domingo, 31 de agosto de 2008

Os doze pecados


Doze meninos estavam jogando bola no campinho
Veio uma bala encontrada e ficaram onze;

Onze barrigas estavam crescendo
Veio o desespero e ficaram dez;

Dez crianças estavam estudando
Veio a miséria e ficaram nove;

Nove atletas estavam treinando
Veio o tráfico e ficaram oito;

Oito artistas estavam criando
Veio a censura e ficaram sete;

Sete agricultores estavam plantando
Veio a fome e ficaram seis;

Seis pais de família estavam trabalhando
Veio o desemprego e ficaram cinco;

Cinco jovens estavam vivendo
Veio o álcool e ficaram quatro;

Quatro belos estavam se amando
Veio a doença e ficaram três;

Três poderes estavam conversando
Veio a corrupção e ficaram dois;

Dois poderes estavam disputando
Um foi morto e outro ficou mudo;

O um poder estava cansado
Veio o sono e foi dormir cedo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Analfabeto


Quando o dia nasceu, já tinha terminado de ler o livro: foram trezentas páginas sorvidas sofregamente. Fechou os olhos para digerir tudo aquilo. Depois de quinze minutos ruminantes, teve uma revelação: não sabia mais ler, muito menos entender qualquer coisa escrita. Tinha sido abduzido pelos extraterrestres da ignorância. Desespero puro. Procurou no arquivo morto o abecedário, sem sucesso. Não havia mensurado o perigo subjetivo daquele romance. Nunca mais seria o mesmo. Correu até a sala e pegou o jornal do dia anterior tentando ler as manchetes. Nada, estava completamente analfabeto. Esperançoso, pegou papel e caneta para escrever seu próprio nome...Não sabia! O nome sabia, não sabia quais sinais usar para formar seu nome!
A partir daquela manhã, seria escravo da TV para saber dos acontecimentos do mundo e, para formular uma opinião, ficaria vagando entre os amigos, mendigando impressões sobre o planeta, o aquecimento global e tal.
Com os nervos germinando dos poros, agarrou-se ao primeiro caderno do jornal e chorou copiosamente. A tinta tingiu seu rosto como rímel borrado, revelando todos seus pecados impressos. Sentiu um aperto na boca do estômago e mordeu a beirada do periódico, mastigando compulsivamente as notícias.
Tinha que aprender a viver com aquele troço. Montou uma estratégia de guerra para que ninguém desconfiasse de... Seu novo perfil, digamos assim. O que faria com todas as histórias e a multidão de personagens pipocando na cabeça? Compraria um MP4, adotaria o estilo Juruna moderno; a partir de hoje seria um escritor presente, multimídia, interativo. Não escreveria mais seus textos, estaria livre das arapucas gramaticais. Faria programas de rádio e de TV.
No decorrer do dia, percebeu que não mais se importava com o assustador conteúdo das bulas. Não teria mais de preencher cheques, os cartões foram inventados para isso mesmo. Com coragem descomunal, cancelou emails, orkut, assinatura de jornais e de revistas. Nunca mais teria de fazer anotações na agenda. Agenda? Queimou numa pira improvisada na pia do banheiro. Incinerou todos os compromissos e as torturantes metas. Gargalhou loucamente diante das chamas. As letras flutuavam aniquiladas no ar.
Agora? Agora estava indo correr na praia, ofertar-se ao Sol, fazer castelos de areia com as crianças, jogar cocos nas ondas para os cachorros pescarem e nadar com os peixes. Inscreveu-se em cursos práticos de jardinagem, pintura e origami. Agora conhecia realmente as pessoas, escrevia na mente a voz e o sorriso de cada um. Cultivava jasmim e alimentava o canteiro de ervas. Batia papo com gatos, passarinhos e cachorros. Aprendia rapidamente a interagir com as gentes e os dias cresciam juntos com ele. À noite, dormia o sono exausto dos justos. Era um homem livre, com todo o futuro pela frente. Nunca imaginara ser possível ser tão feliz.
Acordou sobressaltado. Sentiu os olhos vazios e custou a acreditar. Levantou, foi até a porta, pegou o jornal e leu-o com o mesmo tédio de ontem.

O botão do elevador



Cada vez que apertava o botão do elevador acendia uma luz vermelha. Isso era todo santo dia: Inês acordava, fazia xixi, tomava banho cantarolando, escovava os dentes, alimentava e alisava a gatinha, lia o jornal, aguava as plantinhas, tomava café-com-leite e pão-com-manteiga com a família, arrumava a bolsa, vestia a roupa, calçava os sapatos, separava o dinheiro trocado para a passagem, beijava os seus, abria a porta, saía, fechava a porta, descia as escadas, atravessava a praça, pegava o ônibus, sentava na janela, descia no Centro, atravessava a rua, empurrava a porta blindex, dizia bom dia sorrindo para todos no salão e...apertava o botão do elevador.
Era o momento em que o tempo parava, ali, em frente ao botão do elevador. Todo dia sentia um frio na nuca, olhava para a rua e dava uma vontade de sair correndo... mas sempre olhava de volta para o botão do elevador até acender a luz vermelha. Feita a luz, a partir daquele instante, não era mais a Inês que estava ali, a nossa Inês, lembra? A Inês que tem uma gatinha, beija os seus, molha plantinhas e lê jornal? Não! Agora somente Lanna existia, mulher completamente possuída pelo Banco, seu líder supremo, seu amo magnânimo. Ainda no elevador colocava o broche com o logo do Grande Pai. As entranhas impregnadas de balancetes e de normativos eram imperceptíveis sob sua barriga, reta e seca. A bílis, no canto da boca reta e seca, não escorria porque estava presa pela língua bifurcada. O nariz, reto e seco, apontava, amolava e imolava o teto e a todos. Dentro de seu peito reto autenticava um coração seco onde não existe a menor chance para os gerentinhos, tudo seria feito para que não batessem as metas. Tolerância zero para com os funcionários, que engolissem calados a marmita fria e a raiva subalterna. Nas veias de Lanna rastejava um oleoso escárnio para com o vigilante e, para a tia da copa, reservava diariamente doses cavalares de humilhação, muita humilhação. Motoqueiros e maloteiros constituíam a escória do mundo e não lhes dirigia palavras, só insultos.
Especial desprezo era destilado para os clientes, que aguardassem retorno inutilmente, que repetissem suas dúvidas num labirinto infindável de ligações. Mas, para o chefe tinha um sorriso especial de dentes brancos estatuais. O chefe, bobo de covardia, covarde de bobo, jamais conseguiria vislumbrar com seu olhar ruminante a cauda do belzebu dentro daquele terninho vermelho. O dia passava totalmente sob controle, sob circulares, sob reuniões, sob suas patas escondidas sob sandálias de bico fino. Batia o ponto às dezoito horas em ponto e, como um ogro amaldiçoado, voltava para a mesa de trabalho com o vil intuito de preparar as maldades a serem aplicadas no dia seguinte. Última a sair, apagava os dijuntores seguindo passos marciais até a porta.
Assim se passaram singelos vinte aninhos, acorda Inês, luz acende, acorda Lanna, luz apaga...luz acende, apaga, acende, apaga, apaga, apaga! A luz não acendeu na manhã de 24 de junho, dia de São João. Inês olhou para a rua novamente. Lá fora um carrinho de água-de-côco passou lentamente, os ônibus passaram lentamente, gente e cores lá fora. Olhou para a porta do elevador que não abria e a luz que não acendia. O coração começou a pular dentro daquele arquivo lacrado. Uma música veio da igreja ou de dentro dela? Alcançou a porta da rua mas olhou novamente o elevador na esperança de ver a luz e fechou os olhos sabendo quem estava lá. Ouviu Lanna se abrir e o elevador chamar seu nome. Uma ventania louca balançou as copas das árvores; lá fora, o cheiro do mar voava.
Não respondeu, não foi, não abriu os olhos até chegar na calçada. Não olhou para trás. Não, não mais, nunca mais.

Quase carnaval



Veio apressado do supermercado, passou pela mureta da praça vazia e...parou. Meia-dúzia de jovens começavam a ensaiar no coreto algo que não se conseguia identificar: banda de pífano? roda de samba? marchinha? Sei lá, era legal. Moçoilos e moçoilas de pele limpa brilhavam com seus trompetes, flautas, violinos, tamborins, repiques, cuícas, surdos e mudos. O fim da tarde dormia nas calçadas depois de um domingo puxado de praia. Quase carnaval, quase fevereiro pulsando carioca entre o sol e a chuva quente. A Aquarela do Brasil vertia da fonte enfeitiçando os anjos da praça e fazendo revoada de pombos.
Bagunçando o coreto, o bloco foi se formando, criando vida, ficando abusado. E foi chegando gente da praia, gente levantando dos bares, gente saindo da padaria, dos apartamentos escuros, gente de todos os lados, de cima e de baixo. Gente de peruca azul, gente de diadema com antenas, gente de óculos de abelha, gente rindo, gente cantando, gente...gente! Um enxame foi povoando o largo. Chegou o pipoqueiro e o ciclista, o bebê se sacudindo dentro de um carrinho fantasiado de sapo; o cachorro com capa do batman fuçando as pernas suadas e o churrasquinho fazendo fumaça.
Ninguém foi convidado porque todos eram os donos da casa. Confete. Alguém trouxe o cavaquinho e já se dançava sem vergonha e os pés nasciam a cada bum-bum com a poeira subindo. Serpentina. Chinelas havaianas e calções de praia subiam e desciam cantando as marchinhas de ontem, o samba de hoje, conquistando e transformando os rostos e fazendo ondas nos corações. Espuma. As janelas batiam palmas coloridas de velhinhas. O russo e a morena trocavam suor alimentando o ritmo, não tem começo e não tem fim. Ninguém tem pressa, ninguém tem mágoa. A vida segue iluminada de som na réstia de sol, santificado seja o calor infernal. Beijo de sal, bem e mal, unidos, numa tarde de carnaval. Pulsa essa gente bêbada de vida, pastoreiam a chegada da noite acolhendo a festa no burburinho, arrasta-se a esperança nos ombros coloridos deste povo apaixonado.
Ficou por ali mesmo, no bloco, com a manteiga derretendo e amassando no saco de compras.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A estrela baga



Eram amigos do colégio e tinham em comum o gosto pela poesia, rock’n’roll, praia e um fuminho de leve depois da aula.
Naquele fim de tarde de verão, último dia do ano letivo, pegaram a moto e rumaram para Fernão Velho, bucólica cidadezinha do interior de Alagoas. Estava mais para uma vila nascida de uma antiga fábrica de tecidos do que necessariamente uma cidade. As casinhas de desenho animado eram todas brancas com janelas e portas verdes. Cercada de uma rara floresta tropical, mantinha a áurea misteriosa com o cruzeiro no alto de um morro refletido no grande lago. A fábrica fechara há muito tempo, aumentando a sensação de que tudo ali parara.
Chegaram ao Cruzeiro em tempo de assistir o finzinho do pôr-do-sol. O céu rosado tingia a lagoa inspirando os dois a acenderem um. Enquanto André enrolava, Simone observava uma grande estrela perto do horizonte oferecendo luz branca azulada. Parecia oscilar para cima e para baixo. Deu o primeiro tapa e perguntou o nome daquela estrelona. André não sabia, mas achou uma viagem. Tentou lembrar os nomes das estrelas: Ursa-maior? Dalva? Uma desgarrada do Cruzeiro do Sul? Nunca a perceberam antes.
A coisa rolando e Simone e André viram a estrela crescer até pratear todo o lago. Anoitecia lua nova. Contrariando o esperado, tudo em volta estava iluminado pela luz. Um arco-íris formou-se do espelho d’água até o astro. O troço começou a subir lentamente e um som micro-ondas – ûûûû...- vinha de todos os lados. A moto, ele, ela, as folhas, as formigas, o planeta, nada se mexia, só a estrela vagava no vácuo. Quando chegou ao alto do céu brilhava tanto que era preciso proteger os olhos vermelhos com as mãos.
De súbito o som parou e um raio de estrela correu para o outro lado do céu, deixando um rastro de fogo numa lufada de vento. Ao sumir por detrás dos montes deixou só a escuridão e uma baga amassada na estrada.

Meu partido alto




Ai que este homem não me deixa trabalhar!
Olha que o feijão já vai queimar!

Inventa corrida na praia para relaxar
Passeio na feira e camarão para ele cozinhar
Deixa muita louça para lavar
E abre um vinho para namorar

Ai que este homem não me deixa trabalhar!
Olha que o feijão já vai queimar!

Pára em todas as bancas de revistas para degustar
Cata besteira no chão para a casa enfeitar
Canta desafinado só para me encantar
Preenche os meus minutos até me acabar

Ai que este homem não me deixa trabalhar!
Olha que o feijão já vai queimar!

Traz flores roubadas para me amansar
Enche meus olhos de cinema para conversar
Cobre de livros minha mente quase a expirar
E vive, eternamente, a me inspirar

Ai que este homem não me deixa trabalhar!
Olha que o feijão já vai queimar!

Crime seriado



- O senhor confirma a compra no valor de U$ 3.500,00 na loja Sexy Shop Baby em Nova Iorque?
- Não! Não confirmo! Eu já falei que não fui eu! Nem passaporte eu tenho e minhas milhas não dão direito a tele-transporte.
- Estaremos estornando o valor na próxima fatura.
- E os juros também porque eu não vou pagar essa conta.
- Sim, senhor. Por favor, anote o número do protocolo.
Nossa, que dia! Quem será agora?
- Aaaalô!
- Por que você me mandou este e.mail?
- Como?
- Eu não gosto desse negócio de pornografia infantil. Você está doido ou se fazendo? Ainda por cima para o email do meu trabalho. Tarado! Idiota!
- O que é isso Pedro? Está me estranhando? Eu não te mandei nada e muito menos...
- Olha, eu não quero nem saber. Tire meu nome de sua lista e não me ligue mais ou eu te denuncio.
- Espera um pouco. Não fui eu. Eu jamais...
Pipipipi...
Essa agora. Clonaram meu email também. Vou cancelar essa porcaria agora mesmo. Senha não confere? Caramba! Vou à polícia logo.
- Quero registrar uma queixa: Clonaram meus cartões de crédito e estão usando o meu email para divulgar pornografia infantil.
- O senhor é casado? Tem namorada?
- Não, não.
- O senhor teria emprestado os cartões para algum amigo íntimo?
- Não. E eu não sou gay.
- O senhor sofreu abuso sexual na infância?
- Não! Claro que não! Eu fui roubado! Provavelmente na internet. Sei lá.
- O senhor não se lembra. Então bebe ou usa drogas?
- Drogas? Não. Às vezes bebo.
- Entendi. O senhor deu os cartões e senhas quando estava bêbado.
- Não! Caro inspetor, eu só quero fazer o B.O. Aqui está minha carteira de motorista.
- Senhor, aqui consta que o senhor se envolveu em um acidente hoje pela manhã.
- Impossível. Passei a manhã no telefone bloqueando cartões. O carro ficou na garagem e está lá até agora. Que acidente?
- O seu veículo bateu em um poste na Avenida das Américas e foi abandonado no local.
- Menos mal. Eu tenho seguro.
- Mas tinha dois meninos estrangulados na mala do carro.
- O quê? Roubaram o meu carro para uma desova?
- Aha... O senhor trabalha numa loja de brinquedos...
- Sim. Sou o gerente.
- O senhor parece nervoso...
- Nervoso? Eu estou tremendo! Não é todo dia que jogam crianças mortas no meu carro!
- O senhor quer um copo de água?
- Por favor. Obrigada. Ei? Por que você está guardando o copo que usei nesse saco plástico?
- Digitais. O senhor está preso para averiguações. Tudo que disser poderá...
Acordou coberto de suor na fria madrugada de maio. Catou o controle remoto entre as cobertas e, antes de desligar a TV, teve uma sensação de estranha: o seriado que dormira assistindo às 22 horas reprisava na madrugada exatamente no ponto em que dormiu.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Viva a natureza!


Armou a barraca em dez minutos e correu pelado em direção ao mar. Ninguém à esquerda ou à direita. Abaixo só areia branca e oceano azul. Acima o céu idem. Perfeito.
Organizara estas férias por três meses. Aproveitava a hora do almoço para pesquisar na internet os paraísos mais inabitados. Desenhou mapas, fez planilhas de orçamento, revisão do carro. Comprou barraca, saco de dormir e todos os mantimentos listados nos melhores sites de amantes de acampamentos. Leu livros de sobrevivência, de Robson Crusoé a Almir Klink. Reservou cadernos para escrever e clássicos para ler durante o exílio de vinte dias. Fez curso de pescaria e adquiriu kit completo. Levou o básico para cozinhar, mini-farmácia e tudo mais que um homem civilizado precisa para sentir-se seguro.
Na primeira semana explorou o lugar, correu, nadou. Tirou fotos do pôr-do-sol, da espuma das ondas, da barraca, das formigas, dos coqueiros e de si mesmo orgulhoso ao lado da pesca. Escreveu laudas e mais laudas sobre o assombro do silêncio sob a luz da fogueira e a inspiração das estrelas. Dormia exausto até o sol nascer.
A segunda semana chegou tranqüila. Cheia de reticências sábias e autoconhecimento através do aprofundamento da alma e do valor do espírito no tempo e no espaço efêmero. Conversava com siris e gaivotas, brincava com o som dos ventos nos coqueiros e escrevia compulsivamente. Registrava em seu caderno cada impressão obtida na contemplação dos seres vivos, como um Darwin contemporâneo. Decidiu vender o quarto-e-sala onde morava e comprar um terreno por ali. Fazer uma cabana ecologicamente correta e viver do que a terra e o mar lhe oferecesse. Com determinação e ordem tudo é possível de ser realizado.
A terceira semana pegou nosso herói tremendo de febre e com uma dor de barriga fenomenal. Era uma coisa oleosa e líquida de um fedor infernal e impossível de ser contida a tempo de procurar uma moita. Tomou toda a farmácia e conseguiu parar só a diarréia e acalmar a febre por algumas horas. No dia seguinte acordou um pouco melhor e resolveu lavar as roupas e a barraca no mar. A operação durou mais tempo do que imaginava e, no cair da tarde, estava vermelho do sol, pisara num ouriço que não conseguia tirar nem com os dentes e a febre voltara com toda a disposição. Passou uma noite terrível lutando contra pterodátilos assassinos dentro da barraca. Acordou coberto de mordidas de mosquitos e suando frio. Foi até o espelho do carro e viu o homem-elefante, só que mais inchado, vermelho, descabelado e com olheiras enormes. Tomou um antialérgico e desmaiou o resto do dia.
Doze horas depois, com o pé latejando de dor, levantou acampamento dois dias antes do previsto. Estava exausto. Foi direto para a casa dos pais.
Tomou sopinha, recebeu beijos, cafuné, lençóis limpos, soro caseiro, pomadinha e dormiu vinte e quatro horas no ar-condicionado. Acordou comendo pão francês com ovos na manteiga e café-com-leite. É domingo, o pai faz churrasco de picanha e costela enquanto a mãe tira os espinhos do pé. Curte sua última noite de férias assistindo futebol na TV com uma bacia de pipoca com guaraná.
Chegou ao trabalho contando a grande aventura, as descobertas, os perrengues; mostrando fotos e curativos. Era puro orgulho e felicidade. Quanto a vender o apartamento e comprar o terreno, nem se lembrou de comentar.