terça-feira, 4 de abril de 2017

Todo o meu pedaço

O amor é inteiro ou apenas um pedaço? Meu conto "Todo o meu pedaço" ficou orgulhosamente em 4º lugar no desafio FOLCLORE BRASILEIRO do site Entre Contos. Leia o meu e os outros contos. Seu dia ficará mais belo e completo: https://entrecontos.com/2017/03/10/todo-o-meu-pedaco-calango/comment-page-1/#comment-60228


Todo o meu pedaço ( Catarina Cunha)

Ainda com o torpor da vigilância noturna, Etelvino lavou o sorriso pensando no corpo morno de Melissa entre os lençóis sonolentos. Tirou o uniforme e devolveu a arma da firma, nunca gostou de arma de fogo, carregava por obrigação. Mas Benedita, a companheira das solitárias rondas noturnas, se mantinha junto à coxa esquerda. A peixeira descansava na curtida bainha de couro desde os tempos de menino nos canaviais. Pegou gosto pelo ornamento que lhe equilibrava o gingado. A madrugada recifense, de escuridão escaldante, jogou o homem dentro de um ônibus. Não faria o longo percurso a pé, como de costume, guardaria um pouco de energia para acordar a mulher já com o circo armado. Girou a chave do lar cuspindo as botas e arrancando a camisa.

Os gemidos lhe chegaram aos ouvidos antes da consciência. Meteu o pé na porta do quarto. Primeiro uma tapa de mão aberta na cara da desonrada, enquanto o amante se embolava para debaixo da cama. O vigilante não teve dúvidas, covarde se despacha na peixeira. E tome hora extra para Benedita. A danada acordou da ferrugem e caiu cortando o infeliz em postas irregulares. Começando pela parte deslembrada de vergonha aparecendo ao pé da cama. Pegou no embalo depois da primeira peixeirada braço, beiço, perna, orelha, bagos, miúdos para todo lado. Uma bagaceira de ver e um rebuliço nas tripas de contar. Quando Etelvino terminou o desmantelo, arfando feito um porco possuído, não tinha uma junta amarrada no corpo do miserando. Teve a sensação de que ele próprio suava a inhaca da sangueira.

A pancada nas costas pegou o homem desprevenido, mas Benedita atenta se virou rapidamente. Uma joelhada lhe amoleceu as partes machas, soltando a arma e arriando de vez os quartos no chão. Enquanto agonizava feito caramujo no fogo espremeu os olhos para melhor focar o agressor. Um arrepio, nascido no feofó subindo pela espinhela até o cocuruto, fez do valente um menino.  Até então estava para nascer homem que lhe fizesse borrar os fundilhos, mas pedaço de homem é coisa de outro mundo. Vazou nos cueiros diante de uma perna sangrenta e cabeluda pulando feito cabrito na sua frente.  Fechou os olhos rezando o Pai Nosso com Ave Maria e Crê em Deus Padre para despachar a assombração. Um chute na queixada soltou os dentes e desmontou as ventas provando que a reza era fraca.  Com o calcanhar o Perna Cabeluda afundou o confuso crânio de Etelvino.

A timidez do sol recém-nascido entrando pela janela fez Perna Cabeluda lançar um último olhar para a amante pelada no canto do quarto. Nunca se esqueceria de seu olhar aterrorizado. Saltou pela janela aos pulos sumindo no meio do mato.

A amante jurava inocência, aos prantos, acusando o marido e a perna sumida do amante pela chacina. O causo foi se espalhando feito chuchu na cerca pelas paragens pernambucanas sem nenhum acanhamento. De prosa em prosa foi se agigantando o terror do Perna Cabeluda que atacava os cornos na madrugada. Os homens se olhavam constantemente a procura de alguma protuberância na cabeça. Chegavam mais cedo em casa, faziam tarefas domésticas e procuravam cansar as esposas para não haver carência e nem dar motivo para visita do membro ensandecido.  

Tonho, o barbeiro boa gente,  achava graça no medo abestalhado do povo. Onde já se viu ter medo de perna pulando? Sabia que sua Quitéria era meio assanhada, mas uma belezura que o tratava como um rei. Acreditava no dizer do povo: “ Melhor ser feliz comendo um filé com os amigos do que amargar um sebo sozinho”.  Naquela noite abafada fechou a barbearia mais tarde, cantarolava com as mãos nos bolsos quando sentiu uma brisa lamber suas orelhas.  Olhou para trás e uma sombra se mexia perto da esquina. Seria uma criança perdida a essa hora da noite? Aproximou-se o suficiente para a coisa lhe dar uma rasteira que deitou o barbeiro no chão. Quando acordou, dias depois no hospital, era um homem convertido pelo medo.  Com a bíblia nos peitos relatou a hedionda imagem de uma perna com garras enormes lutando capoeira com um olho lombreiro, pestanudo como um espanador da lua. Quitéria não sabia que o Perna Cabeluda atacava também corno manso e achou por bem nunca mais se assanhar para outro homem, não arriscando assim perder o seu Tonho.

Até então as esposas estavam gostando do bom comportamento dos maridos, uns cordeirinhos. Entretanto Sinhá Dona, recatada do lar de família abastada, sabia que o Sinhozinho vivia se metendo nas redes das criadinhas arrancando cabaço; mas nada temia, era uma boa cristã e não zanzava pelas ruas depois do cair da noite. Enquanto ela dormia, o marido se esbaldava nos braços das quengas.  Acordou sem as cobertas e levantou para fechar a aragem fria da janela escancarada.  As garras do chulezento grudaram na testa de Sinhazinha rasgando a máscara até o queixo.  Depois de um bote certeiro na veia do pescoço voou zunindo noite adentro.  O corpo de Sinhá ficou emborcado na janela em posição indigna mostrando as suas partes vexadas.

Depois do ocorrido, todas as cidades do nordeste,  vizinhas de onde Perna Cabeluda pernoitava, declararam estado de sítio voluntário. Ao cair da noite portas e janelas se cerravam. À boca miúda, para o Coisa Ruim não escutar, diziam que o Perna procurava um sapato para chamar de seu , outros viam muita ousadia para tão pouco e apostavam que buscava vingança por seu infortúnio. Na dúvida, deixavam um pé de sapato de homem na porta de casa como oferenda.

Melissa, vestida de luto fechado, achou digno assumir a responsabilidade pelos feitos da perna perdida e dar fim à desgraça. Lugar de perna morta é junto ao corpo, sete palmos abaixo da terra. Juntou seu equipamento na bolsinha florida e partiu resoluta para o centro da praça. Escolheu a meia-noite que era hora boa para assombração.  Sentou e esperou.  Não deu outra. Atrás de um cajueiro reconheceu a unha encravada do dedão do amante espreitando. Chamou com carinho: 

¾     Vem cá meu forte prum chamego, tô aqui inteirinha procê.

O Perna fez que ia e ficava, olhou comprido com o joelho dobrado já se afrouxando. Melissa continuou a fala macia prometendo o céu. Perna Cabeluda se arrepiou todo se jogando nos braços da amada cafungando o ar de flor. A mulher abraçou o membro amado com saudosa tristeza. Abriu o zíper da bolsinha com uma mão e com a outra foi fazendo cafuné entre os dedos do pé, passou a pasta quente em toda a perna com massagens enlouquecedoras. O cabeludo babava de prazer quando Melissa fechou a boca em traço para não gritar. Puxou a cera fria arrancando todos os pelos de uma vez só. O depilado arregalou o olho de dor, da cera e da traição da amada. Ela chorava abraçada ao pedaço desesperado de amor. Ele foi perdendo as forças até deitar o pé entre os seios da malvada.

Melissa entrou no cemitério com o véu de viúva recente cobrindo-lhe as lágrimas, nos braços carregava o melhor pedaço de sua vida para a eternidade.