sexta-feira, 26 de março de 2010

Ofício de ossos


Esmeraldina botou no mundo doze criaturas, oito se criaram, quatro Deus levou ainda anjos. E só não gerou mais porque o marido Cícero, coveiro da cidade, morreu de uma síncope. Deitou para fazer a sesta e não acordou mais. Tinha espinhela caída, o que não o impedia, de domingo a domingo, de acordar com as galinhas, tomar duas talagadas de cachaça-de-cabeça e seguir para o cemitério. Cavava buraco até a hora do almoço. Depois tirava uma soneca antes de voltar para acompanhar os enterros e selar as tumbas.

Esmeraldina cuidava da casa, das crias e da roça com os filhos maiores. Cícero não deixou pensão. Só um cachimbo fedido de fumo-de-rolo e uma dívida no botequim do Seu Castroso.

No sertão ser coveiro não apetece a todos os viventes. Tem cabra que tem medo de alma. Cícero dizia que medo de alma era para quem tem rabo-preso com defunto. Por causa disso, Cícero passou trinta anos no ofício sem ser incomodado por viva alma; ou morta. Morto o coveiro, ninguém queria a função funesta. Esmeraldina não era diferente. Nem de cemitério gostava, mais pelo cheiro peculiar do que pelo chororô ou alma penada. Mesmo assim achou um desaforo não ter ninguém para enterrar o pai de seus filhos. O cortejo fúnebre parou diante do lugar onde deveria estar aberta a cova de Cícero, um canto esturricado de barro. A comoção foi grande. Não o bastante para que alguém pegasse na pá. O sol ardia nos lombos de vestes pretas quando Esmeraldina sentiu um pingo de suor molhando os lábios. Mandou sentar o caixão no solo e aguardar sua volta. Atravessou a rua e na birosca do Seu Castroso pediu duas cachaças. Bebeu feito água e limpou a boca com o véu negro. Tirou o cachimbo do bolso e acendeu. Amarrou o vestido de viúva na altura dos joelhos, pegou a pá, fincou na terra com o pé e pensou alto o suficiente para os urubus plantados nas cruzes ouvirem e silenciarem: Eu sabia Ciço, que você não deixaria sua velha sem ofício para sustento.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Uma moto, um Astra e a chuva


Samuel é doido pela rua. Corre debaixo de sol e chuva, caminha pela cidade cheirando folha de árvore, procurando passarinho e macaco, entra em rua e vila só para conhecer. Circula também de moto com a viseira do capacete aberta para sentir melhor o vento. Piloto nato tirou a carteira de habilitação tipo AC na Marinha, onde as instruções foram claras: “Dirige aí!”. Desde então pilotar e dirigir com segurança é uma extensão do seu corpo.

Na última terça-feira, voltando estressadíssimo do trabalho pela Praia do Flamengo debaixo de chuva forte, Samuel pilotava na maciota quando passou ao lado de um Astra e percebeu uma sorridente menina de tranças com o rosto colado ao vidro da janela traseira. Gritou para o motorista apontando para o carro. O motorista do Astra não teve dúvidas e jogou o carro em cima da moto de Samuel que deitou no asfalto.

Quando acordou já estava algemado junto ao meio-fio. Com a calça e a camisa rasgadas sentiu o sangue escorrer pelo braço esfolado. Pelo andar das coisas perdera a pelada de terça à noite. Ainda confuso, tentou entender os acontecimentos questionando o policial que confabulava animadamente com o motorista do Astra. Samuel pensou, tranquilo, bastaria esclarecer tudo. Chamou a autoridade e levou um safanão no meio da cara. O estômago revirou, o sangue ferveu. Nunca apanhara na vida, quanto mais na cara. Começou a se debater tentando se livrar das algemas e a gritar que era trabalhador, tinha documentos no bolso e coisa e tal. Como ninguém lhe dava atenção começou a gritar por socorro e a xingar a mãe de todo mundo. Atendido, levou outro tapa e teve a boca selada com uma fita crepe. Antes de ser jogado na viatura, ainda ouviu o cara do Astra dizendo ser médico e ter certeza de que Samuel estava drogado e que se não fosse sua agilidade teria sido assaltado. O homem entrou no carro e partiu enquanto Samuel gemia sob o lacre.

Levou muito soco nas costelas e puxão nas algemas até chegar na Delegacia. O inspetor olhou o sujeito sujo, ensanguentado, encharcado, com os olhos arregalados e sentiu que a noite seria longa. Mandou tirar a mordaça do meliante e que falasse. Samuel gritou o mais alto que pode:

- Porta aberta, porra!