sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O piano e o Opala que virou Toyota


O piano e o Opala que virou Toyota

Quando o piano despencou da nona janela e se espatifou na capota do Toyota do delegado Frazão, não ficou uma testemunha para registrar ocorrência. Quem estava no prédio se fingiu de cego e quem não estava riu muito, certo que escondido. Frazão tem fama de violento e dono da verdade. Dizem que ele foi do tempo que a polícia civil circulava por aí de Opala com a mala cheia de presunto vencido. Vizinho é lixo, mulher tem seu preço, família boa é família longe, amigo é o que paga conta. Ninguém mexe com ele.

Embora todos saibam que nos últimos tempos Frazão vem amolecendo. Dizem que por obra e graça de Norminha, professora primária de corpo e sorriso farto e massa cinzenta nem tanto. Balzaquiana de trança acima de qualquer suspeita.

O amor fincou mudanças visíveis no delegado. A camisa fechada até a gola não mais exibindo o peito cabeludo entre as correntes de ouro, o cabelo limpo e penteado, o sapato engraxado e a camisa por dentro da calça. Se não posse a careca e a barriga gestacional, poderíamos facilmente passá-lo por um dos alunos CDFs de Norminha.

A professorinha vinha domando a fera às migalhas ao chão. Um beijo no cangote, uma piscadela de olho acima do batom, uma passada de dedos suavemente na orelha. Algo além só na imaginação inebriada do pobre homem da lei. Para ela só casando e, de presente, um piano. Sempre quis ter um piano e, é claro, um homem maravilhoso como ele que lhe desse uma penca de filhos rosados e fofos, uma casa digna com pinguim na geladeira e toalha de mesa de encerado florido.

Casaram. No começo só meu pudim prá lá, minha cocada prá cá, risinhos e cochichos nos cantos. Ardências na cozinha e loucuras no banheiro. Não demorou para a falta de talento de Norminha ao piano fazer aflorar o lado mão-branca de Frazão.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A chatice em sua excelência



Eu sou chato. Chato mesmo. E não é só uma suspeita porque minha mãe, que Deus a tenha ao seu lado fazendo tricô, fez essa revelação ainda na minha infância. Quando perguntei o porquê de ninguém querer ser meu amigo mesmo eu sendo o generoso dono da bola da pelada, exigindo apenas ser sempre o atacante e escolher o time todo. A sábia progenitora foi taxativa. Filho, você é muito chato. Que Deus me perdoe, mas você é uma mala sem alça.

A partir desse dia assumi minha chatice tendo a oportunidade de desenvolvê-la ao máximo. Hoje sou um chato inquestionável. Não perco uma oportunidade de exercer o meu dom. Ontem mesmo encontrei a gostosona do 801 no elevador e não pude – não quis – evitar comentar que aquela ridícula meia de oncinha não combinava com seu corpo escultural de cachorra de baile funk. Ponderei dissertando sobre a necessidade de algumas mulheres menos favorecidas mentalmente mostrarem uma imagem brega. Elogio rasgado. Ela não entendeu. Chamou-me de bicha escrota e deu-me com a bolsa zebrada de alças douradas no meio da cara. E olha que nem tive tempo de falar dos brincos que pareciam algemas de fetiche. Tentei imobilizar a rottweiler por trás antes que começasse a morder. A porta do elevador abriu para que o porteiro me visse engatado de conchinha na fera. Socorro tarado socorro. O tampinha pulou no meu pescoço enquanto eu gritava educadamente me larga pau-de-arara xexelento ou eu faço um pirão da tua cabeça de guaiamum. Chega a síndica das compras, tira uma banana da sacola enfia no meu olho quando alcanço seus cabelos vermelhos ameaçando quebrar aquela palha de milho dura espetada na cabeça de maracujá de gaveta. Imobilizado no chão pelo joelho do guaiamum, com a banana enfiada na boca pelo maracujá e a cachorra pisando no meu saco com o salto agulha, suspiro ao ver os homens da lei adentrando o recinto. Algemado, explico na viatura a agressão que sofrera. Cala a boca, maluco, ou perde os dentes. Absurdo. Até entendo vocês não quererem ouvir minha história, não teriam condições de entender nada mesmo. Coitados. Não conseguiram ser nada melhor na vida. Ô azar. Caramba, você quebrou meu dente seu infeliz. Sou chato. Vou processar todo mundo. E tem mais uma surpresinha: sou advogado.