segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

QUE VENHAM



Lentilhas, abacates, cigarras, família, amigos, lírios e damas-da-noite;
Cantigas, versos, prantos, gargalhadas, chuva e a madrugada;
Gatos, maré alta, ventania, lua cheia, beijo e água oxigenada;
Fé, sonho, magia, desejo, coragem e muito mais café;
Vírgula, til, travessão, ponto, teclado e inspiração;
Mas venham logo. Tenho pressa.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

TROVA RUIM PARA UM DIA QUENTE



MINHA CAIXA FOI ABDUZIDA
O SOL RASGOU ABSOLUTO
SOBRE A PRAIA CHEIA DE FORMIGA,
MAS O MUNDO NÃO ACABOU

50 GRAUS NA MOLEIRA
RUAS UMA PORQUEIRA
GATOS LETÁRGICOS NA SOLEIRA,
MAS O MUNDO NÃO ACABOU

O CANO DO ESGOTO VAZOU
A VIZINHA SURTOU
COMPROMETENDO TODO O NOSSO AMOR,
MAS O MUNDO NÃO ACABOU

FALTAM  CIGARROS, CERVEJAS E PIRULITOS
ITENS FUNDAMENTAIS A PREÇOS PROIBITIVOS
SOBREVIVÊNCIA NO BAR COMPROMETIDA,
MAS O MUNDO NÃO ACABOU

CINZAS DE OZÔNIO OFUSCAM O AR
VENTILADORES E CONDICIONADORES BUFAM
ALÉRGICOS ALUCINADOS URRAM,
MAS O MUNDO NÃO ACABOU

A REDE CURTE E COMPARTILHA
MANTIDA SEGURA NA ILHA
NINGUÉM SALVA, NINGUÉM SE ARRISCA,
E, MESMO ASSIM, ESTE MUNDO DE MERDA NÃO ACABOU.






sábado, 1 de dezembro de 2012

Pandora Brasilis



Por incompetência técnica dos maias ou perda de dados arqueológicos não está documentado em que horário se dará o fim do mundo. Hora de Brasília ou do México? Devemos descontar o horário de verão? Na falta de dados científicos vou eleger o meio-dia de 21/12/2012. Estão todos convidados para acompanhar o espetáculo tomando uma cervejinha no boteco da praça – é naquele pé-sujo de sempre mesmo - antes do último almoço: feijoada completa; já que cai numa sexta-feira.
Até lá preciso resolver um monte de coisas. Vou comprar um cofre forte a ser enterrado no alto da floresta da Tijuca a trinta metros de profundidade. Conto com a colaboração dos amigos para a empreitada. Pago a derradeira cerveja na última sexta-feira da terra; literalmente.
O projeto chama-se Pandora Brasilis e consiste em guardar todos os objetos importantes para a humanidade: sabão de coco (ninguém aguenta inhaca de sobrevivente de hecatombe), canivete multiuso suíço ( sim, suíço, não aquele de camelô ou na primeira limpada de unha ele se desmancha todo), dois baralhos completos (no recomeço vai ser um saco, sem internet, sozinho), papel, caneta e clips (o clips é para manter organizado os primeiros escritos da nova era), saca-rolha e garrafa de vinho tinto (terapia líquida a ser envelhecida nas catacumbas do Capeta). Tenho que colocar algo que sugira a roda para facilitar a evolução, mas de forma lúdica. Bambolê e bola de futebol. Feito. Vou deixar apenas dois livros: os meus. Por pura vaidade; vai que, por falta de concorrência, vire enfim o best-seller do quinto milênio. Mas será que os novos líderes da cadeia alimentar saberão ler? Melhor deixar também cartilha do ABC. E também uma tabuada para que não percam tempo tentando decifrar aqueles símbolos no canto inferior das páginas. Poderia colocar também um computador, mas temo pela ausência de eletricidade, internet, rede e vire objeto de adoração como os moais da Ilha de Páscoa. Melhor não. Vai complicar. Bem lembrado, colocar uma rede, já que não se inventou leito melhor. Daqui que a caixa seja aberta pode se passar quinquilhões de anos e algumas pérolas geniais da culinária não podem se perder: incluir caderninho com receitas originais de Feijoada de roda de samba, Sururuzada da Cecilinha, Camarão na Moranga da tia Elce, Lasanha do Sammy, Cozido da Marília, Salmão Gravlax do Ian, Língua ao Molho Madeira da Nelcy e, para os momentos cult da posteridade, o Cachorro Quente da Analu. Deixe-me ver, deixe-me ver... Ah! Lembrei, fósforos, não posso esquecer os fósforos.
Pronto. O ser que sobrevier do Armageddon terá tecnologia de ponta suficiente para criar uma nova civilização com competência instrumental para evoluir e destruir o planeta de novo. Não há motivo para tristeza, partirei em grupo de sete bilhões. Ficarei em pó com toda a galera fertilizando o Universo.