terça-feira, 17 de novembro de 2015

Meu primeiro assédio

                 


           O assunto da moda é o primeiro assédio. Antes de entrar neste ponto gostaria de contar como descobri que era diferente dos meninos. Eu tinha dez anos e não lembro o que estava fazendo. Soltando pipa, fazendo cerol, jogando queimado, pique esconde, pique bandeira, pelada, amarelinha? Não sei. Estava descalça e sem camisa, só de short, como todas as crianças que brincavam no asfalto fumegante enquanto não vinha carro. As camisas e chinelas ficavam amontoadas na calçada. Neste dia minha mãe me arrastou pra casa e me informou oficialmente: “Você é uma mocinha e não pode mostrar os peitinhos na rua.” Aleguei a mais pura verdade, que eu tinha peitos iguaizinhos aos dos meninos e que eu brigava com eles de igual também. Até os meus cabelos curtinhos e desgrenhados eram iguais aos deles.   Piorou minha situação, fiquei de castigo meia hora porque lá em casa ninguém nunca apanhou e castigo tinha limite; eu é que não tinha. Vira e mexe “esquecia” da proibição sem sentido, principalmente quando tinha que jogar no time dos sem camisa. Os meninos nunca reclamaram e eu muito menos.
         Um dia eu estava sentada na calçada esperando a vez de entrar no pique e o pai de uma amiguinha, que até então eu frequentava a casa quase diariamente, sentou do meu lado e colocou a mão direita sobre os meus ombros descendo rapidamente até o meu micro peito e apertou. Dei um pulo assustada enquanto ele saía andando apressado e olhando para o chão. 
           Naquele instante mudo algo se quebrou dentro de mim e virei mulher. Mantive segredo e nunca mais tirei minha blusinha em público. A partir daquele dia entendi que teria de lutar muito, por toda minha vida, para brincar de pique com os meninos de igual para igual. E consegui.


Um quilo de tomates (7º lugar no desafio www.entrecontos.com.br)


¾    Glorinha, minha flor, precisa de ajuda aí na cozinha?
¾     Mô, vou fazer aquela macarronada que você adora. Vai lá ao mercado rapidinho e traz um quilo de tomate bem maduro. Um quilo só e tem que ser do débora que é pra molho. Traz também uma garrafa de vinho daquele que só você sabe escolher.
                    Era a deixa que Reboque estava esperando.
¾     Pode deixar, minha flor, volto já!
¾     Olha só, vai pela avenida para não passar pelo boteco do Seu Dodoca. Se eu tiver que sair daqui e te encontrar jogando porrinha com aqueles trastes eu te mato.
¾     Não vou passar nem perto.
                    Reboque chega esbaforido. A mesa para a Grande Final do Campeonato de Porrinha do Boteco do Seu Dodoca já está lotada.
¾     Porra, Reboque, já ia começar sem você!
¾     Só por cima do meu cadáver.  Vou soprar você da mesa rapidinho, Farofa. Bora logo que hoje eu estou possuído. Não tem pra ninguém. Seu Dô, traz logo uma gelada para lavar a serpentina.
¾     Ó, vou servir, mas se a Glorinha aparecer aqui quebrando tudo você paga o prejuízo. Da última vez ela espantou toda a freguesia.
¾    Sabe que eu não me lembro de nada disso?
¾    Claro que não, você saiu daqui rebocado; como sempre.
¾     Deixa de mimimi, homem de Deus, tua freguesia é toda de pinguço que só se espanta com água. Traz logo um tira-gosto de bife detetive acebolado. Com pimenta porque é pra macho. Seu Dô, dá logo a partida. Tô com um pouquinho de pressa.
¾     Na primeira mão não vale “lona”, acertar o “tiro” é ponto duplo, quem perder paga a rodada e vira a cana numa talagada. Tudo mundo ligado, né? Então já!
                    Ali só tinha pato para ele. Nunca perdeu para Farofa, Bola5, Jofre e jamais perderia para o Calçada; o coitado fazia as contas nos dedos então todo mundo via o que ele tinha na mão. Foda é derrubar o Coxinha, exímio blefador, riquinho da cobertura da esquina que frequenta o bar só em dia de porrinha, enche a cara de uísque doze anos com Coca-Cola, fuma cigarro eletrônico e segura os palitos como se fossem cartas de pôquer. A galera reclama que nem pobre na chuva que café, Coca-Cola e energético é doping e devia ser proibido numa roda decente de porrinha. Mas Seu Dodoca é muito rígido com o Estatuto da Porrinha, criado por ele mesmo, e aponta onde a regra é clara: “Art.23º. É obrigatório o consumo de bebida alcoólica em todas as rodadas; Inciso primeiro. É livre o consumo de qualquer outro tipo de bebida ou comida para acompanhar; Parágrafo Único. Toda bebida e comida deve ser adquirida neste estabelecimento e, de preferência, paga ainda no mês corrente. Trazer marmita de casa para tira-gosto e garrafinhas no bolso implicará na desclassificação do concorrente”.  Para alterar o Estatuto só com Assembleia Extraordinária e por unanimidade; vedado o anonimato. E como nunca conseguiram ser unânimes em absolutamente nada, ficou por isso mesmo.
                    Coxinha não perdia uma mão, bateu os adversários calmamente entre um gole de uísque e uma baforada eletrônica. Nem uma palavra e Roboque ali na cola. A peleja pau-a-pau e Reboque cantando de galo. Não perderia a oportunidade de zoar toda a mundiça que vinha sacaneando ele desde a acidental visita de Glorinha no estabelecimento, daí o maldito apelido.
¾     Rá! Comigo é assim, mato no palito. Isso aqui é pra gente grande. Eu sou pica voando! E aí, Coxinha? Tá se borrando todo dentro dessa calça de linho, né? Sei como é, camarada, calma que está quase na hora de você ir se limpar.  
                    Reboque acertou dois “tiros” e mandou bem com uma “lona”. Um a um os competidores foram sendo eliminados. Chegou à última rodada da exaustiva maratona etílica com os números dançando na cachola dos finalistas: Coxinha e Reboque. O adversário manteve a classe de um lorde, mesmo quando perdeu a penúltima mão. Reboque comemorou com um soco na mesa aos gritos:
¾     Que foi? Passaram quetichupe na coxinha? Ah lá, o riquinho ficou vermelho feito tomate. Caraca, os tomates da Glorinha! Sou um defunto posto. Vou ali antes que feche o mercado, um pé lá outro cá, e já volto. Segura a última rodada que é questão de vida ou morte.
¾    Vai logo ou vai perder por W.O.
¾    Tô indo, tô indo...
                    Entra no mercado se segurando nas prateleiras e arrastando os chinelos. Diante da gôndola pensa que nunca tinha percebido como eram altas aquelas prateleiras de garrafas. Achou melhor escolher qualquer uma ao alcance das mãos. Foi para o caixa, errou a senha do cartão duas vezes e na terceira o anjo da guarda resolveu ajudar. Já na calçada:
¾    Caceta, os tomates!
                    Volta para o mercado e se apoia com as duas mãos na bancada de frutas e legumes. Olha pra um, aperta outro, cheira mais um acolá, analisa cada exemplar com muito cuidado. Enche um saco com pouco mais de três quilos e sai orgulhoso sem pagar. O gerente chama de volta e, já sem paciência, Reboque tira uma nota de cem reais do bolso, amassa e coloca na mão do gerente. Agradece e segue para o boteco reclamando sozinho que comida está custando os olhos da cara. Estava até pensando em parar de comer para não ficar cego.
                    De volta ao boteco, já a postos no seu canto do ringue, Reboque pede mais uma para se concentrar. Bebe de uma vez só e encara Coxinha imaginando ele batendo panela na varanda da cobertura. O playboy só na desfaçatez, testa mais fria do que parede de hospital e cruzando as pernas como quem não tem saco. Reboque perde a primeira mão e chuta o pacote no chão sem querer. Ajeita cuidadosamente em cima da mesa e prepara a última mão. Agora é tudo ou nada. Coxinha fechou a mão perto do queixo de Reboque provocando. Levantou a sobrancelha esquerda sorrindo uma gota de veneno no canto da boca e arriscou:
¾    Tudo de seis!
                    Reboque olhou a arquibancada lotando o balcão e resolveu curtir um pouco mais o momento. Fez cara de interrogação, coçou a careca, acariciou o cavanhaque:
¾     Seu Dô, traz uma branquinha pra desanuviar.
¾     Bora, deixa de merda, mostra logo essa mão ou eu não sirvo mais ninguém.
¾     Se a torcida clama eu atendo com o ardor dos campeões, como já era esperado, hoje...
¾    Hoje você morre, seu safado!
                    A tapa na nuca fez Reboque soltar os palitos sobre a mesa e espirrar a cerveja.
¾    Glorinha, você aqui, minha flor?
                    Glorinha pegou a garrafa de vinagre que Reboque havia comprado e despejou na cabeça dele. Rasgou o embrulho com os dentes e foi arremessando os caquis maduros para todo lado.  Campeonato suspenso por motivo de força maior, muito maior. Quem viu jura que não ficou um copo inteiro na birosca.
A final
¾   Abraço de bêbado é vômito, pranto ou curra. Afasta de mim este corpo que não te pertence, Reboque!
¾   Caraca, Farofa, meu amigo de rolimã, pula-carniça e pipa vai amarelar? Agora que tô na merda ninguém joga um resto de amor pro velho amigo.
¾   Também não é assim, porra. Não precisa de discurso boiola comigo. O que tá pegando?
¾   Glorinha jogou minhas roupas num saco preto de lixo, daqueles de condomínio que serve também para cobrir presunto no asfalto, e me expulsou de casa na frente dos meus filhos. Fez a partilha dos bens ali mesmo com os vizinhos assinando como testemunhas:
¾   Fora daqui, safado, que a casa é minha e de meus filhos. Leva tua coleção de copos e garrafas vazias naquela porcaria de carro. Não esquece os troféus e medalhas dos campeonatos de pelada e porrinha envergonhando minha sala.
¾   Assim mesmo, cara, na lata? Isso dói.
¾   Tô dormindo no golzinho. O pessoal do escritório não pode saber. Mas vou ter que vender o meu companheirão para pagar o prejuízo da rodada de baiana da Glorinha domingo. Sou um exilado político do boteco sem direito a defesa.
¾   Por essas e outras que sou solteiro. Bobagem. Dorme lá em casa até baixar a poeira.
        Mas a poeira continuou rondando a vida de Reboque. A quitinete de Farofa fedia a cinzeiro de zumbi cariado e, volta e meia, Reboque tinha que sair às pressas para Farofa receber visitas especiais. Numa dessas chovia muito e Reboque declinou do convite. Farofa já não aguentava mais Reboque fungando, peidando e gemendo no seu sofá:
¾   Minha Glorinha, meus filhos, meu golzinho 1.0, minha porrinha, meu boteco; Deeeeus, eu quero morrer!
        Farofa botou o amigo na rua para que seu objetivo fosse logo alcançado. Amigo é para essas coisas.  Pra quê? Reboque saiu sem olhar para trás deixando um bilhete: “Não consigo arrastar a vergonha que enxertei em minha família honrada e em meus amigos nem tanto. Acabarei com minha incômoda vida sumindo como um peixe selvagem navegando na incompreensão dos fedidos ralos cariocas . Adeus mundo cruelmente amado! Assinado: O último refugo de Reboque”.
        Antes precisava marcar a fogo sua tragédia. Passou na casa de Bola5 e foi direto ao assunto:
¾   Bola5, você ainda faz tatuagem? Preciso fazer uma para a Glorinha agora mesmo.
¾   Tô um pouco enferrujado, meio assim, sei lá. Mas a mão tá firme e sendo questão de Glorinha não se pode arriscar. Vai querer o quê?
¾   Bota aí em cima do coração um tomate cor de sangue com o talo cravado no meu peito escrito: “Glorinha, amor eterno”.
¾   Forte isso, cara. Tira a camisa e morde este guardanapo que não tem pomadinha pra dor. Vai na valentia mesmo.

        Chovia tanto que o asfalto se abraçava com a calçada por baixo de uma onda de lama. Reboque arrastava seu saco de lixo como se fosse um cachorro fiel. Encontrou a porta do Seu Dodoca fechada e concluiu ser o lugar ideal para sua última morada. Deitou no meio fio e deixou as águas torrenciais lamberem seu corpo.
        No lugar mais provável de ser visto, preso com durex na tampa da privada, Farofa encontrou o bilhete do suicida. Pensou profundamente e gritou:
¾   Fodeu!
        Ligou para todo mundo. Farofa, Glorinha, Bola5, Jofre, Coxinha e Calçada rodam procurando Reboque pelo bairro debaixo de chuva. Coxinha dirige seu BMW reclamando que aquele covarde não tiraria o seu título de Campeão da Porrinha 2015 simplesmente morrendo. Passando na porta do bar encontram Seu Dodoca segurando Reboque desfalecido em seu colo. A comitiva segue, atochada no BMW, para o hospital com Coxinha grudado na buzina e no acelerador enquanto Calçada urra pela janela:
_ Uam! Uam! Uam! Sai da frente, poooorra!!

###

¾   Você não tem o direito de fazer isso com a gente. O médico falou que você estava tão chapado que quase morre afogado numa poça.
¾   Juro, minha flor, que a partir de hoje não toco em álcool nem pra desinfetar pereba e muito menos em palito, nem de churrasquinho. Sou um novo homem. E não me chame mais de Reboque.
¾   Deus tá vendo, Reboque. Vou te dar só mais uma chance.
¾   Deus não só está vendo como participando ativamente. Olha a mensagem divina que ele te mandou?
Abre a camisola de hospital e mostra a declaração de amor encravada no peito ainda inchado.
¾   Ai, Reboquinho, que fofo! Não me dá mais um susto destes, viu? As crianças estão com saudades e aquela estante da sala ficou tão vazia sem os seus troféus. Não precisava ter feito um sacrifício destes, sei o quanto você se borra de medo de agulha. Tadinho do meu amor. Tão corajoso.
¾   Tomate madurinho do jeito que você gosta. Todo seu.
¾   Bobo, isto aí no teu peito é um caqui murcho.
¾   Vou matar o Bola5.
¾   Ele está lá fora no corredor com todos os outros trastes. Salvaram tua vida. Pega leve. Volto daqui a duas horas com as crianças. Te amo, meu caqui.
¾   Também te amo, minha flor.
###
¾   Diga aí, vaso ruim! Que presepada foi essa? Tudo isso para reconquistar a Glorinha ou fugir da final? Tá com medinho é?
¾   Medinho? Coxinha, você vai ver o tamanho do meu medinho agora! Bola5, seu traíra da mão mole, fica de guarda na porta do quarto e não deixa ninguém entrar. Cuidado com uma enfermeira nazista do tamanho de um tanque de guerra, ela confiscou minha garrafinha e adora furar veia.  Seu Dô, trouxe o material?
¾   Palito e cachaça.
¾   Não bebo cachaça. Não trouxe o meu uísque e minha coca por quê? Tá de conluio com o caqui suicida?
¾   Tudo bem, Coxa, vamos no seco mesmo, mas aí você começa playboy.
¾   Ok. Três.
        Reboque pensou nas variáveis possíveis. Coxinha escolheu três para colocar dois contando com Reboque colocar só um. Coxinha é muito guloso, adora números pares e nunca bota zero. Lona na final nunca foi vista nesta roda. Reboque, tricampeão do bairro, conhecia o adversário desde menino e concluiu que o advogado iria jogar lona para surpreender. Fechou a mão vazia e se preparou para gritar lona. Antes de jogar levou o punho cerrado ao peito e sentiu o caqui queimar seu coração. Abriu a mão mostrando três palitos:
¾   Quatro!
Coxinha pulou da cadeira e abriu a mão vazia.
¾   Lona! Ganhei! Novo campeão nas paradas!
        Coxinha foi erguido pelos amigos e carregado pelo corredor do hospital aos gritos de “É campeão”. Reboque assistiu a cena em silêncio, sorriu e acariciou seu caqui.