sexta-feira, 28 de maio de 2010

Figurinha repetida


- Abre esta porta, Rufinho, ou eu vou arrombar!

- Pô, mãe...tô quase dormindo...

- Não enrola. Sei que você está na internet falando besteira. Já entrei no chat, sou a Rosinha-só-amor e você é o Rufão-furador.

- Porra, mãe, respeita a minha privacidade.

- Privacidade é o cacete, você só tem treze anos. Abre a porta agora ou eu cancelo a internet.

- Chamou, mamãe?

- Desliga. Agora.

- Deixa só eu terminar esse papo...

- Está marcando encontro com quem?

- Com o Gustavão-do-álbum-da-Copa prá trocar figurinha.

- É pedófilo.

- Para, mãe, que saco. Tô marcando na Praça de Alimentação do Shopping, às quatro da tarde. Deixa de neura.

- Eu vou contigo.

- É ruim de eu pagar esse mico.

- Eu pago o dobro para pegar esse pervertido. E vou levar a polícia.

- Ih...tô fora.

Flagrante preparado, polícia disfarçada na escuta, mãe resoluta esperando. Quatro, quatro e quinze e vinte e trinta e nada. A mãe percebe uma mulher na mesa ao lado com cara de ódio profundo agarrada a um álbum da Copa. Arrisca:

- Gustavão?

- Rufão?

- Não me entenda mal. Sou a mãe.

- Eu também.

- Tem repetida?

- Aos montes!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Focinho úmido


Maristela é sozinha. Tem um cachorro cego e aleijado que leva para passear todas as manhãs; no colo. Entre uma visita ao veterinário e uma parada para conversar sobre os últimos resultados dos exames do bichano, Maristela reclama da vida, do portão, do bairro e de qualquer coisa ou humano. Já encontrei muita gente assim. O que me assusta. Não pelo presente e sim pela possibilidade do futuro. A questão é: o que faz com que pessoas saudáveis, inteligentes e cultas, em um momento xis da vida, adquiram uma nuvenzinha negra sobre a cabeça? Como uma mulher amante dos animais, da família e das plantas torna-se um ser tão negativo? Tenho muito medo do outro lado. Talvez por nunca ter tido a consciência do mal. Sempre acreditei que a bondade existe e ninguém é irrecuperável. Romântico, eu sei, mas sou assim.

Contrariando todas as previsões, ao cruzar com o olhar fuzilante de Maristela tenho vontade de abraçá-la, chamar para um chá, conversar por horas, fazer carinho.

Pode ser o receio de um dia – quem sabe? – sofrer amargura tal que meu coração sucumba ao rancor, minha pele resseque à mercê da solidão e meus olhos se tornem tão frios que seria necessário colírio fervente para abrandar a dor.

Temo pela vida do cachorro de Maristela, o último bastião de afeto e sanidade. O fiel, inocente e presente cão. Temo pelo restinho de humanidade que resta a Maristela concentrado num velho focinho úmido.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Atenção! Última chamada para embarque



- Alberto, estou grávida.

- Como assim, Marlene?

- Grávida, buchuda, prenha, pejada, gestante...

- Eu?

- Não, eu. Você vai ser o pai. Não dá para trocar.

- Como isso aconteceu?

- Não lembra ou quer que eu conte a história da sementinha?

- Não brinca com essas coisas, Marlene. Você sabe que eu não quero essa responsabilidade ainda.

- Ainda? Com 45 anos na cara? Vai esperar para ser pai-avô para apostar corrida de bengala com o filho? Ou ficar brocha e precisar de doação de esperma dos amigos?

- Não quero ter filhos.

- Não sabia. A gente pode tirar, então. Aí nós passamos os próximos vinte anos pensando como seria o moleque ou a moleca. Depois, entediados, adotamos um abandonado para ter com quem brincar e deixar os bens acumulados sem serventia.

- Não é uma má ideia.

- Também acho. Podemos adotar um dia. Quem sabe?

- Quantos meses?

- Dois.

- Na sua idade gravidez é perigosa.

- Depois dos 40 tudo é mais perigoso. Até caminhada dá dor na lombar e beber água pode afogar. Aborto então...

- Marlene...

- E se quiser ter filho comigo é agora: última chamada do relógio biológico.

- Você está me pressionando.

- Eu? Claro que não, Alberto. Só estou expondo os fatos.

- É, mas se for macho eu escolho o nome! A decisão é minha e ponto final.

- E se for fêmea vai se chamar Maria Vitória.

- Nome horroroso. Parece nome de desodorante... Não vou permitir!

- Alberto...

- Marlene...