sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A cigana leu o teu destino


A cigana coloca as cartas e joga sobre ele um olhar 3 x 4. Coisa boa não pode ser, pensa.

- Vejo um manto negro cruzado por um rio de sangue no meio do corpo. Do pescoço uma cascata branca escorre pelo peito. No dedo da rainha assassinada um diamante coberto com sangue. Todas as pedras de vítimas de injustiças viraram rubis.

- Ai...

- Sorte. Vejo claramente.

- Onde? Onde?

- Na cabeça. Está bem claro nesta carta aqui. O peso da balança da sabedoria equilibra o corpo. Na mão a espada de fogo com gumes nas duas extremidades.

- De quê?

- De ida, de volta. Positivo e negativo. Verdade numa ponta e a mentira na outra, ambas ao alcance do livre arbítrio.

- Como se segura uma espada com dois gumes?

- Pelo meio. Com muito cuidado e os olhos vendados.

- Parece perigoso.

- E é. Também sem volta. Ao assumir a espada jamais poderá voltar ao reino da inocência. Haverá dias escuros como a noite e noites insones de ideias iluminadas. Em vários momentos terás apenas a sombra de tuas leis como aliada e, em alguns, nem ela para lembrá-lo dos motivos que o levaram à guerra. Nestas horas terás de fazer grande esforço para não abrir os olhos e trair teu juramento. Não sucumbirás à imagem em detrimento da equidade. E quando a era da colheita chegar saberás cortar e sarar com a modéstia de um servil e sem a petulância de um rei.

- Afinal, o que serei?

- Livre.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Desperdiçar comida é pecado



Marieta recebeu o beijo de Betinho ainda meio sonolenta. Abriu uma fresta nos cílios e viu o marido sorridente de camisa de time, bermuda, chuteira e meião.

- Amor, to indo prá pelada de sábado, volto pro almoço.

Marieta dormiu mais um pouco, passou na feira e preparou Camarão na Moranga como Betinho adora. Quatro da tarde ligou para o celular fora de área. Às dezoito almoçou sem apetite com as crianças. Às vinte e uma guardou a comida na geladeira. À meia-noite chorou, rezou por Betinho e resignou-se ao sono assustado dos que não sabem embora desconfiem. Três da manhã a campainha toca. Marieta pula da cama com o coração aos gritos. Abre a porta de supetão e dá de cara com um rapaz franzino, recém expulso da adolescência, com a timidez pendurada no chaveiro do carro.

- Boa noite, Dona. Desculpe pela demora. É que meu pai demorou a conseguir me dar os endereços. A Senhora faz o favor de escolher um dos quatro bêbados lá no carro que eu ainda tenho três carretos de malas para entregar.

Quando Marieta viu Betinho babando no ombro de outra peste pensou seriamente em recusar a entrega. Por falta de argumento junto às crianças arrastou a encomenda para dentro de casa. Deu banho, vestiu pijama, beijou a testa. Domingo Betinho dormiu até as quatorze horas. Comeu pão com mortadela, bebeu dez cervejas, brincou com as crianças, assistiu a TV até voltar a dormir no sofá.

Na segunda-feira Marieta fez uma quentinha de Camarão na Moranga, tomou banho com água-de-cheiro, vestiu um vestido florido decotado, pintou a boca, soltou os cabelos. Tocou no apartamento do vizinho solteirão, professor gentil e caseiro.

- Dona Marieta, que surpresa agradável. A Senhora está, com todo o respeito, linda! Por favor, entre, sente um pouquinho. Gosta de jazz e vinho? Acompanha-me? Que prazer então. Camarão? Adoooro!