sexta-feira, 6 de março de 2009

Amor, enfim


Aos 86 anos ainda sente no vento o perfume do amado. Fala dos gostos do homem e, feliz, anuncia os 57 anos de casada. Que homem maravilhoso! Declara. Lembra da mão máscula e gentil segurando-lhe a nuca, deitando-a levemente antes das núpcias. As flores de jasmim roubadas e arrumadas na lapela. Os beijos, os partos, a casa, as festas, a jura eterna e a luz da vela. Vê o sorriso dele no filho e a determinação na filha. Cultiva esse amor todos os minutos em que a natureza lhe reserva de lucidez. Pede um peixe ao molho de camarão como o amado fez há 50 anos naquelas últimas férias de verão. Leva a mão inchada e trêmula aos lábios, acaricia-os como se seus dedos não fossem os próprios a digitar a pele murcha. Olha para o céu e geme baixinho: Estou aqui, amor, me leva...

Tomate e o anel


“Óia o picolé Colegial aí ó!”. Assim passa Tomate do forte do Leme ao forte de Copacabana, pelas areias escaldantes, indo e voltando do nascer ao pôr-do-sol. De pele originalmente branca, de tanto curtir ao sol ganhou o apelido. Gosta de catar objetos esquecidos na praia que pendura em um cordão no pescoço. Tem anéis, pulseiras, lacinho de cachorro, forminha e pá de brinquedo e qualquer coisa colorida ou brilhosa que encontrassem seus pés na areia.
Semana passada Tomate tropeçou num anel prateado com uma pedrona de vidro. Achou lindo e pendurou em local de destaque: no meio dos peitos. Não andou nem dez metros para que uma mulher aos gritos apontasse para ele:
- Ali! Ali!
- Calma, picolé Colegial chegando!
- Meu anel! Ele roubou o meu anel!
Chamaram a polícia. Juntou gente, salva-vidas, vendedor de milho, surfista, jogador de altinho, cachorro e o escambal para defender Tomate, que já declarava:
- Roubei nada, achei tudo.
- Seu policial, o anel sumiu do meu dedo!
- E apareceu no dedão do pé deste Tomate aqui que vos fala, autoridade...
- Eu quero o meu anel!
- Qual deles, madame? Pode escolher!
- O de platina com a pedra de diamante.
- Este bonitão aqui? A senhora tem muito bom gosto prá se vestir quando vem prá praia. Benza Deus...
- Policial, prenda este homem e vamos para a delegacia registrar a queixa.
- Por quê? Eu? O Tomate? Preso?
A zona na areia foi completa. Todo mundo falando ao mesmo tempo. A polícia puxando Tomate de um lado para a viatura e o povo puxando Tomate para o lado da areia aos gritos de “Solta o Tomate! Tá machucando o Tomate!”. Guerra de areia, picolé, milho e cacetada giratória para quem mantivesse as fuças no caminho. Quando conseguiram algemar Tomate, a turba voltou-se contra a senhorinha que leva anel de brilhante para lavar no mar. Jogaram tanta areia na coitada que, antes que fosse enterrada, desistiu da queixa, pensando melhor, ela começou a achar que é bem provável que tenha perdido o anel.
Dessa Tomate escapou.

Prosa vice-versa


Helô não admite ser chamada de mãe de juiz ou vagabunda, diz ter apenas uma essência ordinária. Mora há cinco anos com um companheiro fiel e trabalhador que, compreensivo, sabe da natureza arbitrária de Helô e a sustenta com orgulho. Ela declara amor eterno ao “Seu Corninho”, como ela mesma o chama carinhosamente, mas que na hora do sexo gosta mesmo é de mulher com bundão; embora dê o rabo pro maridão uma vez por semana a título de prêmio. É homem bom e de poucas palavras e taras. Muitas tem ela, o que não é segredo prá ninguém; nem para a filha adolescente que vê na mãe uma mulher honesta. Ninguém duvida. Helô fala a verdade o tempo todo. Poucos aguentam tanta desfaçatez. É mãe de família zelosa e dona de casa caprichosa. Faz questão de mostrar a foto do “Seu Corninho” e da filha no celular ao mesmo tempo que belisca a bunda de uma morena distraída. Fala alto, cospe no chão, joga bola e porrinha com os amigos do bar. Tem a boca carnuda de onde sai os piores palavrões encaixados em frases de efeito. Orgulha-se de não enganar ninguém, no entanto tem gente que se engana com ela. Fazer o quê?
No fundo, Helô é um homem ordinário num corpo de uma mulher honesta...Ou vice-versa?