terça-feira, 23 de abril de 2013

À luz das begônias



O sol matinal formava um cone de luz nos tacos da sala retendo-se nas rodas da cadeira. Olhou os pés vestidos com aquelas meias de listras coloridas. Como chegou ali aquela alegria besta para pés mortos? Pensou.
A beleza refletiu nos seus olhos e levantou a mão esquerda bêbada. Na janela um beija-flor planava sugando o peito da begônia. Creuza! Creuza olha que lindo o beija-flor na begônia que eu plantei naquela primavera! Da boca saiu o som sem o próprio reconhecimento. Ooooh...beiibei...lin...gôgô...mavééé...Ahhh!
- Dona Lina, para de gritar. Os vizinhos vão reclamar.
- Ai...a....lí!!!
- Assim não dá. Vai acabar caindo da cadeira de novo.
- Bei..bei....óóó...
- Minha bonequinha está muito agitada hoje. Vou te dar um calmante para descansar. Abre a boquinha, toma, vai.
- Nãnã....naa...ohhh...didi...otááá!
- Para de me xingar, Dona Lina, coisa feia. Vou ter de enfiar na força. Assim. Ai! A senhora me mordeu, está ficando além de torta gagá? Não quer tomar o remédio? Hein? Hein?
- Arai...!
- O beliscão é só para aprender a se comportar. Para de balançar essa mão ou vai passar o domingo amarrada de novo. Lembra a bronca que seu filho deu quando a senhora derrubou a sopa em cima da roupa dele? Ele ficou muito chateado e avisou que não vem hoje. Não chora não Dona Lina, mas que besteira... vou tirar a senhora dessa janela deprimente. Dona Lina, que sorte! Está passando aquele filme que a senhora adora “Margaridas da Prússia”.
De costas para a janela diante da tevê, viu o reflexo do que nunca tinha visto antes naqueles conhecidos campos de girassóis da Rússia: um beija-flor colorido esbaldava-se no paraíso preto-e-branco. 

terça-feira, 16 de abril de 2013

O americano do 1401



(Foto Sammy Angeli)
         Nos corredores comenta-se a boca nervosa que o americano do 1401 foi fuzileiro boina verde, daqueles que descascam abacaxi no dente, bebe água de goteira e estanca ferida só no bafo. De poucas palavras, olhar de computação gráfica, movimentos de Matrix, áurea de Blade Runner e pele de pêssego passado cobrindo músculos atracados a ossos longos. A boca em régua nunca enverga. Embora de fala mansa, seu “bom dia” arrepia os intestinos do mais bravo dos homens. Duas pedras azuis de anel de chiclete, fincadas na cara por um dedo ogro, avisam que não veio para tomar caldinho de feijão no boteco da esquina.
         Seu apartamento não emite som algum. Nem uma tevê, rádio, sequer um singelo micro-ondas tão importante para um homem solitário. Recebe entregas neandertais de pizza, uísque e água mineral com gás. Mesmo no tórrido verão brasileiro não tira o surrado blusão de militar. Suspeitam, juram até, de um estranho volume nas costas escondendo uma submetralhadora ou até uma bazuca. Coisa dos esteites.
         Quando tiros atravessaram o sol da manhã de domingo encontraram árvores, calçadas e corações ainda amaciados pelo torpor das cores imberbes. Enquanto alvos urravam a imbecilidade das vítimas, a síndica ligou para a polícia informando que o americano do 1401 estava fazendo tiro ao alvo no povo na praça da janela do prédio. Vários corpos jaziam no solo.
         Enquanto a polícia arrombava a porta do americano do 1401, os tiros do franco atirador farejavam uma perna desavisada detrás da árvore, um braço fino agarrado num esqueite, uma orelha curiosa agarrada na pilastra. Não se perdia uma bala. O sangue marcava seu território indelével.
         Quando entraram no apartamento encontraram um aquário enorme no meio da sala. Peixinhos coloridos desfilavam para um gato gordo e sonolento encrustado no sofá. Na mesa de centro jasmins guardavam segredos e no chão, nada, absolutamente nada.
Ouviu-se um grito enganchado de CD pirata, em seguida o som oco das coisas definitivas. Coisa de um ato só. Galho quebrando, disjuntor desarmando, topada ou amor acabando logo acima do apartamento. Correu-se aos métodos um andar. A porta já estava entregue.  No peitoril da janela um jovem franzino exibia o pescoço em ângulo de 90°. Pendurado no braço direito um fuzil automático com mira telescópica de filme de sessão da tarde. Ao seu lado, sentado no chão, o americano do 1401 observava as nuvens indomáveis. Nunca entendera aquele povo, tão veloz, tão colorido, tão barulhento, tão puro, tão lindo, tão estridente, tão violento, no entanto tão previsível; como as nuvens. 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Ainda Alagoas


Gaivotas na termal. Não pairo culpa. Até por que nada vejo. Evaporo entre uma nota e outra antes dos tons pastéis do céu nascer, antes do eu acordar sibila o som que tudo promete. Há de acordar algo antes da fatura, antes do cartão de crédito, antes de eu conseguir de meio olho escanear o ganho e a perda. De passagem, te foder.  Antes, antes, antes; depois, só dívida na quina da mesa. Do ontem, dos teus aqui, quisera amanhã um clique da paisagem. Eu não vejo culpa, só a bílis carente beijando pés. Não beijo pés. Nunca. Cravo meu petardo, rasgo o futuro com a inocência dos bravos, com o regurgitar dos fetos; com o ódio dos babacas mato o herói. Que me trucidem de urbanidade. Nada temo; tenho CO2 brotando dos poros e o zumbido dos insanos alimentando a carótida. Venci. Que caiam nuvens, que caia a conexão, que caiam maracujás e cajus na areia branca de Alagoas enquanto o mar lambe, goza e descansa a minha febre. Porque ninguém é o que pensa.