sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O ano do ovo



         Berta encarou a tradicional lista de ansiedades do novo ano pregada na porta da geladeira:
1.   PARAR DE FUMAR
2.   DETONAR CACARECOS
3.   SER FLEXÍVEL
4.   PERDER CINCO QUILOS
5.    ABANDONAR A INTERNET
6.   NÃO LER MAIS HORÓSCOPO
7.   COLAR TACOS SOLTOS.
O primeiro item há vinte anos bate ponto na lista, conquistou status de líder absoluto dos objetivos.  Cruel e cascudo, humilha Berta todos os anos e sempre volta para tirar onda com a cara dela. Por doze meses exige, cobra, lembra, enche o saco. Não vai mais tolerar toda essa opressão. Está expulso da lista.
O segundo envolve grande operação de administração e logística. Quantas canetas, tesouras, penduricalhos, carregadores de celular, lembrancinhas lindas e inúteis, potes de sorvete, panos de chão, brincos, colares, dicionários, relógios, botões e imãs de geladeira precisamos numa casa? Pensando bem... Todos! Risca logo da lista e não se fala mais nisso.
Berta passou a vida toda sendo chamada de inflexível. Deveria ser mais compreensiva com os racistas, homofóbicos, salvadores de almas, gente sem palavra, malucos de plantão, ladrões, corruptos, estupradores, egoístas, espertos e assassinos; afinal ninguém é irrecuperável e a gente tem de aprender a conviver com a diferença. Não confundir diferença com má índole. Poderia ser menos enjoada com os prolixos, nunca teve paciência com eles. Sente até culpa. Como é? Não vai dar. Tolerância zero para quem só lhe dá zero de retorno. Sai.
Perder cinco quilos devolveria certa dignidade e o direito a voltar a entrar em algumas roupas acanhadas no armário. Dizem, verdade ou gentileza, isso não vem ao caso, que Berta está ótima, mas o espelho discorda. Pensando bem, já faz duas horas de exercício por dia e come sobras de um passarinho. Para perder vai tirar de onde? Vai passar fome? Vai dispensar a cervejinha e o papo mole no bar? Jamais! Pode ir saindo desta lista que não te pertence!
Abandonar a internet poderia economizar tempo, mas para que radicalizar? Vagabundear apenas meia horinha por dia já dá para fofocar, fuçar a vida dos outros, resolver pendências, passar e.mails, ler notícias, fazer pagamentos e pesquisas, encontrar amigos e ainda sobra tempo para relaxar jogando uma partida de mahjong. Objetividade e foco. Risca.
Não ler mais horóscopo. Até hoje Berta não sabe por que todas as manhãs lê as previsões do dia para o seu signo. Ela sabe bem que aquilo é escrito por qualquer pessoa da redação. Se fosse escrito por um astrólogo teria o nome dele. E mesmo assim ela não acredita em previsão por meio algum, sejam búzios, cartas, leitura de mãos ou de nuvens. Até porque o cérebro apaga a informação dois minutos depois de ler. Então por que ler? Porque gosta e pronto. Não tem de justificar nada pra ninguém. O tempo é seu e ela pode desperdiçar como bem entender.
Saiu apressada para fazer compras, voltou para casa e leu atentamente as instruções. Terminado o serviço contemplou sua obra. Tacos, antes tropeçantes e arredios, simetricamente presos e nivelados. Pronto: missões cumpridas. Sentiu-se forte. Para comemorar ovo frito na manteiga com pão francês quente. Bem quente.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Nada ao acaso



         Apressado pela Rua das Laranjeiras devora um joelho de padaria. Pensa ouvir um arfar nas costas. Olha para trás e nada vê. Continua ouvindo e andando e vez em quando olha para trás. Nada. Para no sinal da Rua Pinheiro Machado e sente o contato úmido na canela. Um vira-lata baba seu tênis. Vaza! Grita enojado. O cão para, senta e encara com a língua pendurada. Saco. Vai pra casa, cara, você está me confundindo com outro humano. Olha só: vou atravessar a rua agora. Não vem não, fica aí, é perigoso; você entendeu? O cão atravessa junto. Chegam ao laboratório para pegar resultado de exame. Entra ele, o cão é barrado pelo segurança: xô sarna! Melhor assim. Pega o resultado, rasga o envelope. Uma linha impressa e dois segundos são suficientes para minar seu futuro. Faltam pernas, anoitece, senta gelado na calçada. Pensa nas coisas a fazer, no que jamais faria e, principalmente, no que jamais deveria ter feito. Deita os braços nos joelhos. Chora para o chão. Levanta o rosto para o céu puxando os cabelos. Abre a boca para gritar e para. Você ainda está aqui? O vira-lata arfa e balança o rabo. Vem cá. Implora. O cão deita focinho na perna dele mantendo os olhos fixos no rosto molhado do homem. Valeu, cara, eu estou precisando desse apoio. Você não sabe, mas eu sou um merda. Pra você tudo bem, né? Você é um vira-lata muito legal. Eu gostaria de conhecer gente tão legal quanto você. Sabia que eu sempre quis ter um cachorro? Sei. Sei que você entende. Talvez você possa me ajudar. A partir de agora estou muito só. No começo daremos longos passeios e brincaremos na praia. Você gosta de praia? Eu também. Vou precisar de todo o seu amor, dias muito difíceis virão e vai ser só nós dois e quando a dor aumentar contarei com teu abraço babado, meu fiel amigo, e irei...
         Alguém passa diante deles com sacola de supermercado. O cão levanta e acompanha a sacola arfando sem olhar para trás.