sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Dívida histórica


Quem olhava para o meu roçado esturricado, as galinhas carecas e Vaidosa, a vaca leiteira, com as costelas assanhadas e as tetas secas, pensava logo que eu não cuidava da posse. Mas Deus é testemunha que não havia galo que, ao acordar, não me encontrasse lutando no roçado. Por mais que cavasse não brotava água nem para amolecer a terra.

Os meninos sem condução ou disposição na barriga para ir até a escola por um mingau ralo, iam ficando por ali mesmo catando mandacaru e xique-xique. A mulher toda manhã vagava duas léguas com o mais velho para catar água na poça sobrada do açude. A vida cobrava mais do que dava e nem o Sol, que nunca faltou, se compadecia do nosso miserê.
Um dia uns homens de sapatos pretos em carro de roda larga chegaram medindo telhado, colocando calha e cano até uma caixona enfiada no chão. Tampada que nem uma chaleira guardava a escuridão. Aí veio os meses da chuva e a caixa encheu. Os homens trouxeram médicos de fala esquisita, mas de boa mão. Um ônibus passou a recolher as crianças para a escola e devolver no fim do dia de barriga e cabeça cheia.  Desde que passamos a receber um dinheirinho  precioso que pinga todo mês, não falta mais comida nem pras galinhas. Vaidosa engordou e voltou  a leitar. Dá gosto ver a macaxeira brotando no roçado para vender na feira da cidade. O mais velho já sabe ler e conhece os números  ajudando nas contas. A patroa não precisa mais carregar água e deu para fazer uns cestos de palha para vender com a macaxeira. Fincaram uns postes compridos na estrada e a luz veio correndo pelo fio até nossa casa. Com a venda das cestas deu para tirar uma geladeira no crediário. Agora a gente pode guardar comida.
Perguntei pros homens de sapatos pretos o motivo de tanta gastança com minha família. Avisei logo que não havia como pagar tudo aquilo. O homem de gravata disse que já estava pago porque eles tinham uma dívida histórica comigo e que foi o meu voto que possibilitou eles honrarem a dívida. Falaram também que muito tinha para fazer ainda e que com o meu voto só podia melhorar. Assuntei não lembrar de meu pai ter historiado de alguém nos devendo um naco de coisa que fosse. Insistiram. Vou discutir as voltas que o mundo dá?
Agora que estamos mais fortes, podemos lutar de igual com o povo da cidade. O mais velho fala até que vai ser doutor.
Meu pai dizia que milagre é um troço que a gente só colhe se plantar. Hoje eu completo a prosa do velho. Todo milagre precisa de um empurrãozinho para dar munição pra brotar. Domingo eu e a patroa vamos à cidade votar, de novo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Sou nordestina, de pai e mãe.

        
         
Sou nordestina, de pai e mãe. Não me interessa minha origem portuguesa, espanhola, holandesa, indígena ou africana. Sou brasileira e nordestina e isto me basta. Nasci em Maceió, Alagoas e, pasmem, não sou idiota. Amo e conheço minha terra como quem toma um caldo-de-cana ruim pela manhã sabendo que à noite todo o potencial de meu povo pode surpreender.  
         Cresci em uma família de trabalhadores e pensadores que se preocupam mais com a dignidade, alimentação e educação dos seus do que com a rotação da Terra e a opinião alheia.
         Divertidas, se não fossem trágicas, as reações xenófobas nas redes sócias pregando o extermínio do povo nordestino, são de uma virulência tão inócua que remetem à “Revolta da Vacina” no início do século passado ou à penca racista imputada a Monteiro Lobato. Aos ataques infantis seria covardia qualquer revide. De muitos legítimos defeitos de meu povo, um que ele não tem vocação é para a covardia.
         Não precisamos de julgamentos ou aceitação, muito menos de bandeiras defensoras do “orgulho nordestino”. Cada nordestino se orgulha de seus próprios feitos e não de fazer parte de uma região geográfica. Nunca ouvi falar de “orgulho de ser sudestino” para os nascidos na região sudeste.
         Forjamos nossa cultura à custa de muita labuta e humildade; talvez mais humildade do que o necessário. Ajudamos a construir o Brasil de hoje  difundindo e multiplicando nossa arte pelos vilarejos do país e nas grandes metrópoles. Pagamos um preço alto pelo direito ao nosso sotaque, arte, som, opinião, valores e trejeitos: o discurso de ódio travestido de liberdade de expressão.

         Mesmo o coco dormindo no pé e o caranguejo esperneando na lata, na minha casa só entra confiança.