sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Quase carnaval



Veio apressado do supermercado, passou pela mureta da praça vazia e...parou. Meia-dúzia de jovens começavam a ensaiar no coreto algo que não se conseguia identificar: banda de pífano? roda de samba? marchinha? Sei lá, era legal. Moçoilos e moçoilas de pele limpa brilhavam com seus trompetes, flautas, violinos, tamborins, repiques, cuícas, surdos e mudos. O fim da tarde dormia nas calçadas depois de um domingo puxado de praia. Quase carnaval, quase fevereiro pulsando carioca entre o sol e a chuva quente. A Aquarela do Brasil vertia da fonte enfeitiçando os anjos da praça e fazendo revoada de pombos.
Bagunçando o coreto, o bloco foi se formando, criando vida, ficando abusado. E foi chegando gente da praia, gente levantando dos bares, gente saindo da padaria, dos apartamentos escuros, gente de todos os lados, de cima e de baixo. Gente de peruca azul, gente de diadema com antenas, gente de óculos de abelha, gente rindo, gente cantando, gente...gente! Um enxame foi povoando o largo. Chegou o pipoqueiro e o ciclista, o bebê se sacudindo dentro de um carrinho fantasiado de sapo; o cachorro com capa do batman fuçando as pernas suadas e o churrasquinho fazendo fumaça.
Ninguém foi convidado porque todos eram os donos da casa. Confete. Alguém trouxe o cavaquinho e já se dançava sem vergonha e os pés nasciam a cada bum-bum com a poeira subindo. Serpentina. Chinelas havaianas e calções de praia subiam e desciam cantando as marchinhas de ontem, o samba de hoje, conquistando e transformando os rostos e fazendo ondas nos corações. Espuma. As janelas batiam palmas coloridas de velhinhas. O russo e a morena trocavam suor alimentando o ritmo, não tem começo e não tem fim. Ninguém tem pressa, ninguém tem mágoa. A vida segue iluminada de som na réstia de sol, santificado seja o calor infernal. Beijo de sal, bem e mal, unidos, numa tarde de carnaval. Pulsa essa gente bêbada de vida, pastoreiam a chegada da noite acolhendo a festa no burburinho, arrasta-se a esperança nos ombros coloridos deste povo apaixonado.
Ficou por ali mesmo, no bloco, com a manteiga derretendo e amassando no saco de compras.

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