sexta-feira, 30 de maio de 2008

A fantástica viagem de Darwin pelo banheiro da Myriam



Entrou no banheiro e logo percebeu o relógio analógico na parede. 20h20min. Olhando para o sanitário percebeu a indefectível balança ao lado. 52 kg. Sentou no vaso e liberou todas aquelas palavras líqüidas acumuladas na reunião. Muita coisa. Fechou os olhos até o fim dos trabalhos. Quando reabriu, viu-se sentada no vaso com os olhos arregalados. Sentiu um pulsar constante na cabeça e, por fim, processou o ocorrido: estava na parede, dentro do relógio: 20h25min... 20h30min. Viu-se levantar, vestir-se novamente e subir na balança. 20h32min. Sentiu a pressão no peito: 51,900kg. Perdera 100g e a identidade. O tempo passava latejando na nuca com o peso das costas. Pesaria sua existência apenas 100g? 20h33min. Como voltar para a reunião sendo uma balança-relógio? Calma, é a cerveja. 20h34min. Feche os olhos e abra a porta do banheiro para tudo voltar ao normal. Ao abrir, o que viu? Ledo engano. 20h35min. Melhor fechar. Impossível fechar. As engrenagens batiam no peito. 20h36min. Números surgiam a cada segundo e apenas números, 20h37min, nenhuma letra, só horas, 20h38min, minutos, segundos, quilos e gramas, 20h...39...40...41...min.
Onde estava com a cabeça quando entrou naquele banheiro? Na bexiga, com certeza, na bexiga. Fora sugado pelo pesado túnel do tempo. Sem palavras, sem letras, preso no interminável cálculo das horas da evolução. É preciso se adaptar ao ritmo e sobreviver.

A lógica no altar



Maria não acredita em azar ou sorte. Jamais se benzeu diante de igreja ou despacho, nem tão pouco carrega nos ossos fé em Deus ou no Diabo. Os anos forjaram sua personalidade pautada na lógica e na determinação.
Hoje Maria viu a probabilidade de um por cento dar errado acontecer. Falhara nos cálculos, no projeto ou na execução. Talvez estivesse equivocada quanto ao objeto ou ao método inapropriado. Mas a verdade era uma só: fora derrotada e seus últimos cartuchos foram disparados naquele investimento. Sem que ninguém a atrapalhasse, meteu os pés pelas mãos, julgara mal as pessoas, fizera escolhas erradas e só existe um culpado: ela mesma. Não poderia culpar o azar do Diabo e nem pedir sorte a Deus.
Saiu caminhando sem rumo pela rua e viu-se entrando na Igreja da Glória. O silêncio e a escuridão pesavam seus passos. Sentou diante do altar e chorou copiosamente. Chamou baixinho pela mãe e uniu as mãos em suplica. Tremia. Pensou em se ajoelhar, entretanto olhou para os vitrais e nada viu além de lindos vidros coloridos. Recobrou a lucidez a tempo de enxugar as lágrimas na barra do vestido.
Sorriu ao se imaginar começando tudo de novo. Virou as costas para o altar e caminhou para a saída sem olhar para trás.

domingo, 25 de maio de 2008

Milhos e lírios




Como era enfermeira, foi fácil escolher a roupa para o Ano Novo. Selecionou a calcinha amarela porque, neste Ano Novo, todos os sonhos seriam palpáveis. Vestiu as pulseiras, anéis, colares e o par de brincos brilhantes. Maquiagem leve, cabelos soltos e saiu, consciente de sua beleza madura, andando em direção à Copacabana. Na rua, comprou um ramo de lírios para a oferenda, um milho cozido a título de última ceia do ano e uma cidra para estourar na virada.
Chegou no grande lençol branco, decorado com milhões de almas, quinze para meia-noite. Tinha tempo. Estendeu a canga de fitas do Nosso Senhor do Bonfim da Bahia, sentou olhando o mar e pensou: Os filhos, já criados, não mais abriam direito a voto em suas vidas. Os amores iam e vinham como as ondas, só molhando. Mas tinha a sua profissão, amor indissolúvel e confiável; plantões arrebatadores e, no final, o cansaço apaziguador.
Levantou a saia bordada com pequenas contas até os joelhos, molhou os pés e pulou três ondinhas. Lançou os lírios com tanta delicadeza que eles voltaram e abraçaram seus tornozelos. Para seu alívio, o repuxo da onda aceitou o presente engolindo tudo num engasgo espumante. Rezou para Nossa Senhora e pediu proteção à Iemanjá, Rainha do Mar. Pediu sorte, saúde e juízo para os filhos e, se sobrasse um pouquinho, para ela também.
Os fogos estouravam e a água salgou-se de luz. Os gringos e os nativos se abraçavam, se beijavam e se melavam todos de champanhe e cidra com a mesma volúpia. Ela ficou ali, rindo sozinha, mas sozinha. Tinha até esquecido de abrir a cidra...
- A rapariga permite que eu abra a garrafa?
Não é ofensa, é português mesmo, legítimo, prestativo, simpático, turista...
- Claro! Por favor moço...
Ele estourou a cidra, deu um gole que escorreu pelo peito. A cidra sorria e os fogos brilhavam nos dentes brancos e enormes dele. Bebi também no gargalo e ganhei um abraço carinhoso, desengonçado, quase infantil.
Os fogos acabaram mas nós ficamos sentados na areia, lado a lado, conversando até o sol se espreguiçar, indolente, no colchão de espumas.
Ano que vem, trarei mais lírios.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Carvão e Costela


Dois vira-latas puro sangue, pêlo curto, focinhos e rabos compridos e orelhas de abano. Iguais, só que uma marrom e o outro negro. Freqüentam a praia do Leme diariamente, a partir das sete horas da manhã. Chegam escoltando o Cara da prancha de surf. Entram os três no mar e, enquanto o Cara pega onda, Carvão e Costela fazem a festa. Pegam caixote, criam buracos, correm atrás de marola e pombo, embolam na areia, zapeiam prá lá e prá cá fazendo o que cachorro sabe fazer melhor: ser feliz.

Nesta manhã de verão, Costela parece indisposta para eventos atléticos e prefere ficar deitada na areia acompanhando os movimentos das ondas, do Cara e do Carvão. Após alguns minutos de contemplação, a cadela levanta, acocora-se e solta o que lhe incomoda. Não costuma fazer isso na praia, sabe que não pode, mas foi, visivelmente, uma emergência quase liquida. O Cara nas ondas e Carvão nos buracos nem percebem a aflição de Costela cheirando aquilo sem saber o que fazer.

O Senhorzinho, figura local que corre diariamente na praia, assiste tudo e vai lá conferir. Zeloso da praia, enterra a prova e encara a criminosa que, agora aliviada, aguarda instruções com os olhos fixos e a língua pendurada. Senhorzinho quebra o dia aplicando o castigo com um único chute no meio do focinho de Costela. A cachorra geme alto ao ser arremessada dois metros adiante. Golfa vermelho e deita lentamente.

Carvão sente tudo e parte em disparada em direção a Senhorzinho que tenta outro golpe. Erra. Carvão crava os dentes no pé assassino e balança a cabeça até que em sua boca deite um pedaço de carne. O Cara, em cima da onda, vê a cena e mergulha, nadando desesperado, em direção à beira. É tarde. O Senhorzinho esguicha do pé um chuveiro tingindo a areia branca. Deitada ao seu lado, tão camuflada de areia e sangue quanto ele, está Costela, imóvel, tossindo. Carvão adota posição de sentido entre uma e outra vítima. Seus olhos negros acompanham os gemidos do velho que não ousa mexer um dedo.
O Cara vem em minha direção, pergunta se tem celular. Tem. Liga para o Corpo de Bombeiros e pede uma ambulância para o velho. Agradece. Corre até as vítimas, joga com os pés areia na cara de Senhorzinho que berra. Pega Costela nos braços, beija suas orelhas e leva-a ao mar para um banho rápido. Carvão acompanha os trabalhos apreensivo. Ciente da pena de morte transitada em julgado imputada a Carvão, o Cara sai do mar correndo com sua amiga no colo em direção à rua com Carvão em seu encalço.

O velho foi recolhido alguns minutos depois pela ambulância dos bombeiros.

A prancha ficou comigo. Nos dias seguintes voltei à praia na esperança de rever o trio e devolver a prancha. Perguntei aos barraqueiros pelo Senhorzinho. Também sumira, depois que perdera o pé. Nunca mais o Leme os viu.

Às vezes, a felicidade se esvai numa única cagada.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Deu vaca


Minha missão é relatar os fatos. Embora não tenha o lastro jornalístico, carrego a obrigação testemunhal; mais fácil, porém infinitamente mais espinhosa. Não é minha intenção fazer do nobre leitor meu álibe... Até porque, não é do meu feitio. Mas, acredite ou não, eu estava lá, vi tudo com estes olhos com que o fogo há de se deliciar.
Foi numa final de manhã mágica de inverno tupiniquim. O céu tinha aplicado colírio e se oferecia límpido e brilhante. As árvores brisavam gostosas e soltavam confetes de folhas secas. As gentes prosavam sorrindo lentamente e efetuando a fotossíntese nos bancos da praça São Salvador.
Nesse cenário idílico, da esquina do Corpo de Bombeiros, despontou Mimosa rebolando com a delicadeza de um lírio e o passo de uma escada magirus. Como o povo carioca não se assusta atoa, todos notaram, mas ninguém reparou na vaca gorda malhada entrando no fosso do chafariz. Mergulhou espirrando luz molhada para todo lado. A água jorrava da boca de peixes montados por anjos, que vinha derramada do alforje despejado pela grande mãe da fonte. É uma terra de novidades e, todos sabem, até uma vaca tem o direito de passear na praça sem ser incomodada. A praça é do povo.
Mimosa, com movimentos de ninfa, imergiu suas manchas pretas sem levantar borbulha. Ergueu o focinho molhado, fechou os olhos e recebeu o sol morno no rosto. A cada pinguinho, mexia as orelhas exultantes. O prazer foi tamanho, que Mimosa mugiu alto em êxtase profundamente externado. Em dez minutos o chafariz da praça foi cercado por dispostos bombeiros uniformizados e uma dezena de moradores eufóricos. Uma figura raquítica de um metro e meio ameaçou: Ninguém toca na ruminante! Deixa comigo que eu sou veterinário! Algumas testemunhas juram que viram uma grande capa branca esvoaçante nas costas do doutor, provavelmente confeccionada para um viking visto que arrastava pelo chão.
O profissional serelepe tratou logo de examinar as orelhas, as tetas e o linguão da bichana que, interativa, acompanhava impávida os movimentos do doutor com os olhos; sem, entretanto, mover seu corpo relaxado de dentro de sua nova banheira. Concluído o exame, constatado que Mimosa não estava ferida e nem de longe doente, os bombeiros passaram uma corda em volta de seu pescoço e se prepararam para executar um comprido cabo de guerra. Revolta geral, os praçantes reagiram em coro: “Solta! Solta! Solta!”. Na pressão, largaram simultaneamente a corda com a chegada da primeira equipe de TV.
A tarde já se enroscava dentro dos estômagos. Foi quando uma das velhinhas praticantes do matinal Tai Chi Chuam, ainda unifornizada, pois não arredara pé do lado do chafariz até então, resolveu providenciar o almoço de Mimosa. Foi até o mercado do outro lado da rua e conseguiu, a título de doação à nova mascote do bairro, três lindos buquês de hortaliças. Mimosa aceitou de bom grado e teve sua leve refeição acompanhada, ao vivo, por milhões de cariocas.
A praça estava uma zona. Fora os curiosos e os bombeiros, tinha pipoqueiro, ambulância, van de cachorro-quente, barzinho improvisado com latinhas geladas, churrasquinho e queijo na brasa e dezenas de especialistas coçando o queixo e analisando a nova habitante do chafariz. Não demorou a se formar uma roda de samba e, no boca-a-boca, se espalhou a notícia da festa da vaca. Imperdível. Quando a noite chegou na praça lotada, encontrou Mimosa cochilando, indiferente ao fusuê, com a cabeça recostada na borda da banheira.
Talvez por sua herança histórica de vida política intensa, ou quem sabe por porra-louquice mesmo, o povo carioca tem a vocação ímpar para causas tão imbatíveis quanto indefensáveis. Paralelo ao samba, mesas diretoras foram instaladas, emolduradas por faixas com palavras de ordem: “A Vaca é nossa!”, “Banho livre para todos!”, “Vaca livre jamais será vencida!”. A lista de apoio à causa já ostentava mais de trezentas assinaturas e a fila continuava crescendo. Autoridades davam entrevistas cautelosas, afinal, não tinha como retirar a celebridade do chafariz sem perder uma penca considerável de eleitores.
Quando o evento já tomava proporções internacionais, Mimosa acordou, alongou o pescoço, balançou preguiçosamente o rabo e levantou. O vento estancou, cuícas, cavaquinhos e bandolins calaram, palavras foram engolidas e o silêncio prendeu a respiração. Lentamente, Mimosa saiu com uma pata da banheira. Reação da galera: “Fica! Fica! Fica!”. Pela primeira vez naquele inebriante dia, a vaca levantou a cabeça e observou a multidão. Posso jurar que encontrei em seu rosto o susto de quem tem a porta do banheiro arrombada durante um momento íntimo.
O que ocorreu em seguida foi um assombro jamais relatado nos anais da prosopopéia carioca. Mimosa desembestou pela praça, espalhando e misturando todo tipo de gente com papel, pipoca e cerveja. Corredores móveis se abriam formando uma grande serpente dançante para Mimosa passar. Os holofotes cegaram a vaca e foi preciso distribuir coice para todo lado. Os valentes bombeiros jogaram uma rede e logo Mimosa estava completamente pescada... “Solta! Solta! Solta!”. Mas agora não deu certo. Era agora uma meliante alucinada, tinha de ser contida. Ouviu-se um comentário desdenhoso: “As pessoas deveriam ser mais sensíveis, onde já se viu? Mexer com uma fêmea durante o toalete... até eu ficaria furiosa!”.
Devidamente sedada e com a língua pendurada nos lábios, Mimosa foi içada para dentro do camburão de vacas. Não se sabe ao certo o paradeiro da destemida, mas comentários maldosos foram tecidos quando, na semana seguinte, um grande churrasco dos bombeiros fez a festa da corporação. No entanto, testemunhos controvérsos afirmam vê-la, nas manhãs frescas de julho, banhando-se no chafariz; mas para ver tem de saber olhar fixo para a água em movimento por, pelo menos, meia hora.
Lenda urbana ou fato. A verdade é que em todo sétimo dia de julho, a praça se enche de samba com a saída do Bloco da Vaca Banhada, desfilando diversas matizes da ruminante e arrecadando milhares de latas de leite em pó, doadas para um abrigo infantil.

Oásis de Natal


Chegou no Saara nove horas da manhã para comprar as lembrancinhas de Natal e os enfeites da árvore. Levava a bolsa de napa marrom grudada no peito. Sabe como é né? Época de grandes esbarrões...Tinha vinte reais, uma lista imensa e muita, mas muita mesmo, fé em sua estratégia financeira. A lista, feita com capricho, foi elaborada observando os desejos mais íntimos, revelados sutilmente pelos entes queridos:
- Este abridor de garrafas tá uma merda!
- Mãe, o Sodex engoliu meu carrinho!
- Tia, vou ser campeão de futebol na seleção brasileira!
- Filha, você viu aquela promoção imperdível de escorredor de arroz?
- Numa abaixada, perdi meu brinco na naite...
E por aí vai, tudo anotadinho na agenda.
Na esperança, começou pelas lojas de um e noventa e nove. Sorte: tudo na promoção de um e noventa e oito.. Só produto de primeira, meideintaiuam.
Difícil foi escolher os brincos, esperimentou mais de vinte, até as orelhas ficarem doídas.
Confere a lista, conta o dinheiro...faltam quatro. Vai dar, mas vai ter de rebolar. Quem nunca desejou um descascador de batatas mágico? Pronto, faltam só três. Miltinho sempre acorda atrasado para a aula...Resolvido, despertador azul, que é a cor predileta dele. Ai, ai, ai...só tem cinco reais e ainda faltam dois...E a passagem de volta? Assim, cheia de embrulho? Só tem 3 reais. Cartões de Natal! Não, sacanagem, pega mal prá caramba dar cartão de Natal em pessoa.
Bateu perna da Central à Carioca, da Uruguaiana à praça da República, fez o quadrado mágico várias vezes; só na Alfândega deu quatro estiradas. Já não pensava na lista, só nos três reais.
Deu sede, afinal, estava no Saara. Entrou numa pastelaria e pediu, com uma vergonha danada, um copo de água da pia. O china, embora tentasse, não entendeu nada; mas o naíba do balcão, entendeu rapidinho e pegou uma pet de água geladinha e encheu um copo. Esses nordestinos podem não ter bom humor mas o coração é gigante!
Voltou para a luta. A tarde ia escaldando o ar sem o menor remorso e nada de encontrar as encomendas eleitas. Foi rezando e olhando as bancadas coloridas e, de repente, foi dando uma vertigem, começou a rodar aquele barulho todo, as coisas foram se misturando até virar uma só escuridão. O último pensamento foi: Os pacotes!!!! Antes de desmaiar, se agarrou neles e caiu numa cama de luzes piscantes e cantantes.
Acordou com tapinha na cara e copo de água com açúcar. Procurou, com o coração espremido, os presentes preciosos. E ainda faltam dois...Estava em uma loja de coisas de Carnaval convertida em coisas de Natal: sininho, purpurina, guirlanda, cocar, fantasia de pirata, barba de Papai Noel, saia de bailarina, lantejola, pinheirinho verde decorado, no esmero, com confete e serpentina. Aparou a mão num tonel cheio de máscaras com o firme propósito de levantar. Só então viu o simpático árabe bigodudo segurando seus pertences. Milagre de Natal, nada estava perdido. Pegou os pacotes, agradeceu, pediu desculpas e saiu com a barriga roncando e o rabo entre as pernas.
A água com açúcar bateu um bolão e se sentia a própria Fenix. Tocou mais duas dúzias de pernas até esbarrar num ambulante cheio de brinquedos amarrados nas costas e disparou:
- Tenho três reais, quero dois brinquedos agora!!!!
- A madame é quem manda, pode escolher.
- Ok, ok, senti firmeza em você, garoto. Vou levar a Xuxa de plástico e a AR15 vermelha...Não! Não! Mudei de idéia, levo a Xuxa e o Bob Esponja inflável.
- Só não dá pra embrulhar pra presente, Dona.
- Precisa não, vou fazer em casa uns papéis decorados com revistas...Ops....e fazer bolinhas prá árvore também, que eu já tinha esquecido.
No ônibus de volta, não se continha de feliz ansiedade. Os dentes assistiam, todos na janela, a Presidente Vargas de afastar numa névoa quente. Só de imaginar a festa do povo de casa abrindo os presentes na noite de Natal, dava um fastio danado de bom.

A chumbada do chefe


Veio chumbado pela calçada vesga. Tateando poste, parede, guarda-chuva alheio e ombro de velhinha. Deu uma cabeçada no orelhão e rodou no próprio deseixo. Mirou o meio-fio e sentou o pé no vazio. Decolou impávido sobre o osso, o da pélvis.
Bateu e ficou em piripaco galopante de molho numa poça de paralelepípedos afundados. O susto só não foi maior porque não entendeu bem o que se passou, mas constatou um pequeno vazamento quente nas calças. Tranqüilo, já estava todo molhado mesmo. Tem pouca gente olhando. Bora lá cara! Reação, reação! Pôs a gravata na linha do ombro e, cuidadosamente, arrumou a camisa que estava fora das calças para dentro dos bolsos. Desembaralhando os olhos com um firme sacolejo de queixo, esticou o braço até um baixinho gordo parado, providencialmente, na esquina dentro de um macacão vermelho. Sentiu firmeza no cara e se apoiou logo no pescoço. Deve ser bombeiro, usa até capacete. Com a situação sob controle, tateou o celular no bolso do paletó. O falante encharcado escorregou da mão e sumiu, criou asas. Sei lá, deixa pra lá. Agora que estava legal, resolveu pedir mais umazinha no bar e voltou para conversar com o novo amigo que, tão despojadamente, ajudou-o numa hora crítica. O baixinho, embora extremamente simpático, não era de muita conversa mas, cada um com seu cada um né? O baixinho se revelou um magnífico ouvinte, mantendo-se firme a noite inteira.
Na manhã seguinte, acordou enrugado de frio, com uma mega dor de cabeça, sem os óculos, só de cueca e meias, abraçado com o fiel hidrante.

Uns e Outros


Outro sentou com as pernas abertas, guardou a ponta da gravata no bolso e pôs-se a devorar um cachorro-quente no banco da praça. Na segunda abocanhada viu Um olhando comprido para o sanduíche. Outro ofereceu. Um sorriu. Outro pediu para Um um x-com-tudo-dentro e uma coca. Um ao lado do outro, com uma mão equilibravam a refeição, com a outra mantinham em segurança seus pertences: Outro, a pasta de couro, Um, o saco de amendoim. Comeram em silêncio. Depois, ficaram ali olhando os pés um do outro e se limpando. Um ofereceu amendoim. Outro aceitou uma prova por simpatia. O gato de rua parou entre Um e Outro e ficou. Embolou oferecendo a barriga, pulou no pé de Um e puxou o cadarço de Outro. Riram. Outro perguntou se Um queria o gato. Um queria, mas não poderia cuidar, pois a mãe não gosta de bicho. No entanto, sabia Um, um dia seria veterinário. Outro falou que, embora gostasse muito de gato, não tinha tempo para cuidar do bichano; viajava muito; morava sozinho. Um se ofereceu para cuidar do bicho na casa de Outro. Entendia de ração, caixa-de-areia, corte de unha e limpava tudo muito bem. Fora auxiliar geral numa veterinária, mas ela falira. Foi quando começou a vender amendoim para voltar um dia a estudar. Oitava série. Outro perguntou a Um se aceitaria um salário para cuidar do gato. Mas teria que manter tudo limpo, não vender mais amendoim na noite e continuar estudando para ser veterinário. Afinal, alguém tem de cuidar deste gato.
Um pegou o gato no colo. Outro pagou a conta.
E por causa de uns e outros, o mundo vai ficando melhor.

O último baile


- Bom dia, minha paixão! Hoje faz vinte anos que eu te amo!
- Ah, meu amor, que gracinha... Você lembrou!
- Claro. Como eu poderia esquecer o dia mais importante da minha vida? Hoje vamos sair, dançar e, quem sabe um hotelzinho? Heim? Heim?
- E a gente está podendo?
- Dá-se um jeito. Quero você bem bonita esta noite...
- Pode deixar.
Fez a faxina do dia bem rápido. Tomando o maior cuidado para não quebrar as unhas e nem deixar inhaca de água-sanitária. Chegou ao salão, fez o cabelo e as unhas. Vermelhas. Cor da paixão. Passou no shopping da Uruguaiana e comprou um vestido da cor das unhas e pintou a boca de paixão. Voltou na casa da patroa e terminou de se emperiquitar. Chegou à casa linda, maravilhosa, com o rosto em brasas radiantes... Para encontrar o traste bêbado, todo mijado, esponjado na cama sagrada.
A filha, com dó, chamou a mãe para o baile funk para aproveitar todo aquele empreendimento. Enxugou a raiva que escorria pelo queixo e foi. Ficou lá, deslocada, o peito apertando mais do que o sapato. A vergonha maior do que as unhas e os cabelos presos num lindo coque de desprezo.
Voltou para casa às três horas da madrugada. Mais sóbria do que gostaria e menos do que conhecia, entrou na vila esperançosa de encontrar o traste na porta ansioso, preocupado com sua amada. Mas na mesma posição que o deixou, estava. Tirou a maquiagem e a roupa lentamente. Na ponta dos pés deitou ao lado daquele resto de homem.
Às cinco horas, o resto acordou com cheiro de vômito, passando a mão, querendo coisas. Mandou-o enfiar aquilo numa garrafa e virou para a parede.
Perdeu o gosto de comemorar aquela data. Não sabe por que ainda não deixou aquele homem.

A cidade sobre uma linha tênue


- Posso sentar aqui?
- Não, senhora.
- Por que não? O lugar está vago!
- Com todo o respeito, a senhora me desculpe, mas a senhora é muito gorda. Vai me imprensar na janela.
- Ora bolas! Eu paguei a passagem igual a você e vou sentar onde eu quiser!
- Então deveria pagar duas...
- Moleque sem educação...
- A senhora perguntou, eu respondi com todo o respeito.
- Eu é que não vou sentar do seu lado. Você está fedendo.
- Eu tomo banho e fico limpo. Já a senhora continua... Gorda!
- Favelado é tudo igual... Nojento!
- Gorda também... Espaçosa!
- Negro fedido!
- Gorda escrota!
- Vou de dar um banho de água sanitária!
- Água sanitária tudo bem. E depois? Vai sentar em cima de mim? Ah! Isso eu não agüento, dona...
- Ah! Isso já foi longe demais! Moleque atrevido! Vou te encher de...
Da frente do coletivo ouve-se o berro tão conhecido:
- Perdeu! Perdeu! Vão abrindo as bolsas e esvaziando os bolsos que hoje eu tô nervoso! Bora! Bora! Não levanta não, se não leva bala!
Os passageiros esqueceram-se do neguinho e da gorda e aceleraram os procedimentos obrigatórios de urgência para atender ordem tão claramente estabelecida. A gorda olhou para o neguinho e perguntou:
- O que está acontecendo?
- Ih, dona... Não percebeu? É um assalto. Os caras tão ganhando o ônibus. Senta aqui do meu lado e vê se fica quieta.
- Oh, meu filho, vou colocar minha pensão no seu bolso pros bandidos não levarem.
- No bolso de traz, rapidinho.
- Deus te abençoe, meu filho.
- PASSA! PASSA! E você, moleque? Tá me encarando por quê? Essa camisa do Botafogo eu não gosto. Isso não é time de macho, vou te encher de sopapo!
- Não, moço! Ele está comigo, ele me ajuda, sou uma mulher doente. Tenha dó!
- Tá bom vovó, deixa de mole, por hoje passa! E você, babaca, se eu te ver com essa camisa de novo, não vai adiantar chamar a vovó. E vão passando os troços.
- (...)
- Tia? Eles já foram, pode abrir os olhos. Pega aqui a sua pensão. Flamenguista filho de uma... Deixa prá lá... A tia mandou bem com o cara, valeu.
- Nada... Eu que agradeço. Levaram seu dinheirinho...
- Foi. A sua bolsa também.
- Besteira. Só tinha papel dentro. Toma aqui uns trocados para compensar.
- Vou aceitar por necessidade.
- Está muito apertado aí?
- Só um pouquinho...
- Menino bom. Sua mãe deve ter orgulho de você.
- A senhora também é legal. Desculpe ter chamado a senhora de gorda escrota.
- Mas eu sou gorda. Escrota não, nervosa. Eu é que peço desculpas por ter chamado você de negro fedido.
- Negro eu sou e com muita honra. Fedido não sou, mas estou. Têm três dias que não chega água lá na comunidade.
- Deixa isso prá lá.
- É. Deixa sim.
- Tenho uns docinhos aqui. Vamos comer?

sábado, 17 de maio de 2008

Novo endereço


A Gaveta Verde está de casa nova. Bem vindos ao novo endereço. Em breve, texto festivo de inauguração do novo lar.