quinta-feira, 30 de abril de 2009

Sonrisal extra



Tem cara de vaca e boca de amendoim. Atende a todos na velocidade de uma preguiça e o olhar simpático de uma sucuri. Atencioso com os clientes, cumprimenta com uma gargalhada de hiena e um tapinha de urso nas costas. Sua pele de jaca harmoniza-se perfeitamente com as orelhas símias. O corpo, inspirado em uma cruza de peixe-boi com tartaruga, aparentemente só é capaz de mover a cabeça, as mãos e os pés. Mantém as garras felinas cravadas no balcão enquanto a vítima decide se sai correndo ou pede um Sonrisal extra. Quem entra pela primeira vez na farmácia de Seu Manfredo precisa ser preparado para o que vai encontrar, do contrário perderá a oportunidade de conhecer a pessoa mais gentil e honesta posta no mundo. Em seu coração jubarte cabe toda a cidade e quando alguém morre, Seu Manfredo uiva de dor junto ao caixão. Frequenta todos os casamentos e batizados, sempre aprumado como um pavão sequelado. Faz curativo na molecada e dá injeção de graça nos velhinhos. Nasceu para servir. Todos o adoram, mas toda noite o homem se olha no espelho. Sempre sozinho.

sábado, 4 de abril de 2009

A princesa e o poeta


Nestor apresenta-se como poeta prolífero e radical, mas nos últimos tempos anda carente de musas inspiradoras. Vagando cabisbaixo pela Rua Bento Lisboa, por descuido, entrou no aviário. Parou diante da gaiola e viu-se arrebatado pelo olhar de uma galinha cor de mel. A penosa gritou e Nestor arrepiou-se todo. Foi amor à primeira vista. Comprou o bicho e correu prá casa ofegante.
Batizou a ave de Princesa e passou a tarde toda assistindo a diva ciscar no tapete. À noite, com o apartamento já todo cagado, o poeta começou a escrever seu poema épico galináceo. Varou a madrugada digitando os versos sofregamente enquanto a mascote dormia no sofá. Desencanara, estava de volta à velha forma. Como não pensara nisto antes? Uma galinha princesa!
No dia seguinte, para comemorar com os amigos o triunfante retorno da inspiração, preparou Princesa ao molho pardo.