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Mostrando postagens de Março, 2010

Ofício de ossos

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Esmeraldina botou no mundo doze criaturas, oito se criaram, quatro Deus levou ainda anjos. E só não gerou mais porque o marido Cícero, coveiro da cidade, morreu de uma síncope. Deitou para fazer a sesta e não acordou mais. Tinha espinhela caída, o que não o impedia, de domingo a domingo, de acordar com as galinhas, tomar duas talagadas de cachaça-de-cabeça e seguir para o cemitério. Cavava buraco até a hora do almoço. Depois tirava uma soneca antes de voltar para acompanhar os enterros e selar as tumbas.Esmeraldina cuidava da casa, das crias e da roça com os filhos maiores. Cícero não deixou pensão. Só um cachimbo fedido de fumo-de-rolo e uma dívida no botequim do Seu Castroso.No sertão ser coveiro não apetece a todos os viventes. Tem cabra que tem medo de alma. Cícero dizia que medo de alma era para quem tem rabo-preso com defunto. Por causa disso, Cícero passou trinta anos no ofício sem ser incomodado por viva alma; ou morta. Morto o coveiro, ninguém queria a função funesta. Esmeral…

Uma moto, um Astra e a chuva

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Samuel é doido pela rua. Corre debaixo de sol e chuva, caminha pela cidade cheirando folha de árvore, procurando passarinho e macaco, entra em rua e vila só para conhecer. Circula também de moto com a viseira do capacete aberta para sentir melhor o vento. Piloto nato tirou a carteira de habilitação tipo AC na Marinha, onde as instruções foram claras: “Dirige aí!”. Desde então pilotar e dirigir com segurança é uma extensão do seu corpo.Na última terça-feira, voltando estressadíssimo do trabalho pela Praia do Flamengo debaixo de chuva forte, Samuel pilotava na maciota quando passou ao lado de um Astra e percebeu uma sorridente menina de tranças com o rosto colado ao vidro da janela traseira. Gritou para o motorista apontando para o carro. O motorista do Astra não teve dúvidas e jogou o carro em cima da moto de Samuel que deitou no asfalto. Quando acordou já estava algemado junto ao meio-fio. Com a calça e a camisa rasgadas sentiu o sangue escorrer pelo braço esfolado. Pelo andar das coi…