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Mostrando postagens de Maio, 2008

A fantástica viagem de Darwin pelo banheiro da Myriam

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Entrou no banheiro e logo percebeu o relógio analógico na parede. 20h20min. Olhando para o sanitário percebeu a indefectível balança ao lado. 52 kg. Sentou no vaso e liberou todas aquelas palavras líqüidas acumuladas na reunião. Muita coisa. Fechou os olhos até o fim dos trabalhos. Quando reabriu, viu-se sentada no vaso com os olhos arregalados. Sentiu um pulsar constante na cabeça e, por fim, processou o ocorrido: estava na parede, dentro do relógio: 20h25min... 20h30min. Viu-se levantar, vestir-se novamente e subir na balança. 20h32min. Sentiu a pressão no peito: 51,900kg. Perdera 100g e a identidade. O tempo passava latejando na nuca com o peso das costas. Pesaria sua existência apenas 100g? 20h33min. Como voltar para a reunião sendo uma balança-relógio? Calma, é a cerveja. 20h34min. Feche os olhos e abra a porta do banheiro para tudo voltar ao normal. Ao abrir, o que viu? Ledo engano. 20h35min. Melhor fechar. Impossível fechar. As engrenagens batiam no peito. 20h36min. Números sur…

A lógica no altar

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Maria não acredita em azar ou sorte. Jamais se benzeu diante de igreja ou despacho, nem tão pouco carrega nos ossos fé em Deus ou no Diabo. Os anos forjaram sua personalidade pautada na lógica e na determinação.
Hoje Maria viu a probabilidade de um por cento dar errado acontecer. Falhara nos cálculos, no projeto ou na execução. Talvez estivesse equivocada quanto ao objeto ou ao método inapropriado. Mas a verdade era uma só: fora derrotada e seus últimos cartuchos foram disparados naquele investimento. Sem que ninguém a atrapalhasse, meteu os pés pelas mãos, julgara mal as pessoas, fizera escolhas erradas e só existe um culpado: ela mesma. Não poderia culpar o azar do Diabo e nem pedir sorte a Deus.
Saiu caminhando sem rumo pela rua e viu-se entrando na Igreja da Glória. O silêncio e a escuridão pesavam seus passos. Sentou diante do altar e chorou copiosamente. Chamou baixinho pela mãe e uniu as mãos em suplica. Tremia. Pensou em se ajoelhar, entretanto olhou para os vitrais e nada viu …

Milhos e lírios

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Como era enfermeira, foi fácil escolher a roupa para o Ano Novo. Selecionou a calcinha amarela porque, neste Ano Novo, todos os sonhos seriam palpáveis. Vestiu as pulseiras, anéis, colares e o par de brincos brilhantes. Maquiagem leve, cabelos soltos e saiu, consciente de sua beleza madura, andando em direção à Copacabana. Na rua, comprou um ramo de lírios para a oferenda, um milho cozido a título de última ceia do ano e uma cidra para estourar na virada.
Chegou no grande lençol branco, decorado com milhões de almas, quinze para meia-noite. Tinha tempo. Estendeu a canga de fitas do Nosso Senhor do Bonfim da Bahia, sentou olhando o mar e pensou: Os filhos, já criados, não mais abriam direito a voto em suas vidas. Os amores iam e vinham como as ondas, só molhando. Mas tinha a sua profissão, amor indissolúvel e confiável; plantões arrebatadores e, no final, o cansaço apaziguador.
Levantou a saia bordada com pequenas contas até os joelhos, molhou os pés e pulou três ondinhas. Lançou os lí…

Carvão e Costela

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Dois vira-latas puro sangue, pêlo curto, focinhos e rabos compridos e orelhas de abano. Iguais, só que uma marrom e o outro negro. Freqüentam a praia do Leme diariamente, a partir das sete horas da manhã. Chegam escoltando o Cara da prancha de surf. Entram os três no mar e, enquanto o Cara pega onda, Carvão e Costela fazem a festa. Pegam caixote, criam buracos, correm atrás de marola e pombo, embolam na areia, zapeiam prá lá e prá cá fazendo o que cachorro sabe fazer melhor: ser feliz.

Nesta manhã de verão, Costela parece indisposta para eventos atléticos e prefere ficar deitada na areia acompanhando os movimentos das ondas, do Cara e do Carvão. Após alguns minutos de contemplação, a cadela levanta, acocora-se e solta o que lhe incomoda. Não costuma fazer isso na praia, sabe que não pode, mas foi, visivelmente, uma emergência quase liquida. O Cara nas ondas e Carvão nos buracos nem percebem a aflição de Costela cheirando aquilo sem saber o que fazer.

O Senhorzinho, figura local que co…

Deu vaca

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Minha missão é relatar os fatos. Embora não tenha o lastro jornalístico, carrego a obrigação testemunhal; mais fácil, porém infinitamente mais espinhosa. Não é minha intenção fazer do nobre leitor meu álibe... Até porque, não é do meu feitio. Mas, acredite ou não, eu estava lá, vi tudo com estes olhos com que o fogo há de se deliciar.
Foi numa final de manhã mágica de inverno tupiniquim. O céu tinha aplicado colírio e se oferecia límpido e brilhante. As árvores brisavam gostosas e soltavam confetes de folhas secas. As gentes prosavam sorrindo lentamente e efetuando a fotossíntese nos bancos da praça São Salvador.
Nesse cenário idílico, da esquina do Corpo de Bombeiros, despontou Mimosa rebolando com a delicadeza de um lírio e o passo de uma escada magirus. Como o povo carioca não se assusta atoa, todos notaram, mas ninguém reparou na vaca gorda malhada entrando no fosso do chafariz. Mergulhou espirrando luz molhada para todo lado. A água jorrava da boca de peixes montados por anjos, q…

Oásis de Natal

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Chegou no Saara nove horas da manhã para comprar as lembrancinhas de Natal e os enfeites da árvore. Levava a bolsa de napa marrom grudada no peito. Sabe como é né? Época de grandes esbarrões...Tinha vinte reais, uma lista imensa e muita, mas muita mesmo, fé em sua estratégia financeira. A lista, feita com capricho, foi elaborada observando os desejos mais íntimos, revelados sutilmente pelos entes queridos:
- Este abridor de garrafas tá uma merda!
- Mãe, o Sodex engoliu meu carrinho!
- Tia, vou ser campeão de futebol na seleção brasileira!
- Filha, você viu aquela promoção imperdível de escorredor de arroz?
- Numa abaixada, perdi meu brinco na naite...
E por aí vai, tudo anotadinho na agenda.
Na esperança, começou pelas lojas de um e noventa e nove. Sorte: tudo na promoção de um e noventa e oito.. Só produto de primeira, meideintaiuam.
Difícil foi escolher os brincos, esperimentou mais de vinte, até as orelhas ficarem doídas.
Confere a lista, conta o dinheiro...faltam quatro. Vai dar, …

A chumbada do chefe

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Veio chumbado pela calçada vesga. Tateando poste, parede, guarda-chuva alheio e ombro de velhinha. Deu uma cabeçada no orelhão e rodou no próprio deseixo. Mirou o meio-fio e sentou o pé no vazio. Decolou impávido sobre o osso, o da pélvis.
Bateu e ficou em piripaco galopante de molho numa poça de paralelepípedos afundados. O susto só não foi maior porque não entendeu bem o que se passou, mas constatou um pequeno vazamento quente nas calças. Tranqüilo, já estava todo molhado mesmo. Tem pouca gente olhando. Bora lá cara! Reação, reação! Pôs a gravata na linha do ombro e, cuidadosamente, arrumou a camisa que estava fora das calças para dentro dos bolsos. Desembaralhando os olhos com um firme sacolejo de queixo, esticou o braço até um baixinho gordo parado, providencialmente, na esquina dentro de um macacão vermelho. Sentiu firmeza no cara e se apoiou logo no pescoço. Deve ser bombeiro, usa até capacete. Com a situação sob controle, tateou o celular no bolso do paletó. O falante encharcad…

Uns e Outros

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Outro sentou com as pernas abertas, guardou a ponta da gravata no bolso e pôs-se a devorar um cachorro-quente no banco da praça. Na segunda abocanhada viu Um olhando comprido para o sanduíche. Outro ofereceu. Um sorriu. Outro pediu para Um um x-com-tudo-dentro e uma coca. Um ao lado do outro, com uma mão equilibravam a refeição, com a outra mantinham em segurança seus pertences: Outro, a pasta de couro, Um, o saco de amendoim. Comeram em silêncio. Depois, ficaram ali olhando os pés um do outro e se limpando. Um ofereceu amendoim. Outro aceitou uma prova por simpatia. O gato de rua parou entre Um e Outro e ficou. Embolou oferecendo a barriga, pulou no pé de Um e puxou o cadarço de Outro. Riram. Outro perguntou se Um queria o gato. Um queria, mas não poderia cuidar, pois a mãe não gosta de bicho. No entanto, sabia Um, um dia seria veterinário. Outro falou que, embora gostasse muito de gato, não tinha tempo para cuidar do bichano; viajava muito; morava sozinho. Um se ofereceu para cuidar…

O último baile

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- Bom dia, minha paixão! Hoje faz vinte anos que eu te amo!
- Ah, meu amor, que gracinha... Você lembrou!
- Claro. Como eu poderia esquecer o dia mais importante da minha vida? Hoje vamos sair, dançar e, quem sabe um hotelzinho? Heim? Heim?
- E a gente está podendo?
- Dá-se um jeito. Quero você bem bonita esta noite...
- Pode deixar.
Fez a faxina do dia bem rápido. Tomando o maior cuidado para não quebrar as unhas e nem deixar inhaca de água-sanitária. Chegou ao salão, fez o cabelo e as unhas. Vermelhas. Cor da paixão. Passou no shopping da Uruguaiana e comprou um vestido da cor das unhas e pintou a boca de paixão. Voltou na casa da patroa e terminou de se emperiquitar. Chegou à casa linda, maravilhosa, com o rosto em brasas radiantes... Para encontrar o traste bêbado, todo mijado, esponjado na cama sagrada.
A filha, com dó, chamou a mãe para o baile funk para aproveitar todo aquele empreendimento. Enxugou a raiva que escorria pelo queixo e foi. Ficou lá, deslocada, o peito apertando …

A cidade sobre uma linha tênue

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- Posso sentar aqui?
- Não, senhora.
- Por que não? O lugar está vago!
- Com todo o respeito, a senhora me desculpe, mas a senhora é muito gorda. Vai me imprensar na janela.
- Ora bolas! Eu paguei a passagem igual a você e vou sentar onde eu quiser!
- Então deveria pagar duas...
- Moleque sem educação...
- A senhora perguntou, eu respondi com todo o respeito.
- Eu é que não vou sentar do seu lado. Você está fedendo.
- Eu tomo banho e fico limpo. Já a senhora continua... Gorda!
- Favelado é tudo igual... Nojento!
- Gorda também... Espaçosa!
- Negro fedido!
- Gorda escrota!
- Vou de dar um banho de água sanitária!
- Água sanitária tudo bem. E depois? Vai sentar em cima de mim? Ah! Isso eu não agüento, dona...
- Ah! Isso já foi longe demais! Moleque atrevido! Vou te encher de...
Da frente do coletivo ouve-se o berro tão conhecido:
- Perdeu! Perdeu! Vão abrindo as bolsas e esvaziando os bolsos que hoje eu tô nervoso! Bora! Bora! Não levanta não, se não leva bala!
Os passageiros esqueceram…

Novo endereço

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A Gaveta Verde está de casa nova. Bem vindos ao novo endereço. Em breve, texto festivo de inauguração do novo lar.