sábado, 28 de fevereiro de 2009

Eu amo você



Eu amo, amo muito. Amo os setenta anos de minha mãe, mulher guerreira e seus cabelos cor de laranja no leito de morte. Amo despudoradamente os olhos infantis de meu pai viajando indefinidamente em nuvens imaginárias. Amo sim os sábios fantasmas de minha bela irmã, as ausências do forte irmão caçula e as reticências do irmão artista reticente. Amo não, adoro, a minha terra alagoana, esturricada e estuprada sistematicamente pelo poder. Amo, amo, cada vez mais o envelhecimento luminoso de meu homem ao meu lado. Amo os meus amigos pelos simples fato de verterem a pureza bruta dos que escolhem com quem estar. Amo a minha gata dormindo, miando, lanchando pelo. Amo demais, venero a dureza pura de meu filho e seu coração explodindo em paixões. Amo todos os seres vivos, pois deles me alimento, amo a praça, a folha e o vento, meu vento que corre, corre, corre. Amo você porque me lê e também tem seus amores. Amo, não temo, amo, amo e amo cada vez mais o meu direito de amar.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Cida e a televisão


O conto Cida e a televisão foi o líder da rebelião da gaveta verde e o primeiro a obter êxito em sua fuga. Atendendo a pedidos de familiares, concorreu e está classificado entre os 10 finalistas do concurso Contos do Rio 2006. Oficialmente anistiado com sua publicação no caderno Prosa & Verso, do jornal O Globo, em 29/07/06.


Abrir um crediário é negócio complicado. Só por necessidade. A televisão, de imagem preta tremida e branca fora-de-foco, foi sendo invadida por um exército de fantasmas cinzas e, assim, se anunciava o fim. Assistir novela das oito com fantasma é uma coisa mas os jogos da Copa é tortura! Já pensou ver os canarinhos cinzas levantarem a taça preta? Uma TV nova seria um sonho, sonho que virou aflição quando, em plena final da Taça Guanabara, o Fogão ganhando de virada, a desgraçada vai fechando os olhinhos até ficar apenas uma linha triste de luz, último suspiro. Morreu de vez. Foi coisa de urgência abrir o crediário complicado. Sorte a patroa ser gente boa na hora da precisão. Botou o nome lá mas exigiu que fosse coisa séria, tinha que pagar o carnê no dia certo, e apresentar o comprovante a chefia. Se não, não tinha pagamento não. Estava certa ela, disse que tinha um nome a zelar. Eu estranhei, mas gente de posse tem até nome. Eu, tenho uma TV a zelar. Patroa boa ela. Ficava meio tumultuado, mas eu, euzinha, paguei toda a televisão. Graças a Santa da minha patroa, a negada lá da comunidade ia ver a Copa do Mundo em cores e bem grande, como no cinema.
Quando a Televisão completou três meses de aniversário, o canal bom das novelas, o que agente mais vê nos domingos de jogos no Maracanã, foi ficando pálido, o som mirradinho, soltou um gritinho fino e apagou; em seguida, os outros canais também se calaram. Chamei o meu cunhado, rapaz jeitoso, pra ele dar uma olhada na antena da lage. Nada. Chamei a benzedeira, vai que é urucubaca? Nada. A patroa, deusa na terra, me vendo meio borocoxô, perguntou e eu falei:
-Ela morreu, a TV!
A patroa, sábia, contou da garantia, eu não tinha que pagar nada, era só chamar os técnicos.
O homem veio, de uniforme azul, distinto, barbeado. Chegou com um papel grande, com meu nome em cima, com letras importantes. Tive que assinar, afinal era o meu nome e minha televisão. Mexe daqui, mexe dali. Tirou um monte de coisa e olhou, olhou, mexeu, mexeu, e eu ali, com pena da bichinha, toda depenada na frente de gente estranha. Fiquei mais aliviada quando ele botou a tampa e apertou o botão: Linda, cheia de vida e luz.
Para comemorar o feito, rolou uma feijoada na grande estréia do Brasil na Copa. A abertura tinha um gostinho doce de festa e logo contra aqueles gigantes vermelhos! O vizinho entrou com o torresmo, a terceira filha, ajuizada, com o arroz. O feijão, meu nego não deixa ninguém comprar no lugar dele, tem ciência. A couve, a patroa, alma imaculada, deixou incluir na feira. As carnes, a gente pega com seu Zé do Açougue que sempre vai nas nossas festas, enche os cornos e não paga nada. A cachaça e a cerveja nem precisa encomendar, alguém sempre leva.
A lage estava quente com o pagode rolando, quando, chegada a hora de assistir a transmissão ao vivo, o caçula, menino ranhento, vindo fora do tempo, sem compostura, gritou: Cadê a Televisão? Sumiu, desapareceu no meio do festeio. Foi-se. Mas como se só tem gente da comunidade aqui? Procura daqui, procura dali, nada. O pagode parou e, todo mundo foi saindo de fininho procurar onde assistir o evento. Sobrou até feijão. Depois, o vazio encardido da parede da sala, o fio da extensão balançava sem nada a dizer. Depois da louça lavada, cacos e convidados varridos, ficou o vazio cansado. A Patroa, um amor de pessoa, não entende nada de televisão que some na comunidade: Falou de Polícia, Fada, Papai Noel, Justiça e Coragem. Vindo dela a gente entende. Falando daqui e dali, fiquei sabendo que a minha televisão, por necessidade, poderia estar lá em cima, no alto do morro, entretendo os falcões que não podiam abandonar o microondas ligado e eles tinham ordem de sair só quando o serviço estivesse terminado. Coisa de emergência, ficar sem ver o jogo, nem pensar.
Não vou admitir esse tipo indecência com a minha televisão de crediário pago como suor do meu rosto. É verdade. Vou tomar satisfação com a autoridade da área: um menino forte, bonito, mas que precisa ter ciência de que mãe da comunidade merece respeito. Onde já se viu tomar televisão de gente do bem na hora do jogo da seleção? Só dando uns sopapos nele pra ver se entra no prumo. O moleque mandou eu ir prá casa descansar mas como eu não me aquietei, ele chamou os meganhas dele prá me calar.
Descansar é o caramba, eu quero a minha televisão! - Falei para a Patroa, linda, que o negócio estava difícil, sofri ameaça, saiu até no jornal que eu era meio doida querendo bater em meio mundo por causa de uma televisão que não se sabia nem se existia. Ela, mulher única, pensou, pensou, e achou melhor eu não trabalhar mais na casa dela, afinal, era perigoso, alguém poderia me achar lá e...Pah! Ela sempre pensou em mim, boa patroa. Ela me pagou todos os dias em que eu trabalhei e eu pensei, como eu tenho sorte. Tudo bem, eu não tenho trabalho mas tenho uma televisão. Não está aqui, mas é minha.
O meu caçula, o ranhento e feioso, me fez uma surpresa de encher os olhos: Apareceu no barraco com uma caixa tão grande que só dava para ver os cambitos dele por baixo. Disse que era presente. Abri a caixa e lá estava a televisão mais bonita do mundo, enorme, prateada, 29 polegadas, som estéreo e com um controle remoto cheio de botão. É verdade que ninguém, nem minha vó gagá, esperava nada daquele estrupício. Deus é pai e a ex-patroa é Santa. O meu caçula, feito numa noite úmida, bêbada, trouxe, como um príncipe encantado, a Copa do Mundo dos meus sonhos. Ele subiu na vida, agora é trabalhador. Tem ofício. No microondas, lá em cima. E nada nos faltará.

Escrever direito


Pensar e não escrever é inafiançável
Visto que tortura é crime hediondo.
Escrever expulsa e mais aprisiona
Pois se trata de pena de banimento.
Só divulgar liberta
Isto posto, transito em julgado,
Sem direito a recurso,
Voa a palavra solta.

A aula na esteira de malas


Sábado, oito horas de manhã de Sol, avisando:
- Vou chegar a pino!!
Enquanto a maioria dos nativos dirige-se em hordas às praias, cinqüenta almas acomodam-se nas cadeiras canhoto-que-se-ferre para a aula-revisão-simulado de língua portuguesa. Nos olhares vagos no teto, no chão, no ar quente e em cada testa está escrito: Por que eu matei aquela aula da tia Samaritana na quarta série? Para trocar figurinha ou para jogar queimado? Nunca saberei...Seria possível desvendar os mistérios da língua-mãe nas próximas cinco horas?
- Não desiste não! Não desiste não!
O mestre negão entrou na sala, cheio de vontade. Só na entrada, tirou metade da turma do limbo e o restante prometia. Exercício vai, explicação vem, pergunta vai, resposta vem. Sempre tem na turma uma mala que sabe tudo, antes mesmo das demais babas reticentes entenderem a pergunta, a encomenda empacotada responde tudo certo. Uma vaga já é dela. A auto-estima já no dedão, escorre para o cantinho da unha encravada. Vai ser de lascar.
Advérbio vem, conjunção vai, semântica vem, gramática vai e lá está outro ilustre representante da indústria de bagagens, imbuído de pernósticas intenções de aparecer ou fazer o mestre desaparecer, fuzilando esta:
- Olha só... Há controvérsias...!!!
Trata-se de outro tipo de mala - na verdade uma pochete de napa - inversamente proporcional à primeira representante que ostenta a alcunha de mala de legítimo couro. De porco encerado, tinindo.
Controvérsias e idiotices esclarecidas; driblada a esteira de aeroporto, o mestre segue firme em seu propósito de acrescentar luz na mina escura. Coisa de Mito da Caverna. Ele deve ter uma coleção de malas no currículo. Troço louvável, deveria ser canonizado em vida.
Hora da merenda. Pausa para desopilar o fígado porque tem mais!
Pensa bem...O cara está desempregado, devendo o cheque especial, estudando o que já deveria saber e ainda tem de administrar a concorrência leal? Deve ser pré-requisito, sei lá, a inteligência emocional tão em voga neste mundão globalizado.
- Não desiste não! Não desiste não!