito. O irmão encantado. A mãe que segue, a neta que surge.
Pitomba, carambola, mangaba, cajá, umbu, cará assado na fava, primos presos no estacionamento. Primas loiras, morenas, tímidas, despachadas, intelectuais, primos sérios, brincalhões, primos e primas aos borbotões. Tios e tias visitados outros desencontrados. Passado amaciado pelo presente apaziguador. Beijos e abraços no corredor.
E vem aquela chuva de mãe. Só para lavar as ruas, aguar as plantas e refrescar a dormida.
Carona aeroporto, carona para a praia, carona para todos os lados, todo mundo aqui tem carro e três celulares? Todo mundo frequenta os melhores restaurantes e vestem as melhores roupas?  Novas estradas, novos shopping centers, novos viadutos. A minha cidade se transformou? É o éden? Onde estão os pescadores, os catadores de mariscos, as rendeiras, costureiras, os operários que constroem essa nova cidade, que limpam essas grandes casas? É preciso andar de ônibus, ver os bairros periféricos fora da orla turística. Ver as pessoas que lutam sem armas para sobreviver. Sentir a lagoa Mundaú morta e soterrada aos pés de seu povo miserável mendigando sem poder retirar seu sustento do berço poluído. Onde usar o puçá? Dignidade enlameada em valas e mais valas fétidas jardinando as casas molambentas. Crianças barrigudas brincam entre os destroços de uma guerra perdida. Grotas escondidas abrigam favelas invertidas onde o mais pobre está no fundo da grota úmida e escura. Jovens com gastos uniformes escolares catam comida no lixo enquanto prostitutas mirins rasgam a infância recostada na grade da linha férrea. Bocas desdentadas de idosas abandonadas anunciam a lata enferrujada de massunim despinicado por mãos riscadas de cicatrizes e tortas de artrite. Bêbados de cachaça-de-cabeça vagam conversando com suas chagas e desgraças.
É dia de finados. Coroas de flores plásticas traduzem aos berros tanta beleza e dor.


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Bienal Internacional do Livro em Maceió

          Estarei na Bienal Internacional do Livro de Maceió no dia 30/10/13, das 19 às 22 horas autografando meus livros DEU VACA e PIPOCAS NO ASFALTO na "Praça de autógrafos". Será um momento muito especial para mim, já que não piso na minha terrinha há 12 anos e a secura é grande.
Clique no link para ver o convite oficial:







quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Pequenos detalhes em grandes momentos



    
     Trabalhando oito horas por dia e estudando à noite Mônica, viúva de marido vivo, só tinha a madrugada para ver os cadernos dos filhos, fazer seus trabalhos de faculdade e administrar o lar através de bilhetes autocolantes espalhados pela casa, na geladeira “Vitamina do Pedro às 15 horas.”, no vidro da janela do banheiro “Também gosto de banho.”, no fogão “Não fazer fritura para não empestear a casa nem nossos corações.”, no computador de Mila “Filha, só uma hora de internet por dia.”, no fundo da caixa de brinquedos do caçula Pedro “Filho, se está lendo este bilhete é porque os brinquedos estão espalhados por aí. Arrume.”,  e assim por diante.

Durante o dia a luta continuava pelo celular: Como assim o gato sumiu? Procurou no armário? Embaixo da cama? Já? Você deixou o forno aberto? Então olha lá. Achou? Ótimo. Mais alguma coisa, Albertina? Pedro não comeu brócolis? Negocia com beterraba. Não dá porque o fogão não está funcionando e acabaram os fósforos? Mas para tudo, fósforos para que se o fogão é de acendimento automático? Não me diga que você está fumando dentro de casa? É para a vela... Que vela pelo amor de Deus? Está faltando luz? Falou com o síndico e é só no nosso apartamento? Ai. Você pagou aquela conta que eu deixei contigo semana passada? Aquela era do gás? Tem certeza. Tá, tá, deixa que eu resolvo isso. O que fazer com a geladeira? O que a geladeira tem a ver com isso, Albertina? Saiu fumaça dela quando faltou luz ou faltou luz quando ela fumou? Faz diferença sim. E agora? Está fechada. Tudo bem, agora só quero saber se ainda sai fumaça. Não porque os bombeiros apagaram. Ah bom... O quê? Você abriu a porta para estranhos? Não me diga... Então eles arrombaram. Meu Deus... E as crianças como estão as crianças? Você não está ferida? Ainda bem. Fica calma, não foi culpa sua, o importante é que ninguém se feriu. O Pedro está bem e a Mila saiu... Saiu para onde? No vizinho usar a internet? Que vizinho? Você não sabe? Por que você não sabe? Lógico, ela não disse e você não perguntou. Era para perguntar? Não, claro que não, Albertina. Uma menina de onze anos sair para um vizinho desconhecido é a coisa mais natural do mundo. Por favor, chama o Pedro que eu quero falar com ele. Não pode atender por quê? Está com os bombeiros? Foi conhecer o carro grande vermelho? E você, Albertina, está fazendo o quê? Procurando fósforos. Faz sentido. Se o gato não tivesse sumido você teria me ligado, Albertina? Não iria me incomodar com besteira, sabe que eu não gosto. Está tudo bem Albertina, fez muito bem, fez muito bem. Calma, agora ouve. Esquece os fósforos, a geladeira e a vela.  Esqueceu? Tudinho? Muito bom. Agora vai procurar o Pedro e a Mila que eu estou levando para casa um eletricista e quero encontrar vocês três sentados no sofá. Ok? Então, tá. Beijo.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

DE DENTRO do túnel do tempo

          Nossa, nem me lembrava mais disso! Muito legal. Meu pai achou esse recorte de jornal no túnel do tempo.
      Na verdade eu fiquei em 1º lugar no concurso porque o 1º colocado foi desclassificado posteriormente por concorrer com a tradução de um poeta francês. Nessa época eu era simpatizante da UBES, que já lutava pelo passe livre estudantil, contra o machismo e a ditadura militar. 
       Eu era de um idealismo inocente que hoje me faz falta; mas mantenho a essência. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Entre o trem e a onda


            O trem para na Central. A maré leva a onda para a plataforma enquanto o refluxo insiste. Água embarca, espuma desembarca. No meio Carlos, estática ante o redemoinho; fecha os olhos. Fura a onda sentindo a lambida do mar pelo corpo. A água está clara até os pés, fria de dar quase ar. Os poros, acupuntura. A braçada flutua de olho no horizonte, oscila para cima e para baixo. Lá adiante a onda sobe volumosa como bolo no forno correndo em sua direção. Carlos sente a puxada nas pernas anunciando recuo perfeito. Perfeito, nunca antes. Com os remos das palmas nada e nada e nada, nada a mais em direção a costa. Sentindo-se no meio, entre a crista e o Éden, perpendicula o corpo em prancha e, com o braço direito roto, quilha.  Enquanto o véu de mar o abraça, Carlos recebe os tons pastéis dos despedidos do dia, já quase nanquim borrado. A nuvem salgada domina norte-sul-leste-oeste. Breca e mergulha quase rente a si mesmo. Emerge com um movimento enxague. Gargalha as estrelas colhidas com os dois braços.

         Estação Madureira. Onda entra, onda sai. Carlos segue o fluxo e, na plataforma, é no mínimo suspeito.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Idas, vindas e o enigma do frango assado




         O frango girava na televisão de cachorro enquanto a fila salivava. Ida ficou na fila mais por licença poética do que por fome. Não se lembrava da última vez que sentira fome de comida. Tinha sim uma indescritível fome de gente, de letras, de sons e cores. Aquele frango pelado, empalado do rabo ao pescoço, lembrava o sofrimento de Cristo e despertava em Ida a maternidade invólucra. Deu dó, vontade de protegê-lo de tanta humilhação diante daquela horda de pecadores. A compaixão despertada num  equívoco, a falta de legenda nas pessoas e o amor imenso traduzido numa elaborada crítica, num lapso de vírgula, numa negação em manifesto de apreço.
         Pensando além, que vida boa daquele frango assado. Sem questões tubulares, sem porquês assombrosos, sem futuro analítico. Apenas o quentinho do berço do inferno imune ao seu redor. Ao redor do espeto rodando, girando e sempre as voltas pro mesmo lugar fodido; feliz.

         Ida encarou o enigma do frango assado com incômoda sobriedade. Naquela pele tostada e arrepiada viu a perenidade do medo e decidiu. Não ficaria mais rodando na padaria alheia com a bunda queimando. A partir daquele dia não haveria mais frangos aprisionados em etéreas vitrines. Ida está viva, não será assada sem luta. 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Cida e a televisão

        Em 2006 meu filho, Ian C Angeli, me intimou a participar, com o conto "Cida e a televisão" do concurso Contos do Rio, do jornal O GLOBO e fiquei entre os 10 finalistas. O tema era "futebol". Graças ao acervo do jornal O Globo pude resgatar essa publicação em 29/07/2006, Caderno Prosa & Verso, página 2:


http://acervo.oglobo.globo.com/busca/?tipoConteudo=pagina&busca=a+marca+de+denser

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Uma luva vermelha em Porto Alegre


Cesário segue pela Rua dos Andradas pensando se o frio encolhe ou desperta os neurônios. Sabe que o ar inóspito empurra para debaixo das cobertas. Haja gana para comer as esquinas, placas e meios-fios gelados “à la minuta”. Anda por calçadões apinhados e vidros estilhaçados de agências bancárias. A noite anterior fora a mais longa dos últimos trinta anos e nunca estivera tão acordada. Chegaria a tempo?

Na beira do Guaíba senta num banquinho improvisado vendo o povo encasacado tomando chimarrão e jogando conversa na correnteza. A garrafa térmica, o pote de erva e a cuia, que nos trópicos seria um trambolho, harmonizam-se perfeitamente entre tantos panos. É um povo bem estranho, sai de casa com sete graus molhando os ossos, todo embrulhado em várias camadas de roupas. Lá pelas tantas, com o sol subindo, vai retirando as cascas aos poucos, feito cebola. Vê-se na rua um monte de gente-varal, com casaco, suéter, cachecol, luva e gorro pendurados nos braços. Ninguém reclama, sabem que quando o sol baixar as cascas serão repostas com prazer.

Come-se muito e por preço justo. Bebe-se “vinho da casa” honesto e as cervejas são especiais. As cachaças, embora não tão adoradas quanto o vinho, são primorosas e o povo, ah, o povo do Rio Grande é belo e se movimenta como um índio europeu. Agilmente elegantes e majestosamente silenciosos. Das conversas, ao ouvido estrangeiro, tem-se a rápida impressão que estão a questionar tudo. Parece que um balaio de interrogações foi despejado nos diálogos e ficaram ali substituindo pontos e vírgulas. Puro charme. Teria chegado a tempo?

Observa uma loirinha de cabelos lambidos destoando da paisagem, andando apressada a surrar a calçada com os saltos da bota. Do varal lotado escorrega uma luva de lã vermelha. Quem usaria luvas vermelhas em sã consciência? Cesário corre a colher aquela chance única antes que outro ousasse. Precisou correr para alcança-la. Toca-lhe o ombro. Ela estanca com um salto para o lado oposto. Os olhos suados tentam processar tamanha insolência. Vendo a luva vermelha na mão de Cesário sorri a cor simultânea. Desce a cortina dos olhos agradecidos. Um pudor longínquo arrasta a mão nua pelo cachecol para cobrir o decote. Dentre seus dois incisivos centrais um gentil espaço deixa escapar a revelação: Aquela mulher fará seu coração vago atracar para sempre entre os pneus molhados do cais. Tomará intermináveis taças de vinho em sua companhia. Deixará que povoe seus sonhos, seu banheiro, seu controle remoto. Baixará a tampa da privada regularmente só para que ela sente sem olhar, corredia, falando o tempo todo, puxando o fio do papel higiênico além do necessário, displicente como seus brincos azuis. Manterá sempre a porta sem tranca interna para que ela entre esbaforida jogando aquele varal de roupa no sofá. No sofá, entre um inverno e outro, faremos nossos planos, contas e filhos. Envelheceremos juntos sentados na praça observando os pássaros voando e cagando. E quando a terra chamar iremos abraçados. Chegou a tempo?

Antes que aterrissasse o amor de sua vida escondera-se nos tons do pôr-do-sol no Gasômetro; um espetáculo a parte, injustamente ninguém aplaude.

Ainda dormente guarda os dedos covardes nos bolsos a procura da chave traíra, a que não pode ser esquecida nunca ou ficará trancado do lado de fora. O bafo quente do corredor conforta enquanto o sino grita o fim do dia. Sente o silêncio como um perfume raro forjado para narinas treinadas.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

POR AGORA



(Fotos Sammy Angeli) 


De tanto ir e vir nas ruas de meio século
Susto já não distinguir cor de grito
Fato de foco
Ato de rede social
Social de indivíduo

De tanto cair e levantar de faixas e anexos
Velam meus anjos exalando bruxos
Jargões devorando a história
Enquanto a fúria apedreja o futuro
A burrice avança rumo aos pilares

De tantos deuses e demônios amontoados
Refastelarem-se em festim patriótico
A frágil linha da liberdade se fortalece nas ruas
Ou, como reprise de filme ruim,

Arrebenta.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Entre abutres





O que a faz chorar mora na eternidade das horas. Que entre pela porta agora, para que a tua essência abutre desabe pela sala e aquele livro que você lhe deu, e não leu, repouse estático sobre os pedaços de ti. Que, antes de questionar qualquer “que”, vislumbre uma fêmea complicando e existência dos olhares e o pôr-do-sol que se consome na estática retina das ondas. Vem e vai, entra e vem e vai; para. Até então não há verdade, só uma mulher planando sobre teus pesadelos. E esta mulher sabe quem você é e de onde veio. Esta mulher gera luz sobre o passado e pedra a humilhação com um sorriso. Suga esse ser que verte líquidos por todas as bocas. A boca do dia soltando sopas de letrinhas ou furiosas maiúsculas, a boca da noite em sopa rubra em prestações mensais, branca de prazer ou de piscina estourada de neném. Pois que mortal é a enxurrada da boca da alma: os olhos molhados fixos em ti. Esse ser deslizante, ora fúria ora além, às vezes fora de hora, trafega entre os abutres com os olhos no céu e as pedras do chão dominadas. Até porque nada tem a explicar; tal qual predadores.

sexta-feira, 3 de maio de 2013


Tenho medo dos poetas e suas odes ao esquecimento
Tenho medo dos intelectuais e suas caras de paisagem
Tenho medo dos gênios e suas reticências
Tenho medo dos saudáveis e seus pulmões rosados
Tenho medo dos certinhos e suas verdades absolutas
Tenho medo do amor imenso e suas mentiras
Tenho medo dos grudentos e seus elogios vazios
Tenho medo dos belos e suas luzes irritantes
Tenho medo do sucesso e suas grades deslumbrantes
Tenho medo da felicidade e suas armadilhas
Tenho medo de você que me suga com seu coração
Não durmo sobre meus neurônios
Tenho medo de que, se eu fechar os olhos, tudo isso me consuma.

(Foto Sammy Angeli)

terça-feira, 23 de abril de 2013

À luz das begônias



O sol matinal formava um cone de luz nos tacos da sala retendo-se nas rodas da cadeira. Olhou os pés vestidos com aquelas meias de listras coloridas. Como chegou ali aquela alegria besta para pés mortos? Pensou.
A beleza refletiu nos seus olhos e levantou a mão esquerda bêbada. Na janela um beija-flor planava sugando o peito da begônia. Creuza! Creuza olha que lindo o beija-flor na begônia que eu plantei naquela primavera! Da boca saiu o som sem o próprio reconhecimento. Ooooh...beiibei...lin...gôgô...mavééé...Ahhh!
- Dona Lina, para de gritar. Os vizinhos vão reclamar.
- Ai...a....lí!!!
- Assim não dá. Vai acabar caindo da cadeira de novo.
- Bei..bei....óóó...
- Minha bonequinha está muito agitada hoje. Vou te dar um calmante para descansar. Abre a boquinha, toma, vai.
- Nãnã....naa...ohhh...didi...otááá!
- Para de me xingar, Dona Lina, coisa feia. Vou ter de enfiar na força. Assim. Ai! A senhora me mordeu, está ficando além de torta gagá? Não quer tomar o remédio? Hein? Hein?
- Arai...!
- O beliscão é só para aprender a se comportar. Para de balançar essa mão ou vai passar o domingo amarrada de novo. Lembra a bronca que seu filho deu quando a senhora derrubou a sopa em cima da roupa dele? Ele ficou muito chateado e avisou que não vem hoje. Não chora não Dona Lina, mas que besteira... vou tirar a senhora dessa janela deprimente. Dona Lina, que sorte! Está passando aquele filme que a senhora adora “Margaridas da Prússia”.
De costas para a janela diante da tevê, viu o reflexo do que nunca tinha visto antes naqueles conhecidos campos de girassóis da Rússia: um beija-flor colorido esbaldava-se no paraíso preto-e-branco. 

terça-feira, 16 de abril de 2013

O americano do 1401



(Foto Sammy Angeli)
         Nos corredores comenta-se a boca nervosa que o americano do 1401 foi fuzileiro boina verde, daqueles que descascam abacaxi no dente, bebe água de goteira e estanca ferida só no bafo. De poucas palavras, olhar de computação gráfica, movimentos de Matrix, áurea de Blade Runner e pele de pêssego passado cobrindo músculos atracados a ossos longos. A boca em régua nunca enverga. Embora de fala mansa, seu “bom dia” arrepia os intestinos do mais bravo dos homens. Duas pedras azuis de anel de chiclete, fincadas na cara por um dedo ogro, avisam que não veio para tomar caldinho de feijão no boteco da esquina.
         Seu apartamento não emite som algum. Nem uma tevê, rádio, sequer um singelo micro-ondas tão importante para um homem solitário. Recebe entregas neandertais de pizza, uísque e água mineral com gás. Mesmo no tórrido verão brasileiro não tira o surrado blusão de militar. Suspeitam, juram até, de um estranho volume nas costas escondendo uma submetralhadora ou até uma bazuca. Coisa dos esteites.
         Quando tiros atravessaram o sol da manhã de domingo encontraram árvores, calçadas e corações ainda amaciados pelo torpor das cores imberbes. Enquanto alvos urravam a imbecilidade das vítimas, a síndica ligou para a polícia informando que o americano do 1401 estava fazendo tiro ao alvo no povo na praça da janela do prédio. Vários corpos jaziam no solo.
         Enquanto a polícia arrombava a porta do americano do 1401, os tiros do franco atirador farejavam uma perna desavisada detrás da árvore, um braço fino agarrado num esqueite, uma orelha curiosa agarrada na pilastra. Não se perdia uma bala. O sangue marcava seu território indelével.
         Quando entraram no apartamento encontraram um aquário enorme no meio da sala. Peixinhos coloridos desfilavam para um gato gordo e sonolento encrustado no sofá. Na mesa de centro jasmins guardavam segredos e no chão, nada, absolutamente nada.
Ouviu-se um grito enganchado de CD pirata, em seguida o som oco das coisas definitivas. Coisa de um ato só. Galho quebrando, disjuntor desarmando, topada ou amor acabando logo acima do apartamento. Correu-se aos métodos um andar. A porta já estava entregue.  No peitoril da janela um jovem franzino exibia o pescoço em ângulo de 90°. Pendurado no braço direito um fuzil automático com mira telescópica de filme de sessão da tarde. Ao seu lado, sentado no chão, o americano do 1401 observava as nuvens indomáveis. Nunca entendera aquele povo, tão veloz, tão colorido, tão barulhento, tão puro, tão lindo, tão estridente, tão violento, no entanto tão previsível; como as nuvens. 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Ainda Alagoas


Gaivotas na termal. Não pairo culpa. Até por que nada vejo. Evaporo entre uma nota e outra antes dos tons pastéis do céu nascer, antes do eu acordar sibila o som que tudo promete. Há de acordar algo antes da fatura, antes do cartão de crédito, antes de eu conseguir de meio olho escanear o ganho e a perda. De passagem, te foder.  Antes, antes, antes; depois, só dívida na quina da mesa. Do ontem, dos teus aqui, quisera amanhã um clique da paisagem. Eu não vejo culpa, só a bílis carente beijando pés. Não beijo pés. Nunca. Cravo meu petardo, rasgo o futuro com a inocência dos bravos, com o regurgitar dos fetos; com o ódio dos babacas mato o herói. Que me trucidem de urbanidade. Nada temo; tenho CO2 brotando dos poros e o zumbido dos insanos alimentando a carótida. Venci. Que caiam nuvens, que caia a conexão, que caiam maracujás e cajus na areia branca de Alagoas enquanto o mar lambe, goza e descansa a minha febre. Porque ninguém é o que pensa.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Esporro



Não faça ouvido moco, moleque, com esse buraco da maldade. Não te criei ouvindo canário para vomitar urubu depois de tirar os cueiros. Vou cuspir no chão e, antes de secar, quero tua cara de cagão aqui. Não adianta dar chilique nem botar tromba que eu não tenho medo de murrinha. Se apanhar na rua de novo dos maloqueiros carunchos e borrar o pino da caçoleta saiba que o cinto vai cantar na carcunda até fazer caminho de lacraia. O quê? Fala direito estrupício! Come como são e fala como doente. Parece que tem miolo mole. Como é que é? Vai retrucar empinando as ventas? Tua mãe não te deu educação? Tinhoso como o cunhado e enxerido como a sogra. Em vez de tratar a roça pra empedrar os braços fica aí de flozô com os livros até o cu da noite gastando candeeiro. Fica assim, xôxo, com vudum de preguiça. Depois me vem com renda de trancoso e não quer levar esporro. Nada de fliquiti e toma temência. Tenho dito. Pede a bença e xispa!
- A bença, meu pai.
- Deus te abençoe, meu filho. Passo de jumento e olho de carcará na estrada, um pé lá e outro cá, viu?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O ano do ovo



         Berta encarou a tradicional lista de ansiedades do novo ano pregada na porta da geladeira:
1.   PARAR DE FUMAR
2.   DETONAR CACARECOS
3.   SER FLEXÍVEL
4.   PERDER CINCO QUILOS
5.    ABANDONAR A INTERNET
6.   NÃO LER MAIS HORÓSCOPO
7.   COLAR TACOS SOLTOS.
O primeiro item há vinte anos bate ponto na lista, conquistou status de líder absoluto dos objetivos.  Cruel e cascudo, humilha Berta todos os anos e sempre volta para tirar onda com a cara dela. Por doze meses exige, cobra, lembra, enche o saco. Não vai mais tolerar toda essa opressão. Está expulso da lista.
O segundo envolve grande operação de administração e logística. Quantas canetas, tesouras, penduricalhos, carregadores de celular, lembrancinhas lindas e inúteis, potes de sorvete, panos de chão, brincos, colares, dicionários, relógios, botões e imãs de geladeira precisamos numa casa? Pensando bem... Todos! Risca logo da lista e não se fala mais nisso.
Berta passou a vida toda sendo chamada de inflexível. Deveria ser mais compreensiva com os racistas, homofóbicos, salvadores de almas, gente sem palavra, malucos de plantão, ladrões, corruptos, estupradores, egoístas, espertos e assassinos; afinal ninguém é irrecuperável e a gente tem de aprender a conviver com a diferença. Não confundir diferença com má índole. Poderia ser menos enjoada com os prolixos, nunca teve paciência com eles. Sente até culpa. Como é? Não vai dar. Tolerância zero para quem só lhe dá zero de retorno. Sai.
Perder cinco quilos devolveria certa dignidade e o direito a voltar a entrar em algumas roupas acanhadas no armário. Dizem, verdade ou gentileza, isso não vem ao caso, que Berta está ótima, mas o espelho discorda. Pensando bem, já faz duas horas de exercício por dia e come sobras de um passarinho. Para perder vai tirar de onde? Vai passar fome? Vai dispensar a cervejinha e o papo mole no bar? Jamais! Pode ir saindo desta lista que não te pertence!
Abandonar a internet poderia economizar tempo, mas para que radicalizar? Vagabundear apenas meia horinha por dia já dá para fofocar, fuçar a vida dos outros, resolver pendências, passar e.mails, ler notícias, fazer pagamentos e pesquisas, encontrar amigos e ainda sobra tempo para relaxar jogando uma partida de mahjong. Objetividade e foco. Risca.
Não ler mais horóscopo. Até hoje Berta não sabe por que todas as manhãs lê as previsões do dia para o seu signo. Ela sabe bem que aquilo é escrito por qualquer pessoa da redação. Se fosse escrito por um astrólogo teria o nome dele. E mesmo assim ela não acredita em previsão por meio algum, sejam búzios, cartas, leitura de mãos ou de nuvens. Até porque o cérebro apaga a informação dois minutos depois de ler. Então por que ler? Porque gosta e pronto. Não tem de justificar nada pra ninguém. O tempo é seu e ela pode desperdiçar como bem entender.
Saiu apressada para fazer compras, voltou para casa e leu atentamente as instruções. Terminado o serviço contemplou sua obra. Tacos, antes tropeçantes e arredios, simetricamente presos e nivelados. Pronto: missões cumpridas. Sentiu-se forte. Para comemorar ovo frito na manteiga com pão francês quente. Bem quente.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Nada ao acaso



         Apressado pela Rua das Laranjeiras devora um joelho de padaria. Pensa ouvir um arfar nas costas. Olha para trás e nada vê. Continua ouvindo e andando e vez em quando olha para trás. Nada. Para no sinal da Rua Pinheiro Machado e sente o contato úmido na canela. Um vira-lata baba seu tênis. Vaza! Grita enojado. O cão para, senta e encara com a língua pendurada. Saco. Vai pra casa, cara, você está me confundindo com outro humano. Olha só: vou atravessar a rua agora. Não vem não, fica aí, é perigoso; você entendeu? O cão atravessa junto. Chegam ao laboratório para pegar resultado de exame. Entra ele, o cão é barrado pelo segurança: xô sarna! Melhor assim. Pega o resultado, rasga o envelope. Uma linha impressa e dois segundos são suficientes para minar seu futuro. Faltam pernas, anoitece, senta gelado na calçada. Pensa nas coisas a fazer, no que jamais faria e, principalmente, no que jamais deveria ter feito. Deita os braços nos joelhos. Chora para o chão. Levanta o rosto para o céu puxando os cabelos. Abre a boca para gritar e para. Você ainda está aqui? O vira-lata arfa e balança o rabo. Vem cá. Implora. O cão deita focinho na perna dele mantendo os olhos fixos no rosto molhado do homem. Valeu, cara, eu estou precisando desse apoio. Você não sabe, mas eu sou um merda. Pra você tudo bem, né? Você é um vira-lata muito legal. Eu gostaria de conhecer gente tão legal quanto você. Sabia que eu sempre quis ter um cachorro? Sei. Sei que você entende. Talvez você possa me ajudar. A partir de agora estou muito só. No começo daremos longos passeios e brincaremos na praia. Você gosta de praia? Eu também. Vou precisar de todo o seu amor, dias muito difíceis virão e vai ser só nós dois e quando a dor aumentar contarei com teu abraço babado, meu fiel amigo, e irei...
         Alguém passa diante deles com sacola de supermercado. O cão levanta e acompanha a sacola arfando sem olhar para trás.