quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Caminhar é preciso e todos os caminhos levam ao mesmo lugar.



                Não por recomendação médica ou almejando perder alguns gramas pelas ruas. Caminhamos por caminhar. Varamos horas por ruas e trilhas da cidade. Subimos comunidades por vielas estreitas escoltados por valentes cães sarnentos, gatos arredios, fios caóticos cruzando nossas cabeças, crianças correndo descalças, soltando pipa na laje, mulheres estendendo roupas no varal, homens unindo tijolos para mais um cômodo. Chapéu Mangueira, Dona Marta, Cantagalo, Vidigal, cheiro de arroz refogado no alho, feijão preto com costela e carne assada na panela. O samba e o funk impulsionados pelo vento, suor e alento na vista da cidade.
                Percorremos recantos de mansões escondidas por muros altos e câmeras de segurança, jardins perfeitos, carros brilhantes com vidros escuros sugados por garagens de portões com pintura nova e nenhuma viva alma nas ruas com cheiro de nada. Pinçados na zona sul, zona norte, zona oeste. Beleza de mega-sena entre o desejo empírico e o repúdio lógico.
                Trilhamos floresta adentro até a Cachoeira dos Primatas, Pedra do Urubu, Pedra da Gávea, Morro da Urca, Paineiras e toda a Floresta da Tijuca a mercê dos nossos passos, suas jaqueiras gigantescas, micos, esquilos, samambaias e aquelas florzinhas coloridas que crescem como mato na beira das trilhas. Grutas e abismos, sombras itinerantes, cheiro de terra e folha, pássaros furtivos e águas lambendo pedras escorregadias.
                Nos dias de preguiça ficamos pelo nosso quintal mesmo acompanhando as gentes múltiplas do Aterro do Flamengo. Bicicletas, muitas bicicletas, próprias e alugadas, carrinhos de bebês estacionados sob a soberba castanheira, areia branca assoviando nos pés, frescobol, vôlei de praia, futebol, basquete, esqueite, tênis, carteado, porrinha e há quem nade nas águas temperadas pelo rio Carioca. Gatos deitados nas pedras pegando sol na barriga, labradores mergulhando no mar para pescar cocos lançados por orgulhosos donos. Atletas profissionais e de fim de semana correm na areia dura, na molhada, na grama, no asfalto e na calçada. Tudo se move, até o solitário leitor ao virar a página ao som das maritacas.
                O segredo da caminhada é diversificar. Nada mais estimulante que bater perna nas ruas do Centro do Rio, concreto e vidro da Avenida Rio Branco, igrejas escuras, pedras portuguesas, Mosteiro de São Bento, lixo e assombro, cores e sons do comércio caótico do Saara, escavações arqueológicas, Gamboa, Pedra do Sal, Beco das Sardinhas, história, arquitetura e luxúria. Mercadão de Madureira e suas lojas de atacado e varejo, venda de carrinhos de pipoca, panelas, barcos de oferenda, objetos de cultos, umbanda, candomblé, santos católicos, evangélicos pregando na rua, bijuterias. CADEG, bolinho de bacalhau, festa portuguesa, flores e vinhos. Mercado São Sebastião, o de São Pedro de Niterói com peixes prateados, dourados e camarões frescos.
                Meu companheiro andarilho, que não se importa de não conseguir diferenciar chinês de coreano, em tudo vê o verde, encontra pitanga no pé entre o muro e o poste, mangueiras majestosas rasgando o teto de um restaurante, diferencia limoeiro de laranjeira, tangerina; sabe se o pé é de limão galego ou siciliano só olhando as folhas. Cheira pé de louro e amassa folha de eucalipto para aromar o bolso. Chama sabiá, quero-quero, mico e outros bichos pelo nome e sobrenome. Eu, com meus instintos e paixões urbanas, sorvo o prazer do asfalto molhado e a sedução exata dos paralelepípedos.
(Esta crônica homenageia o meu companheiro andarilho, rei e escudeiro Sammy Angeli, meio século hoje; interaço!).
                

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um brinde ao medo


 Medo não é um brinde que vem amarrado com um laço de fita no nosso cordão umbilical. Nasce do acaso e vai se criando independente de maiores investimentos. Um acaso inerente à vida e cada um têm o seu. Tem gente que teme a morte e outros em não alcançá-la no tempo certo. Há os que fogem do diabo com o mesmo horror com que fogem da cruz. Há medo de buraco, escuridão, vazio e silêncio convivendo alegremente com o terror da luz da ribalta e das multidões. Tem medo de todo tipo de bicho: gato preto, malhado, gatonet e gatos sedutores; cachorrão, cachorrinho e também das cachorras da noite. Do rato, ouriço, bicho-de-pé, voando ou deitado, barata, formiga, leão da selva e do imposto de renda. Do vírus da gripe, AIDS, ebola, tatu-bola e também de bola nas costas. Há quem se borre todo de urso-panda, beija-flor e banda larga que não conecta. Tem os pânicos hospitalares, urológicos, psicológicos, psicóticos, óticos, robóticos e micóticos. Os mais complexos preferem o medo do além, além-túmulo, além-mar, além da noção: mortos-vivos, fantasmas, espírito ruim, zumbis, a Mula-Sem-Cabeça, o Perna-Cabeluda, Saci-Pererê, vampiro, lobisomem e da operadora de telemarketing.
Os mais céticos temem o semelhante, que tudo pode, pode matar, roubar, torturar, humilhar, estuprar e apaixonar. Conheço quem tema que o telefone toque ou que não toque jamais. Há o terror puro de não levantar ou de derramar o leite antes da fervura. Medo da solidão do silêncio ou sua ausência infinita. Medo da frieza da lagartixa na pele ou de ficar feia como a lagartixa. Medo de carro, moto, bicicleta, velocípede, avião e qualquer veículo, inclusive de comunicação. Medo de rede de pesca, de dormir, rede social e de intrigas. Medo rural de raios e urbano dos raios que nos partam no trabalho ou na encruzilhada, do são e do insano, da doença sã e da saudável insanidade. Medo de andar nas calçadas, da topada, dos bueiros que voam e dos que engolem gente nas tempestades. Medo do vizinho doido, da síndica sádica e da fatura atrasada. Medo de ser traído e horror de ser descoberto em traição. Medo da perda e do ganho, da fé ou de perdê-la entre um medo e outro. Pavor da mentira própria e alheia.
     Eu, em meus melhores dias, temo que todos esses medos nos faltem e nos desamparem nos difíceis momentos de coragem.