quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Queridas latinhas


- Sabe aquele monte de latinhas fedorentas?
- O que tem?
- Estava ocupando muito espaço na estante.
- E?
- É. Vendi.
- Você vendeu a minha coleção de latinhas que junto desde o meu primeiro porre?
- Essa mesma. A estante agora cabe até livro.
- Você enlouqueceu? Não me respeita mais? Jogou toda a minha história no lixo?
- História? Você passou a vida toda de porre; não se lembra de nada mesmo.
- O que você fez com o dinheiro?
- R$25,00? Paguei o salão.
- R$25,00 por 250 latas, dezenas raras e algumas de cervejarias extintas para pagar tinta de cabelo!
- Reciclagem. Palavra de ordem do momento.
- Não posso acreditar, Ester. Todo o nosso amor, carinho, amizade reduzido a R$25,00.
- Menos drama, Abelardo, menos! Foram só umas latas velhas...
- Ester, você não consegue entender, você destruiu tudo que ainda poderia haver entre nós.
- Deixa de besteira homem, sou eu, sua fiel escudeira.
- Não, mulher. Não reconheço mais em ti uma companheira. Estou indo embora traído.
- Não esquece o casaco, está uma aragem fria lá fora.
Saiu batendo a porta e seguiu direto para o bar dividir a cerveja e sua dor com os amigos de fé. Lá pelas tantas, Abelardo se abraçou com uma latinha e foi pela rua desviando de parede, poste e meio-fio. Abriu a porta e encontrou Ester chorosa, arrependida, vestida de camisola de florzinha e bobis nos cabelos. Estava linda com as bochechas rosadas e úmidas. Jogou-se em seus braços sem soltar a latinha. Beijou-lhe a testa enrugada e as mãos ásperas e suspirou:
- Perdão, amor! De que valem essas latas diante de nosso amor?
- Não, não! Você tem razão; eu não tinha o direito...
Abelardo sorriu de olhos fechados e foi deslizando pelo corpo de Ester até desmaiar no tapete. Ester beijou-lhe os cabelos brancos, cobriu-o com um edredom, recolheu a latinha e colocou-a na estante da sala.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Lista de ódios


Quando eu tinha doze anos escrevi minha primeira lista de ódios. Nela incluí a professora de matemática rindo da minha prova e a boazuda da rua implicando com os meus peitos inexistentes. Lá figuravam as discotecas e qualquer coisa que brilhasse, a escola, os amigos (todos inimigos em potencial) e a sindica do prédio. Não poupei nem Deus e nem o Diabo, escrevi tudinho mesmo. Até mesmo calçada com pedras portuguesas porque eu odiava pisar em linhas.
Com o passar do tempo fui atualizando a famigerada lista que crescia a olhos vistos. No auge da adolescência, contabilizava mais de cem ódios, dos quais vinte profundos. Alguns ódios se mantiveram durante anos nas primeiras colocações, como matemática, ditadura militar, chocolate, anel, perfume, esmalte, dobradinha, maquiagem, apito de guarda noturno, carro, gente que grita e gente que não fala nada, mas ri o tempo todo.
Um dia, inspiradíssima, encontrei um novo ódio e escrevi sem pensar:
Odeio odiar.
Aquilo me arrepiou até o pino da caçoleta. Fiquei doente. Mesmo. Tremia de febre e insônia. Como eu poderia continuar minha sina depois de uma revelação dessa? As quatro paredes do quarto foram testemunhas do quanto eu tentei continuar, mas a danada da caneta não conseguia documentar mais nenhum ódio, muito pelo contrário, a facínora começou a riscar os ódios cultivados por duros anos. Sofrimento atroz. Ninguém sabe o quanto é difícil se livrar de ódios tão saudáveis, nutridos e bem apessoados. As lágrimas vertiam formando grandes rodelas azuis no papel manchado; tudo desconstruído.
Na manhã seguinte ao fim, acordei com a caneta na mão onde ficaria para os restos de meus dias escrevendo uma interminável lista de amores.