terça-feira, 4 de abril de 2017

Todo o meu pedaço

O amor é inteiro ou apenas um pedaço? Meu conto "Todo o meu pedaço" ficou orgulhosamente em 4º lugar no desafio FOLCLORE BRASILEIRO do site Entre Contos. Leia o meu e os outros contos. Seu dia ficará mais belo e completo: https://entrecontos.com/2017/03/10/todo-o-meu-pedaco-calango/comment-page-1/#comment-60228


Todo o meu pedaço ( Catarina Cunha)

Ainda com o torpor da vigilância noturna, Etelvino lavou o sorriso pensando no corpo morno de Melissa entre os lençóis sonolentos. Tirou o uniforme e devolveu a arma da firma, nunca gostou de arma de fogo, carregava por obrigação. Mas Benedita, a companheira das solitárias rondas noturnas, se mantinha junto à coxa esquerda. A peixeira descansava na curtida bainha de couro desde os tempos de menino nos canaviais. Pegou gosto pelo ornamento que lhe equilibrava o gingado. A madrugada recifense, de escuridão escaldante, jogou o homem dentro de um ônibus. Não faria o longo percurso a pé, como de costume, guardaria um pouco de energia para acordar a mulher já com o circo armado. Girou a chave do lar cuspindo as botas e arrancando a camisa.

Os gemidos lhe chegaram aos ouvidos antes da consciência. Meteu o pé na porta do quarto. Primeiro uma tapa de mão aberta na cara da desonrada, enquanto o amante se embolava para debaixo da cama. O vigilante não teve dúvidas, covarde se despacha na peixeira. E tome hora extra para Benedita. A danada acordou da ferrugem e caiu cortando o infeliz em postas irregulares. Começando pela parte deslembrada de vergonha aparecendo ao pé da cama. Pegou no embalo depois da primeira peixeirada braço, beiço, perna, orelha, bagos, miúdos para todo lado. Uma bagaceira de ver e um rebuliço nas tripas de contar. Quando Etelvino terminou o desmantelo, arfando feito um porco possuído, não tinha uma junta amarrada no corpo do miserando. Teve a sensação de que ele próprio suava a inhaca da sangueira.

A pancada nas costas pegou o homem desprevenido, mas Benedita atenta se virou rapidamente. Uma joelhada lhe amoleceu as partes machas, soltando a arma e arriando de vez os quartos no chão. Enquanto agonizava feito caramujo no fogo espremeu os olhos para melhor focar o agressor. Um arrepio, nascido no feofó subindo pela espinhela até o cocuruto, fez do valente um menino.  Até então estava para nascer homem que lhe fizesse borrar os fundilhos, mas pedaço de homem é coisa de outro mundo. Vazou nos cueiros diante de uma perna sangrenta e cabeluda pulando feito cabrito na sua frente.  Fechou os olhos rezando o Pai Nosso com Ave Maria e Crê em Deus Padre para despachar a assombração. Um chute na queixada soltou os dentes e desmontou as ventas provando que a reza era fraca.  Com o calcanhar o Perna Cabeluda afundou o confuso crânio de Etelvino.

A timidez do sol recém-nascido entrando pela janela fez Perna Cabeluda lançar um último olhar para a amante pelada no canto do quarto. Nunca se esqueceria de seu olhar aterrorizado. Saltou pela janela aos pulos sumindo no meio do mato.

A amante jurava inocência, aos prantos, acusando o marido e a perna sumida do amante pela chacina. O causo foi se espalhando feito chuchu na cerca pelas paragens pernambucanas sem nenhum acanhamento. De prosa em prosa foi se agigantando o terror do Perna Cabeluda que atacava os cornos na madrugada. Os homens se olhavam constantemente a procura de alguma protuberância na cabeça. Chegavam mais cedo em casa, faziam tarefas domésticas e procuravam cansar as esposas para não haver carência e nem dar motivo para visita do membro ensandecido.  

Tonho, o barbeiro boa gente,  achava graça no medo abestalhado do povo. Onde já se viu ter medo de perna pulando? Sabia que sua Quitéria era meio assanhada, mas uma belezura que o tratava como um rei. Acreditava no dizer do povo: “ Melhor ser feliz comendo um filé com os amigos do que amargar um sebo sozinho”.  Naquela noite abafada fechou a barbearia mais tarde, cantarolava com as mãos nos bolsos quando sentiu uma brisa lamber suas orelhas.  Olhou para trás e uma sombra se mexia perto da esquina. Seria uma criança perdida a essa hora da noite? Aproximou-se o suficiente para a coisa lhe dar uma rasteira que deitou o barbeiro no chão. Quando acordou, dias depois no hospital, era um homem convertido pelo medo.  Com a bíblia nos peitos relatou a hedionda imagem de uma perna com garras enormes lutando capoeira com um olho lombreiro, pestanudo como um espanador da lua. Quitéria não sabia que o Perna Cabeluda atacava também corno manso e achou por bem nunca mais se assanhar para outro homem, não arriscando assim perder o seu Tonho.

Até então as esposas estavam gostando do bom comportamento dos maridos, uns cordeirinhos. Entretanto Sinhá Dona, recatada do lar de família abastada, sabia que o Sinhozinho vivia se metendo nas redes das criadinhas arrancando cabaço; mas nada temia, era uma boa cristã e não zanzava pelas ruas depois do cair da noite. Enquanto ela dormia, o marido se esbaldava nos braços das quengas.  Acordou sem as cobertas e levantou para fechar a aragem fria da janela escancarada.  As garras do chulezento grudaram na testa de Sinhazinha rasgando a máscara até o queixo.  Depois de um bote certeiro na veia do pescoço voou zunindo noite adentro.  O corpo de Sinhá ficou emborcado na janela em posição indigna mostrando as suas partes vexadas.

Depois do ocorrido, todas as cidades do nordeste,  vizinhas de onde Perna Cabeluda pernoitava, declararam estado de sítio voluntário. Ao cair da noite portas e janelas se cerravam. À boca miúda, para o Coisa Ruim não escutar, diziam que o Perna procurava um sapato para chamar de seu , outros viam muita ousadia para tão pouco e apostavam que buscava vingança por seu infortúnio. Na dúvida, deixavam um pé de sapato de homem na porta de casa como oferenda.

Melissa, vestida de luto fechado, achou digno assumir a responsabilidade pelos feitos da perna perdida e dar fim à desgraça. Lugar de perna morta é junto ao corpo, sete palmos abaixo da terra. Juntou seu equipamento na bolsinha florida e partiu resoluta para o centro da praça. Escolheu a meia-noite que era hora boa para assombração.  Sentou e esperou.  Não deu outra. Atrás de um cajueiro reconheceu a unha encravada do dedão do amante espreitando. Chamou com carinho: 

¾     Vem cá meu forte prum chamego, tô aqui inteirinha procê.

O Perna fez que ia e ficava, olhou comprido com o joelho dobrado já se afrouxando. Melissa continuou a fala macia prometendo o céu. Perna Cabeluda se arrepiou todo se jogando nos braços da amada cafungando o ar de flor. A mulher abraçou o membro amado com saudosa tristeza. Abriu o zíper da bolsinha com uma mão e com a outra foi fazendo cafuné entre os dedos do pé, passou a pasta quente em toda a perna com massagens enlouquecedoras. O cabeludo babava de prazer quando Melissa fechou a boca em traço para não gritar. Puxou a cera fria arrancando todos os pelos de uma vez só. O depilado arregalou o olho de dor, da cera e da traição da amada. Ela chorava abraçada ao pedaço desesperado de amor. Ele foi perdendo as forças até deitar o pé entre os seios da malvada.

Melissa entrou no cemitério com o véu de viúva recente cobrindo-lhe as lágrimas, nos braços carregava o melhor pedaço de sua vida para a eternidade.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Bela

Bela (Catarina Cunha)

bela
Hoje é meu aniversário. Mamãe me enfeitou de vestido branco com moranguinhos desenhados. O laço de fita nos cabelos me deixou bem mocinha com os sapatos emprestados da Cinderela.  Meu príncipe encantado me procura neste salão enfeitado de flores recebendo convidados de mansinho.   Será que vai ter refresco de pêssego?  Gosto mais de presente surpresa,  como a cama branca da Bela Adormecida.
Mas que gente sem graça, vamos animar esta festa dançando meu vestido.  Mamãe, tira meus sapatos para não sujar o lençol. Não chora, prometo nunca mais deitar de sapato. Não fecha a cama, papai, fica escuro. Papai?

sábado, 17 de dezembro de 2016

CAFÉ


Café

Antes de pensar o dia perguntei-me se haveria outra noite suficiente para alimentar todas as bocas estelares. A mudez solar sepultou todos os meus pensamentos óbvios na cova rasa da imensidão galáctica.
Vácuo no corredor.
Meteórico.
Foda.
Odeio o dia começar assim da mesma forma que terminou.
A cafeteira me inferniza com questionamentos domésticos recheados de rotina maternal. Sofro as lamúrias depressivas das marés, como se não bastasse o que tenho que assistir inerte.
Suporto o beijo do aroma do que odeio amar.
Fé e mar.
Café.
Saudade do que nunca se é
Foda.
Odeio o dia começar assim da mesma forma.
O movimento de rotação me embrulha o estômago e sucumbo ao tédio de goles homeopáticos de translação. Não há latitude suficiente para aplacar a longitude de minha desesperança com tantas certezas absolutas. Obtusas, contra ou pró.
Sempre profundo.
Mundo foda.
Odeio o dia começar assim.
Dou corda na engrenagem alimentando os ventos antes que a violência indomável me jogue os indefesos ao colo. Não sei até quando conseguirei fazer café assistindo essa máquina faminta devorar as próprias entranhas. Precisaria ser mais do que o gelo sobre a febre para cumprir minha missão.
Ficção.
Karma é foda.
Odeio o dia começar.
A cada movimento feroz procuro nos meridianos as causas catastróficas de tão vil existência. Mas não há cálculo infinito possível de resolver equação tão complexa quanto à inexatidão.
Insisto.
Esperança é foda.

Odeio o dia.
Cracas e mais cascas se acumulam sobre meus ombros varrendo minhas forças para a vala do buraco negro. Lá de onde vim, mas nunca entrei. Vejo o fogo consumindo a razão e os dedos das florestas me agarrando.
Deslizam e voam de mim.
Perda é foda.
Odeio.
Ser Terra,
Mas cá tenho café.











terça-feira, 18 de outubro de 2016

Hibisco para todos

No último desafio do Entre Contos, com o tema "Retrô cemitérios", fiquei em 7º lugar com a singela visão de um menino muito engajado em suas teorias sobre vida e morte. Assim como meu filho Ian C Angeli na mais tenra idade, Jonas é capaz de emendar um raciocínio no outro sem perder a ternura jamais. 
Todos os contos possuem comentários que foram feitos sem ninguém saber a autoria, usamos pseudônimos até o resultado; o que dá lastro ao desafio. 
Não deixem de conferir os contos dos outros autores, principalmente o campeão "Mea Culpa" de Daniel Reis e "Belinha" de Anderson Henrique.
Com vocês, 

"Hibisco para todos":

Hibisco para todos

Há anos adquiri o hábito de passear nas alamedas do cemitério depois do almoço, lendo as lápides, imaginando a vida daquelas pessoas e sempre terminando meu passeio no túmulo 1672, quadra 9, lar definitivo de minha esposa, que pediu que eu  plantasse um pé de hibisco amarelo, hoje uma frondosa árvore florida. Sento na sombra e conversamos um pouco, conto como foi meu dia, como estão os nossos, e volto para casa.

Dia desses observei um menino, de uns sete ou oito anos vestindo uniforme escolar colher uma flor de minha árvore, a única do cemitério. Achei um gesto bonito. Ontem a cena se repetiu e notei que a árvore estava quase pelada de flores em plena primavera. Na terceira vez que o vi, intrigado, segui a criança para conhecer a quem ele visitava e presenteava diariamente à custa de meu hibisco. Qual não foi minha surpresa ao percebê-lo conversando animadamente, a cada dia, com um túmulo diferente. Devagar me aproximei, mas antes de emitir qualquer palavra, o menino me fulminou com um sorriso:

-   Olá, senhor da árvore amarela. Tudo bem?
-   Você me conhece?
-   Caixa 1672, quadra 9, Estela é a sua mãe?
-   Não, era a minha esposa. Meu nome é Evandro. E o seu?
-   Jonas. Procuro meu pai. Acho que ele gosta de flores amarelas.
-   Percebi. Mas você visita vários túmulos...
-   É que eu não sei onde ele mora. Minha certidão de nascimento não tem o nome de meu pai. Fiquei sabendo um dia desses quando a professora mandou fazer uma redação sobre o dia dos pais. Minha mãe disse que eu não tinha pai. É claro que não acreditei, onde já se viu filho sem pai? Minha prima acha que sou filho de chocadeira, sei que é mentira dela porque minha mãe não é uma galinha e nem eu sou um ovo. Toda vez que o almoço tá pronto, a vizinha chega bem na hora. Minha vó sempre diz “quem é vivo sempre aparece”, e como meu pai nunca aparece, então ele está morto. Não é?
-   Não sei. Talvez não dessa forma.
-   De quantas formas pode se estar morto? Acho muito chato esse negócio de estar morto, então perguntei para a professora porque as pessoas morrem. Ela respondeu que é hereditário. Deve ser a doença que dá em todo mundo. No meu pai deve ter sido um hereditário muito forte porque não deu tempo de eu conhecer. Acho que ninguém conhece meu pai lá na minha rua, então ele deve ficar muito sozinho, lá no céu, sentado nas nuvens olhando para ver se eu estou me comportando direito. A primeira vez que vim aqui foi com a minha vó para eu conhecer o meu vô. Tinha uma foto na casinha e ele era branco com o cabelo preto. Minha vó é preta com o cabelo branco. Lá em casa todo mundo é preto. Não sei a quem meu avô puxou. Deve ser porque antigamente todo mundo era preto e branco ou branco e preto. Todo mundo era parado, não se mexia como a gente de hoje. Gostei muito daquela casinha. Quando o hereditário me pegar vou querer a minha casinha redonda como o casco do Leonardo, que é a tartaruga ninja que usa a máscara azul. Aí eu vou poder encontrar o meu pai, mas antes eu tenho que encontrar a casinha dele, né?

-   Faz sentido. Estou vendo que você gosta muito de flor, meu rapaz.
-   Eu não gosto de flor porque estou vivo. Depois que vi minha vó colocar flores para o meu vô sei que morto gosta de flor. No céu não deve nascer nada naquelas nuvens.
-   Mas você não precisa colocar flor todos os dias se não as flores se acabam aqui igual nas nuvens.
-   Não tinha pensado nisso, talvez seja melhor só conversar mesmo.
-   Também acho. E com esse aqui você já conversou?
-   Já, mas acho difícil ser o meu pai. Não percebeu que ele nasceu depois de mim?
-   Distração minha, me desculpe. Em que ano mesmo você nasceu, Jonas?
-   2007. E você, Seu Evandro?
-   1807, mas isso é outra história.
-   O senhor está muito bem para a idade.
-


   Bondade sua. Olha esta casinha aqui. A foto é de um homem muito distinto. Vamos perguntar se é o seu pai?




         

O gato, o pinguim e um brinde.

Este conto participou do Desafio de
Terror Recanto das Letras (DTRL28). Não entendo de literatura de terror, sendo a técnica extremamente difícil para mim; mas prestigiei o desafio com um conto-crônica do cotidiano. Isto é, ao meu ver, o verdadeiro terror:
O gato, o pinguim e um brinde.
         Por mais bêbado que Onofre se esforce, não tem como não ver e odiar a plaquinha ridícula pendurada na porta: “Lar doce lar”. Prometera aos próprios colhões um dia matar Zelda com essa placa. Bater tanto naquela cabeça oca até explodir como um ovo no micro-ondas. Já estava até vendo o sangue respingando nas cortinas floridas, no tapete sempre branco e no maldito pinguim, todo dia o encarando quando abre a geladeira. Pensou o quanto aquele bibelô encaixaria como uma luva na goela do gato de nome escroto: Feliz. Riu com a ideia da cena, arrancou a placa e socou a porta.  
 Quero mijar, porra! Porta filha da puta cheia de tranca, como se nesta merda tivesse algo de valor. Acorda bruxa preguiçosa! – gritou, com a urina escorrendo entre as pernas enquanto a porta se abre.
-   Até que enfim, amor. Eu estava tão preocupada. As crianças não aguentaram e foram dormir.
-   Puta que pariu, parece uma assombração no escuro.
-    Comeu alguma coisa, Onofre? Preparei o jantar. Tá no forno. Quer que esquente?
-   Pode dar essa merda pro gato. Tô sem fome, me deixa em paz. Vai ver a porra da tua novela.
-   São duas horas da madrugada, Onofre. Você bebeu muito, vem cá, vamos tomar um banho e dormir.
-   Foda-se se eu bebi, cheirei ou comi uma gostosa na rua. Você não tem nada a ver com isso.
-   Não, claro que não, é que a tua calça...
-   Então vai se foder, bruxa velha.
-   Quer uma cerveja?
         Zelda entrega o copo gelado servido com espuma e sorri:
-    Na pressão, do jeito que você gosta.
         Onofre vira de um gole. Faz uma careta e joga o copo no gato que dorme em cima da geladeira. Feliz escapa a tempo, o pinguim não, se esfarelando na parede.
-   Que merda de cerveja é essa? Esta bosta tá choca.
-   É uma cerveja especial belga.
-   E eu sou homem de tomar cerveja de bichona?
-   Achei que você...
-   Cala a boca ou te encho de porrada. Já esqueceu de ontem? Mulher feia tem memória curta, tem que apanhar todo dia.
-   Não aguento mais isso. Se você me bater mais uma vez eu chamo a polícia.
-   Agora a gorda virou feminazi? Não tem o que fazer? É o que dá ficar fofocando na internet o dia todo. Tá chorando por quê? O que te falta nesta casa? Tem tudo do bom e do melhor. Já sei: arranjou um namoradinho virtual, né? Pede desculpas,  vem pagar um boquetinho aqui no papai,  ou corto a internet e a tua língua.
-   Faço tudo para te agradar. Não mereço ser tratada como lixo.
-   E você acha que é o quê? Eu sei o que você quer.
-   Sai daqui, não quero mais você nesta casa!
-   Vem cá, minha vaca.
-   Me larga, se não eu grito.
-   Vou comer esse rabo gordo e gozar na tua boca fedida.
-   Não, tá me machucando, para!
-   Não grita para não acordar as crianças. Ou você quer as meninas na nossa festinha?
-   Ah...
Onofre pendura a placa no pescoço de Zelda, rasga o vestido e arranca a calcinha. Enfia a cara da mulher na pia e a penetra com a secura de uma pedra-ume. Depois de três estocadas, broxa. Segura a mulher pelos cabelos, abre a torneira e tenta afoga-la. Ela não luta.
-   Filha da puta! Agora você vai ficar molhadinha.
         Ele acerta um, dois, três socos na cara de Zelda, que cai no chão trincando os dentes sem reagir. Ele enfia o pau mole na boca sangrando enquanto movimenta a cabeça da mulher com as duas mão. Sem conseguir a ereção, pega o rolo de massa e o pilão de tempero e enfia na mulher. Ela tapa a própria boca para não gritar e se encolhe no chão. Ele chuta seu corpo até que as pernas dele fiquem bambas.  Vomita sobre ela, desliza pelos azulejos da cozinha e apaga.
         Zelda está nua no chão. Com um gemido retira o rolo de massa de dentro da vagina e o pilão de pedra do ânus. O sangue quente escorre pelo piso até o rosto de Onofre roncando. Ainda com a placa “Lar Doce Lar” balançando no pescoço, rasteja de quatro até o marido, limpa cuidadosamente o vômito do rosto dele e levanta-lhe a calça arriada.
         Chora em baixo do chuveiro. Ali fica até a água passar de rubra para límpida. Enxuga o corpo lentamente com uma toalha macia e cheirosa. Passa hidratante no corpo, seca os cabelos, perfuma as orelhas e o decote, veste-se de festa dos olhos aos pés.
         Com movimentos delicados aquece o jantar. Enquanto a água do café ferve, põe a mesa com a melhor toalha e guardanapos de linho. Cantarola uma canção antiga, de algum baile dançado há muito tempo. Verifica cuidadosamente se a porcelana e os talheres estão bem arrumados. Abre o vinho, um roble Malbec de Mendoza, passaram a lua de mel naquele frio lunar. Beberam, comeram, passearam e se amaram muito. Bons tempos. Onofre não tinha essa barriga dura de grávida nem a cara vermelha de cachaça. Suspira servindo as duas taças. Observa o marido com um leve sorriso. Mexe em seu nariz e nas orelhas. Resolve trocar suas calças urinadas e a camisa respingada de sangue. Escolhe uma gravata azul-celeste combinando com seu vestido. Veste-lhe o paletó com esmero. Penteia os ralos cabelos do marido e enxuga a baba escorrendo da boca aberta. Arrasta o homem desacordado e o senta na cadeira da mesa de jantar.  Ele dorme profundamente com o rosto deitado sobre a mesa. Ela analisa a cara mole por alguns segundos e dá-lhe um leve tapa no rosto, depois mais outro um pouco mais forte. Levanta a cabeça do homem pelas orelhas e solta. O rosto bate na mesa com um som oco, mas ele não acorda.
         No armário da cozinha Zelda pega um funil de aço inox e encaixa. Despeja a água fervente, que entra pelo ouvido e escorre pelo rosto do homem. Ele acorda aos gritos com o rosto ardendo, desfigurado por bolhas e carne viva. Agarra o braço com que a mulher segura a panela, mas ela não se desvencilha, apenas emborca o bico da chaleira em direção à boca de Onofre. Ele fecha os olhos com um engasgo e cai, treme envergando o corpo para trás até formar um arco estático.  Zelda abre os olhos do corpo e o amarra sentado na cadeira.  
         Eleva a taça e brinda com a outra sobre a mesa. Apenas o gato ouve um sussurro:
-   Gostou da festa, amor? Feliz aniversário.
***


DTRL28: Temas: Tortura e traição

domingo, 4 de setembro de 2016

Crônica ao “presidento”

Recebi três sugestões interessantíssimas. O mestre e escritor Eduardo Selga incentivou a continuação de minha crônica indignada com o golpe parlamentar. O líder João Gilberto Krepel, com quem tive a sorte de trabalhar, pediu que eu escrevesse uma crônica a favor de Temer. E, por último, fugindo da crônica política chata e apostando na fantasia, como sugeriu o sinceríssimo escritor Rich Dan, com vocês a
 
Crônica ao “presidento”

A viagem de volta da China mexeu com os sensíveis órgãos internos do septuagenário presidente. A bílis lhe subia à língua, diante de qualquer pergunta, deixando suas palavras resumidas à enigmática expressão mesoclítica: Um pronunciamento à nação? “Fá-lo-ei amanhã”. Reunião com os ministros? “Fá-lo-ei amanhã”. Almoçar? “Fá-lo-ei amanhã”. Ir ao médico? “Fá-lo-ei amanhã”.

Assim os dias foram passando sem que o empossado saísse da toca do Jaburu para assumir a Alvorada de uma nação ascendente. A imprensa solidária rasgava-se em imagens gravadas e entrevistas retóricas para preencher o vazio estratégico.  Os partidos e empresários parceiros, inquietos com a situação, faziam dos corredores do Congresso Nacional a cede do governo. Quando o silêncio presidencial já gerava o esgotamento dos remédios tarja preta nas prateleiras das farmácias, o Excelentíssimo convocou a imprensa para um pronunciamento. O país, como conhecido até então, jamais seria o mesmo:

“Minhas primeiras palavras ao povo brasileiro foram pedindo confiança. Muito pensei sobre o assunto nos últimos dias e, para ser digno desse apreço, disponho aqui meus compromissos. Não tirarei os direitos dos trabalhadores, mas também não colocarei todo o ônus tributário nos ombros e o poder nas mãos dos empresários. Não sou covarde, logo não esperem que desvalorize pensões e aposentadorias de pessoas que não possuem força política e física; nem tão pouco coadune com altos salários, aposentadorias diferenciadas e pensões cumulativas no serviço público. Não acobertarei a sonegação fiscal e apoiarei a regulamentação do imposto sobre as grandes fortunas. Não verão minha assinatura endossar a bancada ruralista, dando aval para os grandes produtores destruírem nossas florestas, impossibilitando a sobrevivência dos povos indígenas e a agricultura familiar. Não será
 através de minha inteligência que verão os incentivos à cultura e à educação serem desviados para financiar interesses particulares e escusos. A saúde pública continuará pública como reza nossa Constituição. Não farei conchavos ou aceitarei propina na venda sucateada de bens públicos. Enfim, jamais trairei meu povo e, para honrar meu passado e as gerações futuras, convoco eleições diretas para o cargo de Presidente da República imediatamente”.


Crônica ao “presidento”

Recebi três sugestões interessantíssimas. O mestre e escritor Eduardo Selga incentivou a continuação de minha crônica indignada com o golpe parlamentar. O líder João Gilberto Krepel, com quem tive a sorte de trabalhar, pediu que eu escrevesse uma crônica a favor de Temer. E, por último, fugindo da crônica política chata e apostando na fantasia, como sugeriu o sinceríssimo escritor Rich Dan, com vocês a
 
Crônica ao “presidento”

A viagem de volta da China mexeu com os sensíveis órgãos internos do septuagenário presidente. A bílis lhe subia à língua, diante de qualquer pergunta, deixando suas palavras resumidas à enigmática expressão mesoclítica: Um pronunciamento à nação? “Fá-lo-ei amanhã”. Reunião com os ministros? “Fá-lo-ei amanhã”. Almoçar? “Fá-lo-ei amanhã”. Ir ao médico? “Fá-lo-ei amanhã”.

Assim os dias foram passando sem que o empossado saísse da toca do Jaburu para assumir a Alvorada de uma nação ascendente. A imprensa solidária rasgava-se em imagens gravadas e entrevistas retóricas para preencher o vazio estratégico.  Os partidos e empresários parceiros, inquietos com a situação, faziam dos corredores do Congresso Nacional a cede do governo. Quando o silêncio presidencial já gerava o esgotamento dos remédios tarja preta nas prateleiras das farmácias, o Excelentíssimo convocou a imprensa para um pronunciamento. O país, como conhecido até então, jamais seria o mesmo:

“Minhas primeiras palavras ao povo brasileiro foram pedindo confiança. Muito pensei sobre o assunto nos últimos dias e, para ser digno desse apreço, disponho aqui meus compromissos. Não tirarei os direitos dos trabalhadores, mas também não colocarei todo o ônus tributário nos ombros e o poder nas mãos dos empresários. Não sou covarde, logo não esperem que desvalorize pensões e aposentadorias de pessoas que não possuem força política e física; nem tão pouco coadune com altos salários, aposentadorias diferenciadas e pensões cumulativas no serviço público. Não acobertarei a sonegação fiscal e apoiarei a regulamentação do imposto sobre as grandes fortunas. Não verão minha assinatura endossar a bancada ruralista, dando aval para os grandes produtores destruírem nossas florestas, impossibilitando a sobrevivência dos povos indígenas e a agricultura familiar. Não será
 através de minha inteligência que verão os incentivos à cultura e à educação serem desviados para financiar interesses particulares e escusos. A saúde pública continuará pública como reza nossa Constituição. Não farei conchavos ou aceitarei propina na venda sucateada de bens públicos. Enfim, jamais trairei meu povo e, para honrar meu passado e as gerações futuras, convoco eleições diretas para o cargo de Presidente da República imediatamente”.


sexta-feira, 15 de julho de 2016

BAMBURRADO

Com vocês, o conto "Bamburrado", que me classificou em 3º lugar na etapa final do 1º Game Literário do Portal da Escrita - Oficina de Criação:


Tovico nasceu nos canaviais de Flexeiras e por lá ficou cortando cana até os trinta anos. A desesperança da seca, a mulher e os filhos minguando, a escravidão do senhor de engenho, empurraram o homem para a cidade. Na estrada ouviu o burburinho dos trabalhadores com trouxa de viagem penduradas nas costas. Estava brotando ouro na floresta para quem chegasse. Era dinheiro para nunca mais trabalhar para os outros. Viu o pau-de-arara cheio. Subiu com o caminhão já em movimento sabendo ser sua grande chance. Três dias depois, cruzando caatinga, sertão e mata fechada, chegou à morada do Perdido, que tudo dá para tudo tirar.
Na primeira semana se atracou com um barranco para chamar de seu. Foi tirando dali alguma poeira de ouro e mandando o dinheiro para Salete e os meninos. Não esperava carta, ambos não conheciam as letras por parte de pai e mãe, mas o nome da mulher e endereço tinha decorado. Ficava só com uns trocados para pagar a comida e o alojamento.
Os dias, meses e anos foram provando a fé de Tovico. Amargava lama e umas pitadas de ouro que o Perdido dava para o sonho não sumir de todo. Na véspera de Natal sonhara com uma onça pulando da floresta e destruindo o seu barranco com as unhas. Acordou atacando o barro com a fúria de uma draga. Sentiu a frieza da pedra e arrancou com as mãos a pepita da lama. Nascia dali, do ventre da terra, o seu futuro. Gritou para os céus em agradecimento. Seu corpo tremia de exaustão e alegria.
Correu aos Correios mandar tudo para Salete. Já até via um rio cheio de peixe atravessando a terra cultivada. A grama fresca alimentando o gado gordo, a cadela Baleia correndo atrás das galinhas poedeiras, a casa caiada com reboco e varanda cheia de flor de maracujá. O casamento com Salete vai ser de papel passado e na igreja como manda o figurino. Ele de terno e chapéu, ela linda vestida de branco, véu e grinalda rendada. A festa vai ter buchada de bode inteiro para todo o povoado aproveitar a fartura. Iria revezar a plantação de macaxeira e feijão de corda. De cana não. Tinha o corpo todo lanhado de corte para enriquecer usineiro. Seus filhos não herdarão suas cicatrizes. Vão fazer o que moleque nasceu para fazer: estudar e brincar. Depois da lida, no fim da tarde, descansaria os ossos balançando na rede assistindo o fuzuê das crianças subindo nas mangabeiras e cajueiros.
Antes de mandar o dinheiro foi informado de carta disponível para ele. “Oxente, qual vivente se avexaria em me palavrear com letra?”. Meio incomodado pediu para o moço da loja ler os escritos, que vinham em envelope com as bordas verdes e amarelas, preenchido com letra caprichada:
“Tovico,
Pedi para a professora Ivanilda escrever esta carta porque gosto das coisas bem certas. Esses anos de penúria e solidão quase matam a gente de fome e desgosto. Não posso mais esperar por você e resolvi aceitar o pedido de casamento do Seu Miguel do armazém. Não amo o velho, mas ele me trata com respeito e vai garantir o futuro das crianças. Agora sou uma mulher casada e direita, então não mande mais dinheiro e nem notícias.
Viva o sonho do teu ouro e seja feliz,
Senhora Salete de Albuquerque.
- A desalmada tem até sobrenome agora. - Pensou Tovico com os bolsos cheios de dinheiro.- Pois eu vou é pro puteiro afogar o ganso e a cara na cachaça!
Abriu a porta da boate e gritou:
- Hoje a conta é minha porque eu bamburrei!
***
Clotilde empurra o corpo sobre o balcão.
- Acorda traste. Pega aqui dez cruzeiros pra voltar pro garimpo.
- Oxe, cadê meu dinheiro?
- Você bebeu com teus amigos e torrou tudo com as meninas.
- Não me alembro de nada, Dona Clô.
- Eu sei, meu filho. Lembra o caminho da serra? Então vai tirar lama do buraco e só volte aqui rico.
Tovico levou muito a sério as ordens de Dona Clotilde. Levantou assustado e saiu com os bolsos leves, mas a cabeça inchada de cachaça fazia um perigoso pêndulo. Balançou um olho comprido pros quartos da mulher que recolhia os copos inteiros no salão da Boate Dragão de Ouro. Pensou com seus calos: “Ainda volto bamburrado e compro essas quengas todas. Ah, se compro!”
O homem da carroça recolhia os defuntos da noite anterior. Alguns de morte morrida e outros de morte matada. A maioria na faca, porque fogo só os homens da lei do Major Curió podiam usar. Corpo com buraco de bala sumia logo. Os desgraçados na peixeira ficavam jogados onde expiravam. Tovico pegou carona na carroça. Sabia que ela passaria nos alojamentos para continuar a coleta, antes de desovar a carga no galpão em frente ao cemitério. Remexeu nos bolsos de um corpo de bruços. Retirou o maço de cigarros amassados e os fósforos. Acendeu agradecendo ao falecido com um tapinha nas costas.
Mais um dia nasce cobrindo de poeira, lama e sangue os sonhos de Tovico.
Catarina Cunha
(Ficção livremente inspirada na reportagem “O sonho da Serra Pelada”, de Ricardo Kotscho):

segunda-feira, 25 de abril de 2016

            Antes do céu clarear, Tião beija a mulher e os filhos como se para sempre.  O caminho até a estação de trem não carece de luz, os pés cegos nunca erraram o caminho. Argamassa com tijolo sobrepõe-se às horas lentas de poeira. Os músculos desabam com o sol. Tião sobe no alto do esqueleto, senta na beira balançando os pés no ar enquanto as formiguinhas lá embaixo urgem. Sorri com o privilégio do pôr-do-sol. Pensa na mulher grávida lavando roupa no tanque e os filhos brincando na viela fétida; sem pôr-do-sol. Abre a garrafa de cachaça, oferta o “gole do Santo” ao vento e vira a danada em um único fôlego. As nuvens correm para a esquerda, enquanto a lua sobe as escadas pelos degraus iluminados das estrelas. Tião vê poesia em seus pensamentos e toda a dor cede. Dança na beirada do abismo como nunca antes. Gargalha sem medo para o céu e grita:

         - Eu estou aqui!

         A manchete do jornal mostrava o enorme engarrafamento gerado pelo corpo de um homem não identificado: “Morreu na contramão atrapalhando o trânsito”. 
        

         (Inspirado na letra de “Construção”, de Chico Buarque)
         

                     
O vulcão de farinha sobre a bancada recebe os ovos com delicadeza. Enquanto  mãos tornam aquele casamento indissolúvel, a água ferve aquecendo o ar da cozinha.  A massa é aberta no rolo de madeira e fica ali, deitada na mesa, descansando da relação intensa. Quando o azeite cobre o fundo da panela, os tomates mergulham despedaçados e se unem para borbulhar sentidos nos narizes vizinhos. Pronta para a faca, a massa se horizontaliza em faixas sobrepostas cada vem mais finas. Entrega-se à água salgada e, ao ser escorrida, anseia pelo êxtase. O brilho denso do molho invade os caminhos por entre seus corpos ondulados. O  queijo ralado chove para derreter-se em pedaços de felicidade. Por fim o manjericão, esse exibido, deita por cima de todo mundo. Está na mesa!