sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Cida e a televisão

        Em 2006 meu filho, Ian C Angeli, me intimou a participar, com o conto "Cida e a televisão" do concurso Contos do Rio, do jornal O GLOBO e fiquei entre os 10 finalistas. O tema era "futebol". Graças ao acervo do jornal O Globo pude resgatar essa publicação em 29/07/2006, Caderno Prosa & Verso, página 2:


http://acervo.oglobo.globo.com/busca/?tipoConteudo=pagina&busca=a+marca+de+denser

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Uma luva vermelha em Porto Alegre


Cesário segue pela Rua dos Andradas pensando se o frio encolhe ou desperta os neurônios. Sabe que o ar inóspito empurra para debaixo das cobertas. Haja gana para comer as esquinas, placas e meios-fios gelados “à la minuta”. Anda por calçadões apinhados e vidros estilhaçados de agências bancárias. A noite anterior fora a mais longa dos últimos trinta anos e nunca estivera tão acordada. Chegaria a tempo?

Na beira do Guaíba senta num banquinho improvisado vendo o povo encasacado tomando chimarrão e jogando conversa na correnteza. A garrafa térmica, o pote de erva e a cuia, que nos trópicos seria um trambolho, harmonizam-se perfeitamente entre tantos panos. É um povo bem estranho, sai de casa com sete graus molhando os ossos, todo embrulhado em várias camadas de roupas. Lá pelas tantas, com o sol subindo, vai retirando as cascas aos poucos, feito cebola. Vê-se na rua um monte de gente-varal, com casaco, suéter, cachecol, luva e gorro pendurados nos braços. Ninguém reclama, sabem que quando o sol baixar as cascas serão repostas com prazer.

Come-se muito e por preço justo. Bebe-se “vinho da casa” honesto e as cervejas são especiais. As cachaças, embora não tão adoradas quanto o vinho, são primorosas e o povo, ah, o povo do Rio Grande é belo e se movimenta como um índio europeu. Agilmente elegantes e majestosamente silenciosos. Das conversas, ao ouvido estrangeiro, tem-se a rápida impressão que estão a questionar tudo. Parece que um balaio de interrogações foi despejado nos diálogos e ficaram ali substituindo pontos e vírgulas. Puro charme. Teria chegado a tempo?

Observa uma loirinha de cabelos lambidos destoando da paisagem, andando apressada a surrar a calçada com os saltos da bota. Do varal lotado escorrega uma luva de lã vermelha. Quem usaria luvas vermelhas em sã consciência? Cesário corre a colher aquela chance única antes que outro ousasse. Precisou correr para alcança-la. Toca-lhe o ombro. Ela estanca com um salto para o lado oposto. Os olhos suados tentam processar tamanha insolência. Vendo a luva vermelha na mão de Cesário sorri a cor simultânea. Desce a cortina dos olhos agradecidos. Um pudor longínquo arrasta a mão nua pelo cachecol para cobrir o decote. Dentre seus dois incisivos centrais um gentil espaço deixa escapar a revelação: Aquela mulher fará seu coração vago atracar para sempre entre os pneus molhados do cais. Tomará intermináveis taças de vinho em sua companhia. Deixará que povoe seus sonhos, seu banheiro, seu controle remoto. Baixará a tampa da privada regularmente só para que ela sente sem olhar, corredia, falando o tempo todo, puxando o fio do papel higiênico além do necessário, displicente como seus brincos azuis. Manterá sempre a porta sem tranca interna para que ela entre esbaforida jogando aquele varal de roupa no sofá. No sofá, entre um inverno e outro, faremos nossos planos, contas e filhos. Envelheceremos juntos sentados na praça observando os pássaros voando e cagando. E quando a terra chamar iremos abraçados. Chegou a tempo?

Antes que aterrissasse o amor de sua vida escondera-se nos tons do pôr-do-sol no Gasômetro; um espetáculo a parte, injustamente ninguém aplaude.

Ainda dormente guarda os dedos covardes nos bolsos a procura da chave traíra, a que não pode ser esquecida nunca ou ficará trancado do lado de fora. O bafo quente do corredor conforta enquanto o sino grita o fim do dia. Sente o silêncio como um perfume raro forjado para narinas treinadas.